Uma condição que causa alienação
Pergunto-me quando o meu telemóvel se tornou numa extensão do meu corpo? Na casa de banho, na mesinha de cabeceira, no assento do autocarro, ou, para outros, no tablier do carro, no bolso das calças, na mão, em demasiados instantes da nossa vida.
De súbito, só se ouve falar deste vício do telemóvel e dos passos para o largar, tal como, há uns tempos para cá, os anúncios publicitários que incentivavam a largar o tabaco eram muito comuns.
Inocentemente, pensava que estava salva, apenas porque tenho o hábito de ir contra a corrente. Na verdade, ainda não instalei o TikTok, nem tenho vida social ativa para estar constantemente a trocar mensagens ou a partilhar conteúdos. Mas consultar o Instagram e o e-mail tornou-se um gatilho para a ansiedade e para aqueles momentos de pausa na fila do supermercado ou à espera em estabelecimentos que atendem à vez.
Este vício é-nos muito semelhante ao de comer. Temos de nos curar dele sem o largar por completo. Mais irónico ainda, vamos buscar soluções e inspiração precisamente à fonte do vício.
Acho piada a todos esses influencers, cujas redes sociais são o seu sustento, que publicam vídeos das suas rotinas analógicas, com títulos como “Less scrolling, more living” e ainda “My rituals to live a more analogic lifestyle.” Ao mesmo tempo que promovem um estilo de vida mais saudável longe do digital, continuam a alimentar esse meio com os seus conteúdos.
Excesso de opiniões
Cada vez mais, o meu cérebro implora-me por silêncio. Sinto que tenho de ter uma opinião em relação a tudo: guerras; alterações climáticas; ideologias políticas. Para compensar, tento informar-me, ler livros, ver documentários, seguir pessoas influentes e supostamente inteligentes. Mas, em vez de sentir que estou a fomentar o meu pensamento crítico, sinto que me estou a tornar ainda mais ignorante.
Sou obrigada a admitir que não tenho uma espinha suficientemente forte para debater com um apoiante da extrema-direita ou com qualquer pessoa com uma opinião contrária a mim. O meu discurso embrulha-se, os meus argumentos soam hesitantes, a minha voz desvanece perante a prepotência do outro.
Quando é anunciada uma nova guerra, o meu instinto é virar a cara, cobrir as orelhas e fingir que não é nada comigo. Quando ouço sem querer nas notícias sobre a morte de uma mulher pelas mãos do marido ou a violação em grupo de um homem, já não consigo arranjar forças para chorar e me indignar com a maldade da humanidade.
Desejo retroceder no tempo e voltar à ingenuidade da infância. Chego a acreditar que não estava destinada a este mundo. Noutras alturas, quando me sinto mais otimista, consigo desviar este tipo de pensamento e arranjo a coragem necessária para seguir em frente.
Todos nós compactuamos
O mundo em que vivemos é o mundo que criámos. Por mais que as pessoas critiquem, continuam a contribuir, a cooperar e a acreditar no sistema. Prova disso são os milhões de publicações partilhadas nas redes sociais. Donde veem? Veem das massas. Veem de nós. Somos nós que alimentamos as redes sociais em busca de likes, de interações, e, sobretudo, de conexão.
O problema deste excesso de partilha é que, a certa altura, parece que já tudo foi dito; que, enquanto indivíduos, nos tornamos irrelevantes se um determinado post não tiver alcance suficiente; que já não adianta nos atrevermos a pensar, porque as máquinas parecem pensar melhor que nós.
Estamos a perder autenticidade, e, ao mesmo tempo, priorizamos uma novidade supérflua e efémera. A obrigatoriedade de publicar conteúdo produz artificialidade. A comparação, a inveja e a busca por validação tornam-nos ocos por dentro. Esta é a crise da intoxicação por ruído. Morremos aos poucos, sem nos apercebermos, à medida que nos esvaziamos de alma e sentido.
Qual é a solução? Regressar à espiritualidade? Creio que esse barco já terá partido há algum tempo. É impossível voltarmo-nos para a espiritualidade sem o apoio da evidência científica. Podemos tentar, mas vai sempre persistir a dúvida algures em nós.
Cada pessoa, uma ilha
Enquanto atores das redes sociais e plataformas digitais, procuramos atrair um público leal e encorajador. Queremos ser os protagonistas da pequena ilha que criámos online. Daí proliferam os blogues, os clubes de leitura, as iniciativas sobre tudo e mais alguma coisa.
Pela corrente navegam os consumidores mais passivos, como eu. É difícil resistir às solicitações que surgem todos os dias para comprar o livro de um novo autor que se lançou a solo, para promover a página de um negócio online, para participar num clube de leitura recém-criado. Sentimos que se não ajudarmos, se não estivermos envolvidos, vamos perder uma oportunidade futura, e a culpa invade-nos, porque precisamos também de público para alimentar os nossos próprios sonhos. Assim como este texto precisa de um público para o ler. Guardado nos arquivos da cloud perde todo o seu sentido. Pelo menos, é isso que digo a mim mesma, consciente de que será esquecido pelo peso da multidão e do tempo.





















































































































