Ontem, enquanto caminhava, melancólico, por uma das ruas da Invicta, perseguindo a brisa que ascendia lentamente pelas artérias húmidas da beira-mar, deparei-me com um objeto que repousava no chão, inerte, praticamente desprovido de vida. Chamou-me à atenção, porque me apercebi de que talvez tivesse sido abandonado, encontrando-se entregue aos caprichos do destino.
Tratava-se de uma luva de cabedal canhota, cardada, com o indicador dobrado por debaixo da palma, como se se recusasse a apontar o caminho a quem por ali passasse, ou então, como se ela própria não soubesse ou tivesse para onde ir. Vi-lhe as rugas decalcadas entre os dedos, como rios secos entre desfiladeiros. De certa forma, isso fez-me aproximar dela, pois lembrou-me de alguém que conheci. Aquela vetusta luva irradiava personalidade, uma identidade única que me trouxe à memória o homem de The Tired of Life (1887), de Ferdinand Hodler. Este mostra os últimos sopros de vida de um velho antes da resignação final, simplesmente rendido à tarefa absurda de continuar a longa caminhada.
A luva, alheia aos passos dos transeuntes indiferentes – de lá para cá, e de cá para parte nenhuma –, mantinha-se imóvel, sem dar qualquer indício de que procurasse ajuda; parecia, antes, encarcerada numa cúpula de solidão. Quase poeticamente, a chuva miudinha da manhã começara a endurecer-lhe o couro, e repousava nela uma espécie de dignidade silenciosa, semelhante à dos animais feridos que se afastam para morrer longe do mundo. Imaginei que fosse capaz de respirar, embora o seu diafragma de couro me desmentisse, hirto como um seixo pousado algures no esquecimento do tempo.
Imaginei, quase em simultâneo, que outras luvas que por ali passassem (refinadas, nas suas linhas de alta-costura, ou mesmo as mais básicas tricotadas a lã) a olhassem de soslaio, vendo um representante da espécie fraco, repugnante, que não vingara no competitivo e meritocrático mundo do calçado. Algures, haveria um déspota das luvas, implacável com os seus súbditos. Um tirano de camurça. Foi e sempre será assim, aqui e em toda a parte. Diz-se por aí, no submundo, que as luvas podem ser terrivelmente cruéis umas com as outras. Isto acendeu em mim uma certa compaixão, uma ternura pelo desconhecido da vida, pelas provações que porventura teria a luva atravessado. Constatei que se aproximava a débil entrega à morte, ao cão, ao diabo, ao cangalheiro do Tempo, que romperiam a qualquer momento para reclamar a sua vida. Assim, aprendi que há objetos que reverberam mais melancolia e coragem do que certas personagens; talvez por nunca fingirem aquilo que não são. A coragem também é isto: reconhecer sem medo quando o fim se aproxima. Uma luva tombada no asfalto é sempre sincera na sua tragédia. Não se ilude em dissonâncias cognitivas; aceita o seu destino sem ripostar.
Imaginei que tivesse pertencido a um oficial dos aliados durante a Segunda Guerra Mundial, transformando uma campanha gélida e difícil num retumbante triunfo, fruto de um dedo quente e confortável que premiu o gatilho de um fuzil M1 Carbine, derrubando a última das linhas inimigas. Tudo graças àquela luva. Imaginei-a articulando o V de vitória, a forma como rangeria na metamorfose, quase como sussurrando a sua felicidade, o seu orgulho de ter colocado a história no rumo certo. Talvez tivesse atravessado florestas cobertas de neve nas proximidades da cidade de Gryfino, na Pomerânia Ocidental, na Polónia; talvez houvesse segurado cartas de amor escritas à pressa entre bombardeamentos da Luftwaffe por entre as ruas de Rennes; talvez tivesse apertado a mão de homens que sucumbiram apenas algumas horas depois, deixando para trás um legado de coragem. Alguns objetos sobrevivem mais do que os seus portadores, carregando, em silêncio, parte das suas memórias. É isto que os eterniza.
E foi então que viajei até ao livro da memória. Imaginei-a a pertencer a um escritor, a alguém excêntrico, que escrevesse com a luva calçada mesmo no pico do verão, argumentando a necessidade de afastar o seu eu da história o máximo que conseguisse, tornando a sua perspetiva invisível ao leitor. Como tal, murmurava-lhe um espírito ao ouvido: “A carne que não te contamine as palavras”. Assim terá feito, afastando-se de si, mas aproximando-se da grande literatura. Talvez a luva pertencesse a Marcel Proust, que era friorento e sensível, mais do que a minha própria mãe (e confesso-vos que nem viajando até à superfície do sol ela tiraria o seu “casaquinho de lã”). Talvez tenha sido a perda daquela luva que adoeceu Proust, matando-o de seguida. Caso contrário, Em Busca do Tempo Perdido poderia ter chegado ao quinquagésimo volume, enlouquecendo-nos algures por entre memórias de odores vastos de pastelaria.
Mas há outro cenário, mais inquietante, que me invade o pensamento: talvez a luva tenha sido afastada do seu irmão gémeo à nascença. Isto leva-me até Paul Auster e aos pares de vidas paralelas que criou em 4 3 2 1. Neste caso, refiro-me essencialmente à história de Hank e Frank, sapatos inseparáveis, que criaram um autêntico movimento artístico. Talvez o hipotético par de luvas se chamasse Juca e Luca. Juca teve a sorte de triunfar na vida, vestindo as mãos do presidente dos EUA – embora, neste momento, haja variadas dúvidas quanto a esta suposta sorte –, enquanto Luca, menos afortunado, caiu em desgraça por o seu mestre perder a mão na guerra, ou numa máquina fabril, ou num acidente suficientemente banal que o torne numa personagem trágico-cómica. Talvez, desde então, Luca, a luva-herói desta reflexão, tivesse passado a vida inteira à procura da outra metade, viajando de terra em terra, fazendo perguntas incómodas, mostrando fotografias do seu desaparecido irmão: “Por acaso viu esta luva?”, dizia sem fôlego, sem esperança. Há objetos que não nasceram para a solidão. Uma luva neste mundo, sozinha, assemelha-se à vil e pérfida amputação do espírito. Hoje em dia, é o que mais há.
Durante alguns segundos, ocorreu-me ainda que a luva talvez não estivesse perdida, mas abandonada deliberadamente. A maldade está por todo lado e o conluio com a luva do Diabo também. Talvez estivesse em marcha qualquer episódio mefistofélico. Ou talvez o seu dono, apenas saturado da rotina, a tivesse atirado ao chão, sem remorso nem culpa, como quem se desfaz duma memória incómoda, encarcerada há demasiado tempo. A quantidade de coisas que nós, humanos, abandonamos sem olhar para trás é assustadora. Pessoas, amores, ideias, promessas, tudo é descartável no mundo de hoje. Temos vocação para abandonar o que é velho e usado, o que perdeu a chama da novidade. A verdade é que, luvas ou não, o tempo encarrega-se de injetar histórias e vivências em todos os corpos com a sorte de envelhecer. O envelhecimento não é meigo com a matéria, é verdade, mas nada ou muito pouco pode fazer perante os fenómenos do mundo, como a memória coletiva.
Por fim, retomei o meu caminho. A luva ficou para trás. Mas durante o resto da manhã, tive a estranha sensação de que ela me dera uma lição de humanidade. Há que estar atento a tudo, mas também a todos, pensei, sem grande brilhantismo. Naquele pedaço de cabedal moldado às nossas necessidades, existia qualquer coisa de profundamente humano além da decadência, do abandono, da resistência inútil ao tempo. Decidi voltar para trás com a ideia de acolhê-la na minha vida. Dei meia volta e desloquei-me para lá. Porém, lá chegado, não havia já vestígios de que alguma vez tivesse ali estado uma ou qualquer luva.
Olhei em redor, quase angustiado, como quem regressa tarde demais ao lugar de onde a oportunidade partiu. Nesse instante pensei no destino errático da vida, na facilidade com que tudo desaparece sem deixar rasto, como tudo permanece indiferente, deslocando-se freneticamente, por vezes, de forma incompatível com o melhor rosto de humanidade.
No fundo, talvez sejamos todos objetos perdidos à espera de que alguém, por um breve instante, num qualquer local, se importe com quem somos ou fomos.

































































































































