Entre 2006 e 2007, a RTP produziu o programa ‘Os Grandes Portugueses’. Inspirado em edições estrangeiras, nomeadamente na BBC, o objetivo era captar audiências e, com elas, interagir numa rubrica destinada a celebrar e debater a história de Portugal.1 Ao longo de seis meses, os telespetadores votaram em rondas de eliminação de grandes figuras nacionais até que, em março de 2007, António de Oliveira Salazar se sagrou vencedor. O resultado chocou o sistema, que, na sua estupefação, se apressou a varrer o evento da memória e atribuí-lo a um voto de protesto contra a deterioração das condições económicas.
O profundo autismo da intelligentsia nacional condená-la-ia a assistir atónita ao nascimento do partido CHEGA!, uma década depois, e a comprovar a consolidação do mesmo como segundo partido político nacional, em 2025. O que significou então o aviso do povo português em 2007? Que os portugueses estavam sedentos de ditadura ultranacionalista e isolamento? Evidentemente que não.
O nome de Salazar acabou o mais votado por duas simples razões: em primeiro lugar, porque era um dos mais conhecidos entre os portugueses com um fraco conhecimento de História; e em segundo lugar, porque perante um voto esquerdista concentrado em Álvaro Cunhal, o nome do Professor Salazar acabou por agregar não apenas o voto de direita, mas também o voto patriótico que queria apenas celebrar a nação histórica que é Portugal, e Cunhal não era nem de perto nem de longe equivalente a um estadista como o expoente de Santa Comba Dão. Mas o voto dos portugueses de 2007 e a reação do sistema ao mesmo deixaram antever uma clivagem latente na sociedade portuguesa, que viria a suscitar a polvorosa dos dias que correm.
Abril de 1974 foi bem acolhido pela população porque implicou a abertura da sociedade portuguesa, o fim da guerra e da mobilização para África. As elites nacionais, no entanto, interpretaram o mandato popular que receberam em 1975 como permissão para refundar Portugal e transformá-lo fundamentalmente numa repartição ibérica do projeto revolucionário universalista do Maio de 68.
Esta visão de refundação politizada foi, desde o início, essencialmente totalitária. Mesmo excluindo o PREC e os saneamentos, a sacralização do 25 de Abril implicou, a prazo, a relegação para segundíssimo plano de todos os símbolos nacionais. Desde logo, os crucifixos foram proscritos nas escolas públicas e as forças armadas desinvestidas de qualquer potencial político, assim como privadas de qualquer glória militar, sobretudo no que tocasse ao Ultramar. A ‘Grândola Vila Morena’ passou-se a ouvir com muitíssimo mais entusiasmo mediático do que o bafiento e ultrapassado hino de Estado, e o cravo substituiu a cruz de Cristo como emblema nacional.
A institucionalização da sobreposição do regime ao Estado é mais do que óbvia no tratamento desigual das tradicionais datas portuguesas. O 1º de Dezembro tem sido, intermitentemente, retirado do calendário dos feriados e o 10 de Junho (Dia de Portugal) é certamente o irmão mais pobre do 25 de Abril, com o primeiro recebendo uma desenxabida parada militar com discursos patéticos de cerimónia e o segundo glorificado com a maior marcha na maior avenida do país, complementado por uma orgia decorativa em todos os edifícios do Estado.
A dissonância do resultado dos Grandes Portugueses revelou aquilo que as elites do regime não haviam ainda apreendido: que a mudança de regime não lhes havia granjeado um mandato popular para abolir a nação portuguesa e aderir às fileiras da revolução globalista pós-moderna Lennonista; que o patriotismo orgulhoso da epopeia nacional não estava extinto.
O frenesim de vitupérios, violência e vandalismo contra o CHEGA! traduz a influência dos media comprometidos com o sistema em gerar ódio politicamente correto à única ameaça política institucional ao seu poder. A contestação dos setores do CHEGA! da data do 25 de Abril, quer em discursos, quer em manifestações, é uma dissidência nunca concebida por um sistema que se achava monopolista quer da força quer da moralidade.
É nesta ótica que devemos perspetivar o 10 de junho em 2026: como uma comemoração simbólica mais atual do que nunca. Adicionalmente, uma celebração que, ao contrário do 25 de Abril, nunca foi facciosa nem nunca deveria ter sido subalternizada.
Chegará a mensagem, finalmente, ao Rato e a São Caetano à Lapa?
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