Espiritualidade: Conexão ou Alienação?

"Somos sistemas vivos e integrados e qualquer prática, espiritual ou não, que ignore isto está a trabalhar apenas com uma parte do todo. Uma espiritualidade que não inclui o corpo e as emoções está incompleta. Uma espiritualidade que não questiona, que não deixa espaço para a experiência pessoal e direta, não está a libertar nem a conectar ninguém."

Tempo de leitura: 5 minutos

Há uma pergunta que me acompanha no trabalho que faço: o que é, afinal, a espiritualidade? Não no sentido teológico ou filosófico, mas no sentido mais real e humano da palavra. O que acontece dentro de uma pessoa quando a sua dimensão espiritual está verdadeiramente ativa? O que muda na forma como se relaciona consigo mesma, com os outros, com a vida?

Durante séculos e em muitas tradições espalhadas pelo mundo, a espiritualidade foi ensinada como uma dimensão separada das restantes. O espiritual, por um lado. O corpo, por outro. As emoções, tantas vezes tratadas como obstáculos, como fraquezas. O mental, controlado por dogmas que não convidam ao questionamento, mas à obediência. Esta visão fragmentada do ser humano produziu, ao longo de gerações, pessoas divididas interiormente. Pessoas que aprenderam a desconfiar do próprio corpo, a sentir vergonha das suas emoções mais desafiantes. Pessoas que substituíram a sua experiência direta do sagrado por um conjunto de regras externas sobre como se deve ser, sentir e viver.

Esta fragmentação não existe apenas nas religiões mais tradicionais, existe também num tipo de espiritualidade mais livre. Existem pessoas que frequentam retiros, que têm imensas práticas diárias, que já leram de tudo, que conhecem todos os conceitos espirituais, mas continuam com a mesma distância de si mesmas. Pessoas que vivem sempre atentas aos sinais do universo, mas desatentas ao que se passa dentro de si, que acumulam conhecimento espiritual sem que esse conhecimento se transforme verdadeiramente na sua forma de estar na vida.

Aqui reside uma das maiores armadilhas do caminho espiritual: confundir saber com viver. A espiritualidade que aliena não é apenas a que impõe dogmas, é também a que se torna um escape intelectual ou emocional. Uma forma sofisticada de evitar o contacto real com a própria vida. Porque de que nos serve a fé, a esperança, a conexão sagrada se ela não se traduz em nada concreto? Se não melhora a forma como nos relacionamos, como reagimos, como nos tratamos a nós mesmos nos momentos difíceis?

A realidade é que somos seres compostos por múltiplas dimensões: física, mental, emocional e energética. Todas elas coexistem, comunicam e influenciam-se constantemente. Não há fronteira real entre o que sentimos no corpo e o que pensamos na mente. Não há separação entre o estado emocional de uma pessoa e o campo energético que ela irradia. Somos sistemas vivos e integrados e qualquer prática, espiritual ou não, que ignore isto está a trabalhar apenas com uma parte do todo. Uma espiritualidade que não inclui o corpo e as emoções está incompleta. Uma espiritualidade que não questiona, que não deixa espaço para a experiência pessoal e direta, não está a libertar nem a conectar ninguém.

Existem, em contraste, vivências da espiritualidade que não confinam, mas que acrescentam; que não pedem ao indivíduo para abandonar partes de si, mas que as integre todas; que reconhecem as sensações do corpo como sabedoria, a emoção como informação, o pensamento como ferramenta e o campo energético como a dimensão que atravessa e conecta tudo isto. Este tipo de visão da espiritualidade não é mais simples. Na verdade, é mais exigente porque não oferece fórmulas externas. Convida ao autoconhecimento real, ao encontro com as próprias sombras, à responsabilidade pela própria experiência de conexão sagrada e de vida. Não é uma fuga da vida, é uma imersão mais profunda nela. É aplicar na vida diária tudo o que se aprende e prega espiritualmente.

Algumas práticas holísticas, integrativas e algumas tradições ancestrais partilham esta visão: o caminho espiritual é um caminho de integridade no sentido mais literal da palavra. De tornar o ser humano inteiro, de fazer com que aquilo em que se acredita esteja alinhado com o que se sente no coração, com o que se pensa na mente e com o que se expressa no mundo. Quando isso acontece, quando a espiritualidade serve a integração e não a fragmentação, o impacto não se fica pelo altar, pela cerimónia ou pelo retiro, manifesta-se na qualidade das relações, na empatia, na capacidade de tomar decisões alinhadas, na presença com que se enfrenta a dificuldade, na conexão que se sente, não apesar da vida real, mas dentro dela.

O mundo está a atravessar uma mudança profunda na relação com o sagrado. Existe um número crescente de pessoas que está a abandonar estruturas dogmáticas e a procurar uma experiência mais direta, mais encarnada, mais pessoal. Não é uma rejeição da espiritualidade, é uma exigência de mais autenticidade. Uma maturidade que reconhece que não existe contradição entre ser espiritual e ser plenamente humano, que o sagrado não está separado do quotidiano, que cultivar o estado energético interno tem repercussões concretas no bem-estar, nas escolhas, na qualidade de presença que trazemos a cada momento da vida.

A espiritualidade que nos serve verdadeiramente é aquela que nos torna mais capazes de estar aqui, mais inteiros, mais empáticos, mais vivos. Não aquela que nos promete um outro mundo, mas aquela que nos devolve, com mais profundidade e clareza, a este mundo e a nós mesmos.

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Levada pela sua própria jornada pessoal e espiritual, tornou-se terapeuta holística e facilitadora de círculos de cura. Acredita numa espiritualidade livre, vivida na prática e que integra todas as dimensões do ser humano.

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