Todos os anos, a 15 de junho, assinala-se o Dia Mundial da Consciencialização da Violência Contra a Pessoa Idosa. As redes sociais enchem-se de frases bonitas, imagens com mãos enrugadas, corações roxos e mensagens sobre respeito. Durante algumas horas, fala-se dos idosos com emoção e indignação. Depois, o dia termina e nada mudou, a realidade continua exatamente igual para milhares de pessoas.
Este dia existe porque a violência contra os idosos continua a ser um problema grave, silencioso e profundamente desvalorizado pela sociedade. Existe porque ainda há pessoas idosas a viver com medo dentro da própria casa, porque ainda há idosos abandonados emocionalmente, explorados financeiramente, humilhados, negligenciados e esquecidos. Existe, principalmente, porque o envelhecimento continua a ser visto como um incómodo e não como uma etapa natural da vida.
O Dia Mundial da Consciencialização da Violência Contra a Pessoa Idosa surgiu em 2006, através da International Network for the Prevention of Elder Abuse, em parceria com a Organização Mundial da Saúde. Mais tarde, em 2011, a Organização das Nações Unidas reconheceu oficialmente a data, reforçando a necessidade de alertar os países para um problema que continua em crescimento.
A necessidade da criação deste dia não aconteceu por acaso. Nas últimas décadas, o envelhecimento da população aumentou significativamente em todo o mundo e, em Portugal, essa realidade é evidente. O país está cada vez mais envelhecido e muitos idosos vivem sozinhos, dependentes ou socialmente isolados, mas, enquanto a população envelhece, as respostas continuam insuficientes. Criam-se lares, serviços sociais, estruturas de apoio, campanhas e até linhas telefónicas. Contudo, o problema continua presente, porque muitas das respostas existentes são superficiais ou chegam tarde demais.
A violência contra a pessoa idosa assume várias formas. Nem sempre aparece sob a forma de agressão física visível e, na maioria das vezes, nem deixa marcas no corpo. Existe violência psicológica quando o idoso é insultado, ignorado, tratado como um peso ou infantilizado constantemente. Existe negligência quando faltam cuidados básicos, higiene, alimentação, medicação ou acompanhamento. Existe violência financeira quando alguém utiliza o dinheiro, a reforma ou os bens do idoso sem a sua autorização ou para benefício próprio. Existe abandono quando a pessoa é deixada completamente sozinha, sem apoio emocional ou contacto humano. Existe, também, violência institucional, quando faltam condições dignas nos serviços, quando os profissionais estão exaustos, quando não existe supervisão adequada ou quando o sistema trata os idosos como números… Talvez esta seja uma das realidades mais perturbadoras. Se até as estruturas criadas com o objetivo de proteger os idosos acabam por os maltratar, negligenciar ou desumanizar, então como podemos continuar a acreditar que estamos verdadeiramente a fazer o melhor por eles? Quando o próprio sistema falha, o problema deixa de ser individual.
O mais assustador é que grande parte destas situações acontece dentro do ambiente familiar ou entre pessoas em que o idoso confia. É precisamente isso que torna este tipo de violência tão difícil de denunciar. Muitos idosos dependem emocional, física ou financeiramente daqueles que os maltratam, outros têm medo de ficar sozinhos, alguns sentem vergonha e ainda há aqueles que acreditam que ninguém os vai ouvir e que aquilo é normal.
Há ainda outro ponto muito crítico: o estigma. A sociedade continua a normalizar comportamentos violentos contra os idosos. Frases como “já não sabe o que diz”, “é da idade”, “está senil”, “já não percebe nada” são repetidas diariamente com uma naturalidade assustadora… A perda da autonomia é confundida com a perda da dignidade. O envelhecimento não retira valor humano a ninguém. O idadismo está tão enraizado que muitas pessoas nem percebem que o praticam. Está presente no mercado de trabalho, nos serviços de saúde, na linguagem utilizada e até dentro das famílias. Um idoso deixa de ser visto como uma pessoa completa e passa a ser tratado apenas como alguém “frágil”, “lento” ou “dependente”. É aqui que começa a desumanização e, quando uma sociedade desumaniza os seus idosos, torna-se mais fácil ignorar o sofrimento deles.
Portugal enfrenta atualmente desafios muito sérios nesta área. Há idosos a viver com reformas baixíssimas. Há pessoas completamente isoladas no interior do país. Há famílias sem apoio para cuidar. Há cuidadores informais exaustos física e emocionalmente. Há serviços sobrelotados. Há profissionais insuficientes. Há listas de espera… e há uma falta evidente de estratégias preventivas eficazes.
Fala-se muito em envelhecimento ativo, mas pouco se fala em envelhecimento protegido. Porque não basta incentivar os idosos a caminhar, fazer hidroginástica ou a denunciar que estão a ser vítimas de maus-tratos. É preciso garantir segurança, proteção, apoio psicológico, acompanhamento médico adequado e mecanismos rápidos de denúncia e intervenção.
A violência contra idosos não pode continuar a ser tratada apenas como um tema simbólico de calendário. Não basta colocar uma imagem nas redes sociais no dia 15 de junho. Não basta publicar frases sobre respeito. Não basta iluminar edifícios de roxo. Não basta criar campanhas temporárias… Enquanto continuarmos a criar dias comemorativos sem atuar diretamente no problema, nada vai mudar verdadeiramente.
Os idosos não precisam apenas de homenagens. Precisam de respostas concretas. Precisam de acesso facilitado aos cuidados de saúde. Precisam de equipas multidisciplinares preparadas para identificar sinais de violência. Precisam de apoio domiciliário digno. Precisam de apoio psicológico. Precisam de linhas de denúncia eficazes. Precisam de proteção jurídica rápida. Precisam de fiscalização séria nas instituições. Precisam de combate ao isolamento social. Precisam, acima de tudo, de serem vistos, porque a invisibilidade mata lentamente.
Muitas vezes, só se fala destes casos quando acontece uma tragédia, quando surge uma notícia chocante ou quando alguém morre, mas a violência diária, silenciosa e contínua, raramente chega a ser notícia.
Está na altura de o governo olhar verdadeiramente para o país e redefinir estratégias de intervenção. Não com medidas superficiais que só funcionam no papel. Não com promessas vagas. Não com campanhas emocionais. Urge reforçar os serviços de apoio domiciliário, investir na saúde mental dos cuidadores, formar profissionais de saúde, forças de segurança e técnicos sociais para reconhecer sinais de abuso. É urgente criar mecanismos de denúncia mais acessíveis para idosos. É urgente aumentar a fiscalização de estruturas residenciais. É urgente combater o isolamento social. E é, também, urgente olhar para o envelhecimento como uma prioridade nacional.
Portugal está a envelhecer rapidamente. Ignorar isto hoje será pagar um preço ainda maior amanhã. Todos vamos envelhecer, poucos parecem preparados para lidar com os idosos que já existem.
A solidão extrema tem impacto direto na saúde física e mental, aumentando o risco de depressão, ansiedade, deterioração cognitiva e até mortalidade. Um idoso isolado torna-se mais vulnerável ao abuso, à manipulação e à negligência. A responsabilidade, aqui, não é apenas do governo – torna-se coletiva. Cada pessoa que ignora um pedido de ajuda, cada vizinho que fecha os olhos, cada familiar que desaparece e cada profissional que desvaloriza sinais de abuso.
O Dia Mundial da Consciencialização da Violência Contra a Pessoa Idosa continua a ser extremamente importante precisamente por isso. Porque ainda é necessário relembrar o óbvio. Que os idosos merecem dignidade. Que envelhecer não deveria significar abandono. Que ninguém perde direitos por ter rugas, e que uma sociedade é avaliada pela forma como trata os seus membros mais velhos.
Os idosos de hoje são os mesmos que construíram estradas, hospitais, escolas, empresas, famílias e comunidades. Trabalharam décadas inteiras. Criaram filhos, cuidaram de outros. Não merecem terminar a vida sem serem vistos.
O dia 15 de junho não pode ser apenas mais uma data simbólica no calendário. Tem de ser um alerta. Um incómodo. Um momento de reflexão verdadeira. Este dia tem de ser, sobretudo, um ponto de partida para a mudança concreta. Consciencializar sem agir é apenas uma forma elegante de assistir ao problema sem o resolver… Os nossos idosos já esperaram tempo demais.
Referências
United Nations. World Elder Abuse Awareness Day 15 June. United Nations. https://www.un.org/en/observances/elder-abuse-awareness-day






































































































































