Desde o momento em que somos, somos produto de tudo o que nos toca. Moldados pelo nosso exterior, vamos assim criando uma ideia de um “eu”. Um “eu” efémero, sempre em mudança, uma vez que estamos constantemente a ser expostos a experiências diferentes. Quanto mais consumimos dos outros, mais somos. Mas e se, em vez de consumirmos um pouco de tudo, nos consumíssemos apenas a nós? Apresento-vos: o algoritmo.
Pois bem, críticas sobre a internet, redes sociais e afins já vêm fartas. Não é bem isso que tenciono aqui explorar. O meu foco será numa realização sobre a qual tenho vindo a refletir: o meu algoritmo é feito por mim, sobre mim, para mim. E, aparentemente, toda a gente concorda comigo.
Não é novidade que o algoritmo é feito para nos proporcionar uma boa experiência na nossa vida online. Até porque, se não houvesse qualquer mecanismo para nos guiar, com a quantidade de conteúdo a ser produzido, seria um caos total. Existem componentes chatas, como, sem querer, colocar like num vídeo de alguém a fazer um bolo, e os próximos trinta vídeos que nos aparecem são de pessoas a fazer bolos. E componentes excecionais, como colocar like num texto de poesia e serem recomendados outros poemas que nunca li.
Porém, há uma vertente mais profunda à qual ainda não tinha dado a devida importância: não se trata apenas de me mostrar o que eu gosto, trata-se de me mostrar aquilo com que eu concordo. Muito do conteúdo que consumo online, como notícias, não são necessariamente tópicos de que gosto. Contudo, a forma como são apresentadas tende a ir ao encontro das minhas opiniões.
Há uns tempos, estava no TikTok e deparei-me com um texto de uma autora portuguesa a criticar jovens que ouvem música alta nas praias. Afirma sentir-se incomodada quando vai à praia, por ser forçada a ouvir a música de outras pessoas, especificamente jovens, que diz não ser música de jeito, e que, se fosse, se importaria menos. Li o texto, fervi por dentro. Normalmente, a minha ação seria abrir de imediato os comentários para confirmar que toda a gente concorda comigo. Desta vez, não o fiz. Abri o computador e preparei um extenso comentário. A minha resposta tocava em pontos como: o problema da falta de sentido de comunidade na nossa sociedade; o quão ridículo é criticar os jovens por ouvirem música na praia, quando os jovens são, muitas vezes, alvo de críticas por serem viciados em tecnologias e não saírem de casa; o tema da falta de acesso à cultura em Portugal, sendo que espaços livres, como a praia, são das poucas atividades acessíveis financeiramente a muita gente; e, para finalizar, fiz ode ao privilégio que é podermos sair de casa livremente, convivermos e ouvirmo-nos uns aos outros a viver. Enfim, disse tudo. Abri os comentários e toda a gente estava de acordo comigo. Ótimo. Tenho razão. Eu sabia!
Por pura curiosidade, fui inspecionar quem era esta autora, para ver se conhecia algum trabalho dela. Desloquei-me até ao Instagram. Lá vejo a publicação, com o mesmo texto que tinha publicado no TikTok. Abro os comentários, preparada para saborear a minha razão, mas, para minha surpresa, ninguém concordava comigo. Bem pelo contrário, todos se posicionavam em apoio às afirmações expostas no texto. Como assim?
Comecei a questionar-me. Sim, já sabia que o algoritmo nos apresenta conteúdo de que gostamos. Sabia que, por vezes, puxa os comentários que presume acharmos mais interessantes para o topo. Sabia também que nos tende a colocar do lado da internet que concorda connosco. Contudo, não tinha pensado sobre o que isto significa exatamente.
Não temos as peças todas. Temos as peças que queremos. É como montar apenas uma pequena secção de um puzzle porque é a parte que mais gostamos. E o resto? O resto das peças ainda lá estão, não se perderam, ficam somente despercebidas dentro da caixa, impossibilitando-nos de ver a imagem na íntegra.
Trata-se de uma experiência incompleta, que nos deixa aquém do nosso potencial. Presos num ciclo: mostramos ao algoritmo o que somos, ele devolve-nos o que somos, nós continuamos a ser só isso. Mas, se todos concordam connosco, onde é que entra a mudança? A exposição a opiniões diferentes? A dúvida, a desestabilização, o confronto? Como fomentamos o nosso espírito crítico?
É um sentimento de enjaulamento. Não temos forma de alterar a gaiola em que nos colocam na internet, até porque a gaiola somos nós próprios. E, pessoalmente, não quero sair: é confortável, já é casa, e não quero ser deixada para trás. Como mencionei, há aspetos magníficos lá dentro também.
A verdade é que somente a ação de ter consciência de que estamos a ver apenas e só o que queremos já é um passo para combater esta bolha em que nos colocam. Pode parecer pequeno, mas cria em nós uma das características mais importantes do ser humano: a dúvida.
Vão mais longe ainda, quando se depararem com publicações com as quais discordam ou concordam, escrevam a vossa opinião antes de abrir os comentários. Ou nem os abram, se a intenção for validação e não quiserem acrescentar nada à discussão. Cliquem nos títulos que não vos apelam. Ajudem-se a vós próprios a perceber quem são, não deixem o algoritmo decidir por vós. São estes ataques à bolha, ainda que, à primeira vista, pequenos, que nos dão a possibilidade de a rebentar. Claro que isto é meramente a minha opinião. Ou é a tua? Será a nossa? Sei lá.






























































































































