Ser Jovem, Adulto, e ter Amigos

"Mais do que ser odiado ou invalidado por um amigo ou familiar, hoje em dia, o medo está em ser esquecido, substituído ou, pior, ser insuficiente. A dificuldade está em impor limites e “rejeitar” o outro, de modo a priorizar-nos."

Tempo de leitura: 9 minutos

Esta semana, deparei-me com um artigo da Cláudia Riscado (2026)1 com um tema interessantíssimo, cujo título é:  “Sim, toda a gente te odeia: O people pleasing e o egocentrismo Gen Z”. 

Penso que todos sofremos em silêncio perante este tópico ou porque não sabemos como nos expressar, ou porque supomos que não deva ser um tema. Tem-se normalizado a associação da solidão e do isolamento social com o processo de se tornar adulto. Segundo Mendonça et al. (2009)2, podemos considerar que estamos a entrar na adultez quando alcançamos a maturidade psicológica e a independência financeira. No entanto, gosto mais da descrição de Prioste & Magalhães (2019)3. Para os autores, a entrada na idade adulta é caracterizada pela instabilidade na definição identitária, pela “autocentração”, pela ambiguidade de deixar de ser adolescente e ainda não se sentir adulto, e pela redefinição da visão das relações, do trabalho e do mundo. O tópico de hoje recai nesta linha, porque a verdade é que é difícil fazer ou manter amizades neste período de transição.

Mas, então, quando é que passamos a ser crescidos, ou de jovens a adultos? Será quando terminamos a faculdade e passamos a ter um trabalho “das nove às cinco” (na melhor das hipóteses)? E os que sempre estudaram e trabalharam? À medida que os semestres avançam, a maioria dos estudantes vai-se confrontando com a realidade de olhar para trás e ver “miúdos” no lugar onde já estiveram; sentem que já não acompanham certos estilos de vida e que têm outras prioridades. É uma realidade comum e dolorosa entre universitários. Mais para uns do que para outros, como tudo na vida.

Surgem questões existenciais acompanhadas de uma solidão frequente – e cada vez mais intensa (Tian et al., 2025)4 –, que nos entope nos minutos ou horas vagas: “Não tenho tempo para nada”, “Se não for sair, ele(a) vai odiar-me. Já cancelei três vezes e não me apetece nada…”. É familiar? Damos por nós às voltas dentro do nosso sistema de prioridades na tentativa de chegar a todo o lado. 

Mais do que ser odiado ou invalidado por um amigo ou familiar, hoje em dia, o medo está em ser esquecido, substituído ou, pior, ser insuficiente. A dificuldade está em impor limites e “rejeitar” o outro, de modo a priorizar-nos. Certo? Dizer “tenho de ver” ou “depois combinamos” para dar tempo de ignorar ou de responder semanas depois. Todos o fazemos. A tendência atual é dominar o estar emocionalmente indisponível, o overthinking e o multitasking

Aprendemos o que significa responsabilidade afetiva, porém, esquecemo-nos de a ter perante nós; o self acompanha esta culpabilização constante mascarada pela perceção de responsabilidade que temos sobre a outra pessoa (Carapeto et al., 2025)5.  Chegamos ao final do dia e pensamos: “Fogo, sabia que me faltava alguma coisa!”. Se deixamos uma ponta solta, falhamos. E, apesar de sabermos que os humanos aprendem através da tentativa-erro, deixamos de saber errar. 

Foi um conceito bem interiorizado quando éramos crianças e os nossos pais nos diziam constantemente: “Tu vais cair” (e não é que caíamos mesmo?). No entanto, parece-me que, durante a adolescência, a pressão social é tanta que passamos a achar que isso de poder errar ou falhar passa com a idade. Um adulto perde esse espaço, essa oportunidade, é quase como se nos tivessem retirado um direito. Esquecemo-nos de que pode acontecer e de como lidar com isso.

Atualmente, podemos ser considerados people pleasers se dermos mais de 15 minutos de atenção à mesma pessoa, ou pick-me se precisarmos da atenção do outro. Então, onde se encontra o equilíbrio? E essas pessoas que dão demasiado ao outro, ou que exigem demasiado de nós, existem? Claro que sim, muitas vezes são comportamentos que todos nós temos. Não estou a apagar essa realidade, no entanto, este texto tem o objetivo de definir rótulos que atribuímos ao comportamento das pessoas para aliviar a imprevisibilidade de ter de lidar com elas num momento difícil ou desgastante, a tal ansiedade social.

Então o que é saudável? Se penso demasiado em mim, estou a ser egoísta; se penso demasiado nos outros, esqueço-me das minhas necessidades; se sofro ao pensar no que os outros estarão a fazer sem mim, é FOMO [o famoso fear of missing out, segundo Przybylski et al. (2013)]6… então é suposto pensar no quê?

A resposta não é clara, mas talvez seja importante olhar para dentro de nós e ouvir que necessidades estão pendentes. Reparem, o YOLO (You Only Live Once) passou de ser uma inspiração a uma obrigação social que nos empurra para um estilo de vida utópico: estar 100% presente, porque só se vive uma vez, e aproveitar cada segundo. Compreendo, só quero relembrar que, no final do dia, estamos a sós connosco e temos de ser capazes de nos ouvir; de viver connosco mesmos e não apenas nos tolerarmos quando temos tempo livre. Algumas das perguntas que devemos fazer são: “O silêncio acalma-me ou é sufocante e ansiogénico? Como é que o meu corpo reage perante este silêncio? Ou perante um convite que me fizeram?”. Spoiler: o nosso corpo já sabe a resposta antes de sequer pensarmos em tomar uma decisão. 

Sabemos que a técnica preferencial dos adolescentes para afastar os pensamentos negativos é o evitamento, porque lhes traz alívio imediato (Zimmer-Gembeck & Skinner, 2010)7, no entanto, a longo prazo, não é suposto uma interação social consumir-nos desta forma. Não é suposto termos uma crise de ansiedade antes de ir ter com amigos, a não ser que haja algum assunto pendente que nos deixe receosos e nervosos. Todos os temos. A ansiedade pode ser útil a part-time, mas não a full-time. Este evitamento e tentativa de controlar o que se sente e o que nos rodeia pode gerar desregulação emocional, abrindo caminho para outras dificuldades causadas pela falta de estratégias de coping saudáveis. 

Todos precisamos de atenção e é natural, sendo o suporte social (os amigos) e a interação social fatores de proteção fundamentais contra a solidão (Kulari & Ribeiro, 2025)8, influenciando diretamente a construção da nossa identidade e dos nossos valores (Prioste & Magalhães, 2019). 

O meu objetivo é consciencializar para o esforço que fazemos diariamente, para que seja possível refletir sobre ele. Poder perguntar: “Será que fazer isto me é útil? Pode ser hoje, mas e a longo prazo? Faz a diferença no meu dia a dia? Eu sinto-me bem a fazê-lo?”. Temos de ter em conta que há tarefas ou momentos em que iremos sentir desconforto não porque não as queremos fazer, mas sim porque estamos a sair da nossa zona de conforto. O que é necessário! “Ele vai odiar-me, mas então e eu? Como é que eu me sinto?”, vejamos, isto não é querer prever o futuro, mas sim redefinir objetivos e necessidades nossas que são reais e não expectáveis dos outros. Tem de ser sempre assim? Não, por vezes temos de fazer esforços por quem mais amamos e sabemos disso. Por outro lado, não constantemente, nem com tanta intensidade, autocriticismo e autoculpabilização.

Deixemos de ser uma sociedade extremista. É fulcral sabermos que existem extremos e conhecer os nossos limites, mas não é suposto estarmos constantemente a testá-los. Quanto mais pisarmos a linha ou a riscarmos, mais confusos e ansiosos ficamos. Deixa de ser claro para nós o que é okay e o que não o é, porque tudo nos causa ansiedade. Tornamo-nos incapazes de identificar e de nomear emoções e sentimentos. E, se assim o é, há algo mais por detrás. Temos de ouvir e sentir. Todas as emoções têm um propósito e acabam por se intensificar até este ser cumprido. Assim, presos num jogo da macaca interminável e já sem linhas desenhadas no chão, aliada à indisponibilidade, está a insatisfação social. Esta é a base de todo este estilo de vida impossível, seja ponderar qual a melhor companhia ou onde gastar o nosso tempo, que é precioso.

O foco deve estar em reconectarmo-nos connosco antes de qualquer outra coisa. Acima da validação, compreensão, empatia e escuta ativa perante o outro, está a nossa perante o self (nós mesmos). Talvez possa haver momentos em que estão numa prateleira mais alta e há alguém que surge para nos emprestar uma escada, mas temos todas as competências dentro de nós para lá chegar.

O suporte social tem a capacidade de criar um ecossistema seguro para que nos sintamos confortáveis o suficiente para sermos nós mesmos, para nos comunicarmos e expressarmos o que realmente sentimos. Se partirmos do pressuposto de que temos de ser personas ou iguais aos outros para agradar a gregos e a troianos, cultivamos a incongruência, o desconforto e a artificialidade. Dando um passo atrás, podemos perguntar: “Gostaria eu de ser meu amigo? E se fosse, o que me diria neste momento?”. Esta autocompaixão e autoconhecimento trazem alívio e honestidade, assim como permitem sentir o esforço recalcado perante estas escolhas difíceis que fazemos diariamente.

Todos temos momentos em que nos é mais fácil associar a ausência do outro ao esquecimento, ignorância, desprezo ou até incompreensão. É importante lembrar que poderão haver outros caminhos, outras prioridades e outros problemas. Procurar estar em contacto e não justificar constantemente quando não há necessidade, esse é um estilo de vida “extremamente desagradável” e tóxico. 

Reforço a importância do acompanhamento psicológico para todos nós. Vivemos numa sociedade em que o contacto com o self é cada vez menos estimulado. Estamos a aprender a viver para o outro e para o digital de modo a saber viver em sociedade, somos forçados a caber em papéis que não nossos ou não nos são úteis. Um(a) psicólogo(a) pode ajudar-nos a voltar a estar em contacto connosco mesmos, assim como uma rede de suporte, que começa em cada um.


Referências:

  1. Riscado, C. (2026, 27 fevereiro). Sim, toda a gente te odeia: O people pleasing e o egocentrismo Gen Z. Revista Oriana. Disponível em: https://revistaoriana.com/sim-toda-a-gente-te-odeia-o-people-pleasing-e-o-egocentrismo-gen-z/ ↩︎
  2. Mendonça, M., Andrade, C., & Fontaine, A. M. (2009). Transição para a Idade Adulta e Adultez Emergente: Adaptação do Questionário de Marcadores da Adultez junto de Jovens Portugueses. Psychologica, (51), p. 147–168. https://doi.org/10.14195/1647-8606_51_10 ↩︎
  3. Prioste, Ana & Magalhães, Eunice. (2019). Relação entre valores, social connectedness e desenvolvimento da identidade em adultos emergentes. Revista Crítica de Ciências Sociais. 118. 79-100. https://doi.org/10.4000/rccs.8522 ↩︎
  4. Tian, C., Zuñiga, R. A. A., Foláyan, M. O., Tuominen, J., & Virtanen, J. I. (2025). Psychological distress and loneliness among European university students during the COVID-19 pandemic: a European survey. BMC public health, 25(1), 3841. https://doi.org/10.1186/s12889-025-25001-3 ↩︎
  5. Carapeto, M. J., Agostinho, I., Grácio, L., & Santos, D. (2025). Between Support and Risk: The Dual Role of Peer Relationships in Adolescents’ Mental Health. Children, 12(11), 1569. https://doi.org/10.3390/children12111569 ↩︎
  6. Przybylski, A. K., Murayama, K., DeHaan, C. R., & Gladwell, V. (2013). Motivational, emotional, and behavioral correlates of fear of missing out. Computers in Human Behavior, 29(4), 1841–1848. https://doi.org/10.1016/j.chb.2013.02.014  ↩︎
  7. Zimmer-Gembeck, M.J.; Skinner, E.A. (2010) Adolescents coping with stress: Development and diversity. Sch. Nurse News, 27, 23–28. ↩︎
  8. Kulari, Genta & Ribeiro, Luisa. (2025). A Silver Lining: Age, Friends and Loneliness Among Portuguese University Students. Psique. XXI. 8-18. https://doi.org/10.26619/2183-4806.XXI.1.1 ↩︎

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Licenciado em Psicologia e Mestre em Psicologia Clínica e de Aconselhamento. A sua paixão por Psicologia nasceu consigo. Gosta de pensar que em cada plano terapêutico, tanto ele como o cliente saem do consultório realizados.

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