Todas as Nossas Escolhas

"Tenho algum medo do arrependimento, por isso tento viver de forma a que esse sentimento ou emoção não esteja presente na minha vida. Mas, o arrependimento nasce de onde, senão das escolhas?"

Tempo de leitura: 4 minutos

“Todas as nossas escolhas, nem sempre é fácil fazer escolhas”

Capitão Fausto

Hoje, venho falar de escolhas e, para isso, apoio-me numa das minhas bandas favoritas, os Capitão Fausto. A música “Escolhas”, lançada no dia 16 de fevereiro de 2026, teve em mim aquele efeito físico típico de quem ouve algo e diz para si próprio “pois é… é mesmo isto”, enquanto acena com a cabeça a concordar. 

Há cada vez mais artistas, a música está cada vez mais monopolizada para determinados géneros musicais que vendem mais e chegam mais longe, mas bandas como os Capitão Fausto, que contam já com 17 anos de existência, são a prova de que existe mais música no nosso país além daquela que provém diariamente do Alentejo. Mas deixo este tema para outro artigo!

Ao longo dos meus artigos, tenho feito um cruzamento ora racional, ora irracional da música com poesia, e, principalmente, como as duas se relacionam comigo. Percebo, claramente, como fazem parte da minha vida, do meu dia a dia, das minhas escolhas e, sobretudo, do que vem depois delas.

Todas as nossas escolhas
Feitas em tempos, sem noção
Regressam transformadas pra lembrar
Que algumas mais antigas voltam sempre a ser questão
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Tenho algum medo do arrependimento, por isso, tento viver de forma a que esse sentimento ou emoção não esteja presente na minha vida. Mas, o arrependimento nasce de onde, senão das escolhas? Começando do início. Vejamos — e corrijam-me se estiver enganado —, existem duas formas de arrependimento: aquele que nasce através de algo que ainda não aconteceu, de uma escolha não feita, de uma escolha por nascer e informe; e aquele que existe, aquele que nasce depois da escolha ter sido feita. Estarei certo? 

Deixando as hipocrisias de lado, assumo: existe, sim, arrependimento na minha vida. 

Mas a maior parte do meu pouco arrependimento vem do seguinte verso: “São impulsivas, são por instinto ou por paixão”. Acredito que tudo o que é genuíno provém do instinto, do impulso e da paixão. E também acredito que tudo isto precisa de uma boa pitada de calma, frieza e paciência. Ora, eu tenho muitas pitadas em mim, mas não estas três, com certeza. As que tenho a mais em mim fazem-me, por vezes, escolher de forma precipitada, nas ocasiões em que, claro, consigo escolher.

Na nossa vida, podemos escolher tudo menos uma coisa. Sempre ouvi dizer isto e acredito que o leitor também: “Na vida, só não se escolhe a família”, e, neste ponto, não me posso queixar! Difícil é escolher o resto, difíceis são as decisões diárias que temos de tomar, cada vez mais. E difíceis são aquelas mais antigas, que voltam para lembrar que as escolhemos ou que, simplesmente, não as escolhemos.

Se há algo que não me arrependo de ter escolhido, és tu, música. Tu, que és companhia e guia em todos os momentos. Tu, que me permites criar e viajar no conforto de minha casa. Tu, que me permites escrever, que te permites ouvir e repetir. Tu, que me permites ser eu. Que me permites pensar nas minhas escolhas, nos meus arrependimentos, que me desafias a expor, a moldar e transformar. É em ti que descanso e recupero, um ventre de cura e de inspiração.

Se, por vezes, te volto as costas, não leves a mal. Se, por vezes, te deixo triste, não leves a mal. Se, por vezes desisto, não leves a mal. Se, por vezes, insisto, não leves a mal. De uma maneira ou de outra, escolhi-te, mas no meio da escolha, existem outras que me desafiam e fazem pensar. Mas continuo aqui. Continuo a acreditar que seja hoje, amanhã ou depois, és uma escolha a tempo inteiro, és uma escolha para ficar. 

Não é Amor amor, se não vier
com doidices, desonras, dissensões
pazes, guerras, prazer e desprazer, 
perigos, línguas más, murmurações,
ciúmes, arruídos, competências,
temores, mortes, nojos, perdições.
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As escolhas não são fáceis e muito menos o amor o é. Mas se amor é o que sinto por ti, o que são guerras e perigos, línguas más e mortes, ciúmes e temores. Se foi a ti que escolhi, de que me serve deixar-te e dar mais tarde lugar ao arrependimento? 

Por isso, continuo aqui, com uma pitada de calma, frieza e paciência. O tempo o dirá. Eu já te escolhi há muito.


  1. Lyrics On Demand. (n.d.). Capitão Fausto – Escolhas. https://lyricsondemand.com/capito_fausto/escolhas ↩︎
  2. Luís Vaz de Camões (n.d.). Ao longo do sereno. In Jornal de Poesiahttps://www.jornaldepoesia.jor.br/camoes37.html ↩︎

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Ricardo Neto, 26 anos. Natural de Amiais de Baixo, Santarém, reside atualmente em Aveiro, sendo o vocalista dos Maria Café, uma banda da região. Lançou também o seu primeiro projeto a solo “Conforto Desconfortável”.

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