Bulking ou Cutting? As Zonas Cinzentas de um Diário Alimentar

Tempo de leitura: 4 minutos

A musculação, pelo menos da forma como a conhecemos hoje, ganhou relevância na última década, e, com isso, a preocupação com a composição corporal cresceu. Está mais do que documentada a importância da massa muscular na longevidade. Os músculos são responsáveis pela mobilidade, pelo equilíbrio e até pela proteção das articulações. A sarcopenia ­­­­­­­—­­ perda progressiva de músculo com a idade — está associada a quedas, fraturas e aumento do risco de morte. Em 2007, a Organização Mundial da Saúde (OMS) relatou que 35% dos indivíduos com 65 anos ou mais caem pelo menos uma vez por ano. Este número aumenta para 42% quando falamos de idosos com 70 anos ou mais. Ainda que não sejam dados particularmente recentes ou diretamente relacionados com a massa muscular, alertam-nos para uma das maiores preocupações em idades avançadas, na qual a massa muscular terá impreterivelmente um papel de proteção.

No entanto, não podemos dissociar a musculação da manipulação da composição corporal do ponto de vista estético, assim como da melhoria (ou não) dos hábitos alimentares e da preocupação com o conteúdo calórico e em macros de cada refeição ingerida. É aqui que este tema se torna particularmente interessante, uma vez que mergulhamos numa imensidão de possibilidades, de acordo com o contexto individual.

Ainda que processos como o bulking[1] e o cutting[2] sejam efetivamente interessantes como estratégias em consulta, parece-me que há uma grande sobrevalorização daquilo que eles realmente são e proporcionam, e, por outro lado, uma desconsideração da quantidade de estratégias que, entre um e outro, podem igualmente ser consideradas. Ou seja, há de facto uma zona de transição entre estes dois processos que, em muitos casos, é bem mais vantajosa e realista.

Da minha experiência clínica na área da Nutrição Desportiva, há ainda muita confusão acerca deste tema, o que muitas vezes leva a processos frustrados e composições corporais bastante inconsistentes. Nem todos os processos têm de ter um nome ou de “caber numa caixinha”, sobretudo se houver muita coisa para alinhar numa primeira fase. Por isso, avaliar o contexto atual ­— não só alimentar e nutricional, como de treino — e traçar objetivos corporais a curto e a médio prazo é bem mais útil (e realista, reforço) do que basearmo-nos apenas numa intenção. É realmente obrigatório abordar a questão do treino, mesmo em consulta de Nutrição, uma vez que a tal intenção pode não estar alinhada com o contexto individual — expectativa versus realidade. Não podemos colocar na mesma “caixinha” uma mulher com 30% de massa gorda que começou a treinar agora e uma mulher com 23% que treina consistentemente há anos, ainda que a intenção de ambas seja a redução dessa percentagem.

Além disso, não podemos reduzir alimentos apenas e exclusivamente a números (macronutrientes). Por isso, nem sempre estes processos estão realmente associados a melhores hábitos alimentares, porque há de facto uma banalização daquilo que é a parte comportamental e social à volta da alimentação. Os cálculos, os números, são efetivamente necessários e, diria, até obrigatórios para atingir uma determinada composição corporal. Acredito que a “matemática” é parte do trabalho de excelência do Nutricionista, de forma a adaptar os alimentos às necessidades individuais. Não me choca a pesagem diária dos alimentos e o cuidado com a proteína em todas as refeições. O que me parece preocupante é quando dissociamos as calorias dos alimentos da sua verdadeira riqueza vitamínica e mineral, muito comum nestes processos onde o que verdadeiramente importa são apenas os números “grandes” ao fim do dia.

No fim de contas, o que queremos é algo consistente, que nos permita atingir os nossos objetivos, com direção estratégica e alguma leveza, independentemente do nome que damos ao processo. Procurar ajuda profissional para o planeamento da manipulação da composição corporal, a curto e a médio prazo, é essencial para que este processo não seja condicionado por falácias ou mal-entendidos.


[1] Período de maior consumo calórico e, por isso, mais adaptada ao ganho de massa muscular.
[2] Fase de défice calórico e, então, voltada para a perda de massa gorda.

Partilhe este artigo:

Ana Catarina Gomes, inscrita na Ordem dos Nutricionistas desde setembro de 2021 (4859N); Licenciatura em Ciências da Nutrição, pela Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa;

Contraponha!

Discordou de algo neste artigo ou deseja acrescentar algo a esta opinião? Leia o nosso Estatuto Editorial e envie-nos o seu artigo de opinião.

Mais artigos da mesma autoria:

MAIS AUTORES