Cuidar da Nossa Casa

"Apesar da falta de políticas públicas, também nós, cidadãos, temos uma responsabilidade individual no modo como preservamos a Terra, o nosso espaço público e, em consequência disso, a nossa casa. Não necessitamos de ser perfeitos ou de nos transformarmos em cidadãos exímios, com uma superioridade moral incontestável."

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Hoje celebramos o Dia Mundial da Terra. Temo que celebrar seja uma palavra desadequada, uma vez que vivemos dias em que a Terra é liderada por pessoas que têm fomentado a aceleração da sua devastação. É quase como se todos partilhássemos o mesmo destino inelutável: seja pelo crescimento de agendas políticas que visam erradicar qualquer progresso realizado na ação climática; seja através de guerras que trazem consigo a destruição de cidades e ecossistemas, com o assassinato de milhares de seres humanos e outros seres vivos pelas mãos de Estados violentos; seja através da dimensão cada vez maior de um sistema capitalista que não nos dá tréguas, onde todas as nossas ações são direcionadas para a produção desenfreada, para a obtenção do lucro e, claro, para a promoção do “eu” em detrimento dos nossos pares. Byung-Chul Han escreveu que “Todo o campo de visão é ocupado pelo ‘eu’”1, e, ao colocarmos o “eu” sistematicamente à frente da nossa comunidade, é natural que, além dos nossos semelhantes, também a Terra fique para trás. 

É comum ouvir o célebre argumento contra qualquer tipo de política que promova a ação climática: “porque é que hei de não poluir se os outros poluem?”. Preservar a Terra não se resume apenas a proteger a natureza, os seres vivos que nela habitam ou a qualidade do ar. Trata-se também de cuidar da nossa casa, aprender a relacionar-nos de outra forma com o planeta e cuidar uns dos outros. O hiperfoco na produtividade e na mercantilização de tudo, além de nos levar a olhar para a natureza como algo sem valor — a não ser que esta seja explorada por um qualquer extrativismo atroz —, também nos leva à alienação do indivíduo e, consequentemente, da nossa comunidade. Por esta razão, apesar de este ser um tema global, decidi olhar um pouco mais para a minha cidade, como um reflexo dos problemas que, de uma forma ou de outra, também afetam grande parte das cidades portuguesas. 

Braga é um bom exemplo de uma cidade que não foi construída a pensar na qualidade de vida dos seus habitantes e na preservação do meio que os envolve. Apesar de estar localizada a pouco mais de 40 km de distância de um dos maiores santuários naturais do país, o Gerês, Braga acaba por ter uma ligação muito ténue com a fauna e flora local. A área verde pública é praticamente inexistente, tendo em conta a dimensão da cidade, empurrando as pessoas para os centros comerciais. A preservação das áreas verdes públicas e a criação de novos espaços semelhantes permitiriam à população criar novos hábitos, usufruir de espaços públicos onde é possível conectar com a natureza, promovendo a saúde mental, a prática desportiva, a criação de comunidade e uma maior consciencialização para a importância da preservação do meio ambiente. 

Todavia, o problema de cidades como Braga não se resume à falta de espaços verdes. A mobilidade também é um ponto crítico para a qualidade de vida dos seus munícipes. A ação de nos movermos não trata apenas do modo como nos deslocamos de um lado para o outro. É também a forma como estruturamos a nossa vida em comunidade e cuidamos do nosso espaço público. A liberdade plena apenas existe quando dispomos de uma mobilidade real, sem dependermos de um único modo de transporte. Ora, em Braga, não existe uma visão integrada de mobilidade. A cidade é desenhada por um trânsito caótico que integra as suas ruas ínvias todas as manhãs e finais de tarde. Uma sinfonia composta por buzinadelas, impropérios, diatribes, suspiros e sangue a fervilhar nas veias, já que percorrer 5 km em hora de ponta poderá ser o maior desafio diário para o cidadão bracarense. Um verdadeiro mito de Sísifo. Por outro lado, se optarem pela bicicleta, acabam por escolher arriscar a vida todos os dias, pois não existem infraestruturas mínimas para se circular com segurança pela cidade.

Os transportes públicos são ineficientes. Apenas existem os autocarros que, pasmem-se, ficam também eles retidos no trânsito. Além disso, a Câmara Municipal de Braga não tem quaisquer planos para reduzir a utilização do carro no concelho. Ao invés disso, foi anunciada, no início deste ano, a construção de uma nova variante. Mais uma estrada. Mais carros. Continuaremos com uma política de transportes públicos insuficiente e ineficiente. Continuaremos com uma infraestrutura escassa e insegura para uma mobilidade suave, como as ciclovias, bem como espaços cada vez mais degradados para se andar a pé. A somar a tudo isto, o Estado português achou por bem que uma média de 1 hora e 30 minutos é um tempo perfeitamente razoável para nos deslocarmos de comboio entre Braga e Guimarães, sem ligações diretas. Afinal, temos sempre o Porto ou Lisboa, se quisermos experimentar uma rede de transportes públicos minimamente eficiente.

Apesar da falta de políticas públicas, também nós, cidadãos, temos uma responsabilidade individual no modo como preservamos a Terra, o nosso espaço público e, em consequência disso, a nossa casa. Não necessitamos de ser perfeitos ou de nos transformarmos em cidadãos exímios, com uma superioridade moral incontestável. A mudança acontece nas pequenas coisas do dia a dia, nas ações ao alcance de qualquer pessoa. Sempre que nos for possível, podemos tentar deixar o carro em casa e optar por outro meio de transporte. Tudo se torna mais interessante quando não usamos o carro

Tentar utilizar menos plástico, reciclar e reutilizar sempre que possível, assim como ter em conta a sustentabilidade da nossa alimentação. Não cair na tentação de recorrer a serviços de inteligência artificial para realizar tarefas simples ou gerar imagens artificiais sem qualquer objetivo, visto que a inteligência artificial já é responsável por um consumo significativo da eletricidade produzida e por um elevado consumo de água. Por fim, refletir um pouco mais sobre aquilo que compramos. Será que precisamos de todas as roupas, principalmente as que estão ligadas à fast fashion, dos acessórios para a cozinha sem utilidade ou das plantas de plástico? Tudo se resume a consumir menos e a preservar mais. E penso que isso está ao alcance de todos nós. Pequenos atos de bondade connosco próprios, com a nossa comunidade e com o nosso planeta Terra. 

Acredito que um governo será sempre o reflexo do seu povo. Se mudarmos os nossos pequenos hábitos diários, estaremos mais próximos de mudar a nossa forma de olhar e cuidar do nosso planeta, do nosso espaço público e da nossa casa. Ao criarmos mudanças positivas no nosso relacionamento com tudo o que se encontra à nossa volta, ficamos mais próximos de votar em consciência. Ao votar em consciência, mudamos as nossas políticas públicas e criamos melhores condições para preservar a Terra e a nossa qualidade de vida. 


Referências:

  1. Han, B.-C. (2014). A sociedade do cansaço (M. Pereira, Trad.). Relógio D’Água. ↩︎

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Ricardo Guimarães é natural de Braga, formado em Direito, especializado em Direito e Tecnologia, trabalha na área da identificação eletrónica e transformação digital. É membro do partido Livre desde 2025.

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