Como Cheguei Onde Cheguei

"Bati no fundo. Ansiedade constante. Uma enorme dificuldade em lidar com emoções. Ao ponto de ter de parar tudo e repensar a minha vida. [...] Aquela porta que tinha fechado aos 20 anos não fazia sentido continuar trancada."

Tempo de leitura: 5 minutos

Hoje em dia, quem me acompanha nas redes sociais pensa que o desporto foi algo que surgiu muito tarde na minha vida. Um escape da minha realidade, uma forma terapêutica de ver a vida, um conforto no desconforto. E não me interpretem mal – o desporto é tudo isso para mim. Mas, para perceber a fundo o significado de tudo isto para mim, temos de voltar muito atrás na história. 

Tinha dois anos quando entrei pela primeira vez no ginásio que foi a minha casa durante mais de 18 anos. Aos sete, entrei na ginástica acrobática e foi aí que começou a minha carreira desportiva. A ginástica era tudo. Acordava a pensar na ginástica, passava o dia a pensar no treino e aproveitava todos os tempos mortos e mais alguns para treinar mais e mais. Não havia festas, não havia férias. Não bebia, não comia fora da linha. Tinha muito poucos amigos fora da bolha da ginástica, até o namorado era da ginástica. Tudo aquilo que estivesse ao meu alcance fazer para ser melhor, chegar mais longe e atingir todos os meus objetivos, eu fazia. Não pensava noutra coisa. A ginástica era o meu oxigénio. 

Quando chegou a altura de me “reformar”, com 20 anos, lidei da mesma forma com que lido com todos os fechos de capítulos na minha vida: fechei a porta com a maior força que consegui, sem deixar nada entreaberto. Sei que não é a melhor forma de lidar com os finais. Mas, com o tempo, tenho percebido que é a minha forma de processar a falta que algo tão importante me vai fazer. 

E, de repente, abriu-se um mundo completamente novo. 

Passei a poder ir a festas, conhecer pessoas novas, aceitar convites sem ter de dizer “desculpa, não posso, tenho treino”. Pela primeira vez, senti-me uma pessoa normal da minha idade. Foi uma fase de descoberta absoluta, de aproveitar a vida, viajar, estudar fora, explorar novas versões de mim. 

Mas, no meio de tudo isso, fui-me perdendo. Ou, pelo menos, fui perdendo uma parte essencial de mim: o movimento. Durante cinco ou seis anos, essa parte ficou completamente apagada. Não treinava, não me mexia, comia mal, não cuidava de mim. Canalizei todo o meu foco para o trabalho. E esse descuido teve um preço. Bati no fundo. Ansiedade constante. Uma enorme dificuldade em lidar com emoções. Ao ponto de ter de parar tudo e repensar a minha vida. 

Eu sabia que algo não estava certo. 

Não me sentia alinhada profissionalmente, sentia-me desconectada de mim, sem confiança, sem energia. Mas também sabia exatamente por onde tinha de começar. Aquela porta que tinha fechado aos 20 anos não fazia sentido continuar trancada. Por mais que a ginástica tenha sido um capítulo que se fechou, o desporto não. E foi mesmo por aí que comecei a mudança.

Sabia que não podia fazer desporto só por fazer. Já tinha experimentado ginásios, personal trainers, aulas diferentes, desportos, mas sentia a necessidade de me sentir desafiada, de ter objetivos e de olhar para o desporto como uma competição comigo própria

Em conversa, uma amiga sugeriu-me experimentar a corrida. Nunca gostei de correr, nunca fui rápida e sempre olhei para a corrida como algo doloroso e que claramente não era para mim. Mas estava tão desesperada por qualquer luz ao fundo do túnel que lá decidi experimentar. Calcei as sapatilhas que tinha em casa e fui até Belém (na altura, morava em Lisboa) com o desafio de tentar correr dois quilómetros seguidos. E não é que consegui? Até é difícil descrever a sensação que tive ao me sentir capaz de fazer algo que na minha cabeça seria impossível. Senti-me numa histeria tal que quase parecia que tinha terminado um ironman1.

E sabem o que é que esta sensação nos causa? Vontade para muito mais. Voltei no dia seguinte, e no seguinte, e no depois desse. Seguiram-se os objetivos de correr os primeiros cinco quilómetros, depois os primeiros dez, até se passarem dois anos com menos dez quilos em cima, uma meia-maratona e um hyrox2, corpo e mente saudáveis como nunca e uma confiança em mim que achei que nunca iria recuperar.

O desporto muda vidas e mudou mesmo a minha. É a melhor ferramenta para me sentir capaz de tudo, é o meu escape num dia menos bom, e é, acima de tudo, a forma de me conectar cada vez mais comigo.

Quando falo disto nas redes sociais de forma tão apaixonada, é mesmo porque eu sinto que descobri a pólvora e quero que toda a gente a experimente. Não é a solução para todos os problemas, mas é um excelente primeiro passo para os começares a resolver. 


  1. Uma das provas de triatlo de longa distância mais exigentes e prestigiadas do mundo. Consiste em 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e uma maratona de 42,2 km, tudo realizado no mesmo dia, ininterruptamente, com um tempo limite total de 17 horas.
    ↩︎
  2. Competição de formato híbrido que combina 8 km de corrida com 8 estações de exercícios funcionais (uma por quilómetro).
    ↩︎

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Natural do Porto e formada em Economia, Mariana Ribeiro construiu o seu percurso entre o mundo corporativo e a comunicação digital. É criadora de conteúdo e comunicadora, destacando-se pela forma próxima e honesta como aborda temas como os desafios dos 20’s, saúde mental e desenvolvimento pessoal. É anfitriã do podcast Amiga, Faz Parte, em parceria com o Observador, um espaço de conversa onde procura aproximar pessoas através de histórias reais e experiências partilhadas.

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