Do que falamos realmente quando falamos em liberdade? Liberdade de todos, ou de alguns? Todos somos realmente livres para dizer o que queremos e expressar o que pensamos?
A peça de teatro Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, de Tiago Rodrigues, traz-nos uma reflexão sobre este tema. Até que ponto a defesa dos nossos ideais justifica tudo? Até que ponto o combate do extremismo com mais extremismo é a solução?
A peça leva-nos a refletir sobre a “opiniãozinha”. Porque todos somos livres para nos expressar e dar a nossa opinião, porém, o problema reside quando a “opiniãozinha” traz disfarçada os discursos de ódio, segregação, xenofobia e homofobia. E nós deixamo-la passar, damos cada vez mais tempo de antena e damos palco ao populismo. Na obra, estes discursos foram transformados em leis. Na vida real, ainda não, mas pouco faltará…
Assistimos hoje a um crescimento exponencial da extrema-direita, e a verdade é que todos permitimos que isso acontecesse. Damos tempo de antena a discursos polémicos e populistas, damos-lhes destaques em telejornais e tornamo-los virais nas redes sociais. Assistimos a diversas entrevistas com/ou sobre o partido que representa a extrema-direita em Portugal. Deixamos que sejam partilhadas as suas opiniões, que se faça barulho e que as verdades sejam ditas. A questão essencial é: que verdades?
Qualquer um de nós saberá dizer o que está mal com o nosso país. Todos sabemos o que gostaríamos de melhorar e dizemos os mesmos chavões clássicos: “os enfermeiros recebem mal”, “na classe política só há ladrões”, “o sistema de saúde está uma miséria”, “a crise de habitação é uma vergonha”.
O que poucos fazem efetivamente é trazer soluções para resolver estes problemas, incluindo quem nos quer dizer as verdades e conquistar os votos. E soluções, quais são? Não acredito que a solução passe por matar fascistas, nem literal nem metaforicamente. Se combatemos extremismo com mais extremismo, ficamos todos a perder.
Há que reunir dados, informações, tomar atenção ao que nos é dito tanto pelos políticos de direita, como pelos de esquerda. Não basta ouvir as verdades que alguém tem para nos dizer, nem muito menos ouvirmos o que queremos ouvir.
Depois, precisamos de saber separar opiniões políticas de opiniões humanas. Quando se fala em meras diferenças políticas, precisamos de ouvir efetivamente todas as opiniões. Ouvir para compreender e não para julgar, nem vencer o outro numa luta invisível. O mundo não pode ter todo a mesma opinião, é preciso viver nessa diferença e é dela que se faz democracia. De certeza que vários ideais foram considerados extremistas há uns anos e, hoje em dia, consideramos aspetos básicos.
São ideais diferentes que trazem perspetivas diferentes e representatividade dos vários grupos da sociedade. E só através destas perspetivas diferentes é possível trazer soluções para os diversos problemas de um país.
Mas, quando falamos de questões humanas, falamos de misoginia, ódio, xenofobia, homofobia, e, neste caso, não creio que haja margem para tolerância. Quando falamos de direitos humanos, precisamos de saber bem o que defendemos e o que está em causa.
Precisamos de saber denunciar e não tolerar estes discursos, principalmente quando vêm de pessoas próximas, a quem podemos intervir de forma amigável e mais pedagógica. Porque, na ficção, os discursos de ódio viraram leis, mas, na nossa realidade, ainda vamos a tempo de os parar.
Passa por nós este microativismo de ouvir, compreender e fazer pensar quem nos é próximo. Podemos não mudar o mundo, mas podemos começar pela nossa aldeia. Não há beleza em matar fascistas, mas há certamente beleza em matar o fascismo.

























































































































