Reparando com atenção em muitos discursos que vemos em horário nobre nas nossas televisões, vemos que há uma distinção entre a fação feminista boa e a má. Não são dois lados da mesma moeda: há as feministas que lutam pelos direitos das mulheres e as outras que, fazendo também isso, odeiam homens. Ora, há uma diferença abismal entre uma leitura da realidade baseada em experiências pessoais, manchetes dos jornais e em estatísticas, e o ódio gratuito e generalizado a todos os homens.
Esta ferocidade pode ser ou não justificada. Se defendo uma abordagem de mudança pela educação, também reconheço que há momentos em que a paciência se esgota e se chega a um ponto de rutura emocional e cognitiva ao ter de explicar as nossas batalhas, os nossos medos, as nossas vivências e todas as variáveis em que pensamos, enquanto mulheres, mesmo antes de sairmos porta fora pela manhã.
Onde está quem nos deveria ouvir? A escrever o próximo comentário numa rede social genérica sobre como o feminismo chegou longe demais ou que já não é necessário no Ocidente? Num meio obscuro em que comentários destes brotam como ervas daninhas, há também, em plena luz do dia, quem dispa mulheres com Inteligência Artificial; quem visite websites que mostram abuso inequívoco; quem crie grupos com milhares de pessoas para troca de momentos íntimos e humilhação, sem sequer tentar esconder. Não dá para ignorar que a demografia destes comportamentos é, de forma completamente esmagadora, masculina. Por isso, nem todos os homens, mas quase sempre um homem.
Isto, aliado a uma avalanche de discursos de divisão entre masculinidade e feminilidade, de divisão entre boas e más castas, ou até de censura de corpos muitas vezes naturais e saudáveis, é um atentado à verdadeira energia feminina: a possibilidade de uma mulher poder existir, na sua pele, sem ser constantemente impedida de ter a sua própria agência, sem batalhas acrescidas.
Necessitamos, e eu diria urgentemente, de ouvir mais mulheres. Se não por todas as razões referidas, pela razão lógica: havendo uma male loneliness epidemic (“epidemia de solidão masculina”), e estando isso sempre associado a relações heterossexuais, é justo assumir que haja também uma female loneliness epidemic (“epidemia de solidão feminina”). Assumindo que possa estar a viver debaixo de uma pedra, nunca vi tal termo nos canais de notícias mais ou menos oficiais. Talvez por uma questão de quererem dar mais voz aos ditos lesados, ou porque, realmente, não querem saber se existe o outro lado da moeda, ou ainda porque não se interessam em ser o “advogado do diabo”.
No Brasil, discute-se a criminalização da misoginia. Nos EUA, há documentários sobre comunidades que partilham dicas para drogar e agredir sexualmente mulheres (ainda que, em França, a estratégia tenha corrido mal). No online, vale tudo para aumentar as visualizações e os comentários (e.g.: crimes de ódio, incitar à violência e publicitar casas de apostas fraudulentas). Por outro lado, fala-se da mulher sozinha com os gatos como se fosse o pior que pode acontecer, mas todos os anos não temos dedos suficientes para contar as mulheres que morrem às mãos dos seus companheiros. Será uma epidemia de solidão feminina o pior cenário na vida das mulheres? Ou será que, ao entender as consequências de uma cultura misógina, estamos a encontrar o verdadeiro significado da conexão humana e a abandonar os ensinamentos a preto e branco do que é esperado de cada uma de nós?
Na esfera mediática televisiva, perde-se tempo a debater até o indebatível. Por exemplo, tenta-se compreender todas as razões possíveis e imaginárias que levaram a uma agressão, sem entender que, por vezes, culpa-se a vítima de forma subtil, em vez de se analisar a raiz do problema. Todo este evitamento e desvalorização do que seria considerado um debate woke ou um exemplo do “policiamento” da suposta ditadura das minorias. Aliás, descobrimos, nos últimos meses, o verdadeiro significado desta última expressão: uma minoria de bilionários que corrompe todo o mundo, de forma mais direta ou indireta, para encobrir atos da maior violência.
O caminho é longo e árduo. Oferece muita resistência e outros perigos para quem é uma voz ativa em prol da mudança, mas o que tomamos por garantido hoje foi outrora a luta de alguém. Recuando na história, temos inúmeros exemplos de conquistas. Esperar que o tempo resolvesse não bastou; foi preciso ser ativo.
Este pode ser um artigo “demasiado político” (vai ser sempre, porque tudo na nossa vida é diretamente influenciado pela política), mas não é ideológico. Se uma ideologia tem por base a manutenção do sofrimento, o que somos como seres humanos?
1“J’essayais de vivre un féminisme joyeux, mais en fait j’étais très en colère” – Agnès Varda
Refrências
- “Eu tentei viver um feminismo alegre, mas, a verdade, é que estava muito zangada”- Agnès Varda (tradução livre da autora) ↩︎



































































































































