Nutrição: A ciência que todos sabem, mas poucos compreendem

"A nutrição é efetivamente uma ciência muito complexa, difícil de isolar variáveis e obter resultados robustos, sobretudo, em seres humanos, e, por isso, nem sempre é simples de obter resultados claros."

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Fundamentalismos à parte, acho que é senso comum que o facto de estarmos todos conectados a mais informação, de certo modo, melhorou muito o nosso bem-estar e a forma como conhecemos a vida. Mas há uma zona cinzenta que cada vez mais merece atenção. Nem sempre mais é melhor. Existe uma linha ténue entre o ótimo e aquilo que se torna overwhelming (algo extremamente intenso, poderoso ou em grande quantidade, tornando-se difícil de gerir, suportar ou processar). 

A verdade é que nunca vimos tanta partilha – e consumo – de conteúdo fitness não só por adultos, como também por adolescentes. Basta um scroll de cinco minutos para nos aparecer um vídeo sobre uma receita saudável, ou de alguém a praticar musculação. Há evidência que relaciona o uso das redes sociais – nomeadamente, para consumo de conteúdo fitness –, com a insatisfação corporal e distúrbios alimentares, afetando uma faixa etária tão sensível como a dos adolescentes. Um estudo, publicado este ano, associou o uso das redes sociais com sintomas de ortorexia e dismorfia corporal.1 Por outro lado, está mais do que documentado a importância do exercício na saúde mental. Portanto, o perigo não está na promoção da prática da atividade física, seja ela qual for, mas sim na forma como é feita e entendida. Por isso, este fenómeno parece-me que levanta, sobretudo, questões éticas e de saúde pública, especialmente quando se cruzam expectativas irrealistas com a vulnerabilidade de quem procura fazer parte do fenómeno ao melhorar a sua imagem corporal a todo o custo. Compreendo que o fora do comum seja mais apetecível do que a ideia da consistência, da saúde e do bem-estar, por isso, dá jeito promover conteúdo sensacionalista e pouco fiável. Mas, aqueles que vendem raramente falam dos anos de treino e alimentação estruturados e rigorosos, da genética e, em alguns casos, práticas pouco saudáveis ou até mesmo ilegais (esteroides anabolizantes). 

Não é por eu saber respirar que sou pneumologista. Porque é que tu, por saberes comer, te sentes no direito de exercer pseudo-nutrição?

Helena Trigueiro

Os macronutrientes não resumem um alimento, assim como uma receita mais saudável não garante necessariamente a perda de peso. A nutrição é efetivamente uma ciência muito complexa, difícil de isolar variáveis e obter resultados robustos, sobretudo, em seres humanos, e, por isso, nem sempre é simples de obter resultados claros. Sendo assim, há sempre o outro lado, a parte do bom senso, do espírito crítico, da experiência e maturidade técnico-científica, e da compreensão do comportamento humano – muitas vezes, mesmo quando falamos em atletas de alto rendimento. 

Um nutricionista, mesmo no desporto profissional, não trabalha só com os macronutrientes, proteína pós-treino e creatina todos os dias. Trabalha com atletas que não deixam de ser pessoas comuns com família e, muitas vezes, crianças em casa. Trabalha com atletas frequentemente deslocados e, algumas vezes, com realidades alimentares bastante distintas da nossa cultura. Com atletas que, mesmo com toda a exigência física e mental diária, não deixam de ter momentos em que relaxam (às vezes, demasiado). Não vamos dourar a pílula – é realmente um dever do atleta compreender que a alimentação e nutrição devem ser parte inquestionável da sua rotina, mas, como nutricionista, se puder tornar isso menos aborrecido, mais interessante e algo tão evidente e, diria, natural como a parte do treino e da recuperação, então é aí que considero que fiz bem o meu trabalho.

Particularmente, trabalhar com atletas de várias idades, em fases de vida e realidades desportivas distintas, trouxe-me uma sensibilidade bem maior para a alimentação e nutrição aplicada à pessoa comum. Vejamos, se mesmo dentro do desporto há uma enorme necessidade de empatia e compreensão pelo indivíduo como um todo, então, essa necessidade é ainda mais crucial quando falamos de pessoas comuns, cuja prática de exercício físico representa uma a duas horas da sua rotina diária.

A (boa) nutrição e as rotinas de exercício físico devem ser, essencialmente, sustentáveis a longo prazo. Isto deve estar no topo das prioridades quando falamos em estilo de vida saudável. Não me choca, de todo, que haja objetivos estéticos ou de performance associados a uma história alimentar e a um plano de treino. O que merece a devida reflexão é quando isto é associado a uma cultura tóxica, a pessoas desqualificadas, a conteúdo sensacionalista e, sobretudo, a expectativas irrealistas daquilo que deve ser a tua melhor versão.


  1. Vintró-Alcaraz, C., Ballero Reque, C., Paslakis, G., & Testa, G. (2026). Idealized body images and fitness lifestyles on social media: A systematic review exploring the link between social media use and symptoms of orthorexia nervosa and muscle dysmorphia. European Eating Disorders Review, 34(1), 256–280. https://doi.org/10.1002/erv.70027 ↩︎

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Ana Catarina Gomes, inscrita na Ordem dos Nutricionistas desde setembro de 2021 (4859N); Licenciatura em Ciências da Nutrição, pela Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa;

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