Nunca será tarde para mencionar Pluribus como um convite à reflexão sobre a nossa gradual perda de identidade, num projeto social que nos quer cada vez mais massificados, manipuláveis e carentes da capacidade de pensar.
Não consegui evitar pensar, a cada episódio, nas diferentes interpretações daquilo a que o “corpo coletivo” aspira. Também não ajuda o facto de ter visto inúmeros vídeos que analisam de forma cirúrgica as infinitas possíveis explicações para os significados por detrás da virose que se apodera da humanidade e dos que, por teimosia genética, resistiram à transgressão dos seus corpos, sentimentos e mentes.
É-me impossível resistir ao paralelismo que me acompanha há meses, desde que me dei conta das insistentes e repetidas tentativas do vírus de contrariar o que é diferente de si, querendo a todo o custo homogeneizar as experiências, outrora individuais. Quantos de nós, ao crescer, nos vimos entre a espada e a parede, quase obrigados a mudar só para encaixarmos em grupos a que queríamos pertencer? À medida que crescemos, sobretudo na adolescência, é normal querermos pertencer; faz parte da natureza humana integrarmos os meios onde nos sentimos mais fortes, de certa maneira, protegidos, em que nos vemos refletidos nos gestos dos outros. Na fase adulta, despojados dos maneirismos que absorvemos nos anos anteriores, vamos tentando quebrar certos ciclos ora por já não cabermos neles, ora por deixarem de fazer sentido. Há algo que nos incita a experimentar o mundo lá fora, encerrar amizades, seguir adiante. Porém, por algum motivo, há uma voz, um jogo de dados viciados que nos controla, que nos sussurra as desvantagens de sermos… diferentes. De sairmos da manada, de desrespeitarmos as regras. Sejam elas quais forem.
Vemo-nos presos num outro ciclo, desta vez, mais tenebroso. Uma espécie de limbo que nos incapacita e amedronta, impedindo-nos de dar o passo de que precisamos para sermos nós próprios. À nossa volta, as pessoas parecem cópias de si mesmas: vestem as mesmas roupas, usam as mesmas cores, riem-se da mesma maneira (e das mesmas coisas), defendem as mesmas ideologias políticas (ou não defendem nada de todo), ouvem as mesmas coisas, leem os mesmos livros, comem a mesma coisa (e da mesma forma), fazem as mesmas atividades, namoram as mesmas pessoas, vivem em casas semelhantes, têm os mesmos hábitos, correm nas mesmas maratonas. Num oceano de mesmices, onde é que entra a nossa individualidade? Como é que podemos viver a nossa individualidade? Quem somos nós quando somos capazes de nos afastar do buraco negro que nos suga, respirando fundo e compreendendo, verdadeiramente, o que é nosso e o que não é para nós?
Isto não é, de todo, uma crítica ao coletivo como uma força social que devemos procurar construir para fazer face aos problemas que nos cercam. Talvez esteja muito influenciada pela minha investigação final do curso, mas acredito profundamente na máxima de que juntos, abertos aos conflitos para arranjar soluções, seremos mais fortes. Contudo, o que nos é comum só poderá beneficiar se tiver em si indivíduos capazes de pensar, de desafiar sistemas hegemónicos. O problema nunca será existir um grupo que coexista entre si, tal como nos é proposto em Pluribus. A questão complica-se quando, como acontece nesta série, os indivíduos que são capazes de questionar o que ocorre à sua volta são absorvidos por um sistema que lhes rouba o que têm de mais valioso: o livre-arbítrio de escolher integrar um grupo em detrimento de outro. Ou de não integrar grupo nenhum. De agir conforme aquilo em que se acredita. De voltar atrás na palavra e reconsiderar os próprios valores.
A diversidade é um espectro que devemos respeitar, mais não seja para termos com que relativizar as nossas vivências. A partir daqui, muitos poderão descontextualizar o meu ponto de vista para justificar determinadas escolhas duvidosas que põem em causa a liberdade, a segurança e o respeito pelo próximo, pois são exatamente estes núcleos que querem controlar o ambiente que habitam. Aqui, não é de controlo que se fala, é exatamente do oposto. Quem sabe se as mesmices que ecoam pelo mundo fora não serão resultado de escolhas individuais, sustentadas por uma felicidade genuína de ser assim. O que me inquieta é: e se, na verdade, deixámos de ter escolha? Quão longe estamos de viver exatamente como as personagens de Pluribus?
Gilligan, V. (Criador), & Gilligan, V., Frost, J., Mercer, D., Ozarski, A., Smith, G., & Tatlock, A. (Produtores executivos). (2025– ). Pluribus [Série de televisão]. Apple TV+.





















































































































