Marcelo, Precisamos de Um Novo José Hermano Saraiva

"Também foi durante este período que o meu interesse pela política surgiu. Até à faculdade não acompanhava praticamente nada, andava completamente alheado do que acontecia em Portugal e no mundo...

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Para a minha geração a presidência do Professor Marcelo foi um período muito marcante. De 2016 até hoje: saí da escola; entrei na universidade; apanhei COVID; mudei de gostos; larguei alguns passatempos, estreei outros; entrei na vida adulta; iniciei o percurso profissional; e outras tantas coisas começaram e acabaram na vida de quem tem hoje 25 anos.

Também foi durante este período que o meu interesse pela política surgiu. Até à faculdade não acompanhava praticamente nada, andava completamente alheado do que acontecia em Portugal e no mundo. Uma das minhas primeiras memórias do despertar desse interesse surgiu nas celebrações do 25 de abril em 2018. 

Recordo-me de ouvir uns segundos do discurso do Presidente da República na hora de jantar e ficar muito intrigado com expressões como “populistas”, “sebastianistas” e “messiânicas”. Tudo isto num discurso que interligava assuntos atuais, recentes e muito antigos, as típicas “rotundas históricas” que caracterizaram as mensagens de Marcelo Rebelo de Sousa nestas ocasiões, principalmente no Parlamento.

Para alguns tornava-se tudo muito enfadonho, chato ou mesmo, para os mais críticos, sinalização de virtude. Mas para mim, além de captar, inesperadamente, a minha curiosidade, foi uma porta de entrada para a ARTV. Lembro-me de nessa noite ir pela primeira vez ao canal do parlamento e puxar a fita atrás para ouvir todo o discurso.

Mais tarde, bem mais politizado e com a “ajuda” do COVID, ganhei o hábito de todos os dias apontar as minhas aprendizagens diárias: discursos; citações; acontecimentos de relevo; histórias; notícias; bem como fun facts. No fundo, uma versão rasca e personalizada de journaling.

No caderno de 2023 encontrei várias referências ao Professor Marcelo, em particular uma muito enigmática do dia 7 de novembro: “Passeio de Marcelo Rebelo de Sousa com os jornalistas no Beco do Chão Salgado – local onde viviam os Távoras, uma família condenada à morte pela tentativa de homicídio do rei D. José, em 1758. A sucessora rainha D. Maria mandou ’salgar’ o chão para que não se construísse mais nada naquele local (hoje existem muitas construções)”. 

Naquela noite, foram muitas as reações àquele momento caricato, e obviamente não passou despercebida a lição política que podia ser extraída do relato desta história. Contudo, foi mais um dos vários episódios do mandato do Presidente Marcelo no qual ele captou a minha atenção, a sua capacidade para contar histórias e partilhar cultura são muito mais do que apenas ávida leitura e enciclopedismo. Colocava os conhecimentos ao serviço do poder da sua palavra para relatar curiosidades, preocupações e anseios. 

Revejo nele o que ele revia no notável José Hermano Saraiva, “um mágico do verbo (…) e que, por essa via, atravessava quadrantes de pensamento”. Marcelo Rebelo de Sousa chegou a afirmar que “nunca ninguém usou com tanto brilho a oratória televisiva”. 

E a verdade é que o falecido historiador aliava extraordinárias capacidades discursivas a um conhecimento muito vasto, ensinou centenas de jovens pelas escolas onde passou e instruiu milhares de portugueses ao longo de décadas com os seus programas de história. Uma figura que marcou gerações em Portugal, respeitada e apreciada pelo seu conhecimento e portador de competências de comunicação que o tornou o Príncipe dos Comunicadores.

Infelizmente, nunca mais tivemos ninguém assim. Num tempo em que a história é esquecida, falsamente lembrada ou propositadamente ignorada, reveste-se de enorme importância voltar a ter alguém com o papel de ser o farol nacional da história.

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Para a avó uma joia, para o pai um burro carregado de livros e para os amigos apenas mais um jotinha. Para a política? O mal-amado da direita e o incompreendido da esquerda. Chato, obsessivamente pensativo e um compulsivo averiguador, como nunca se sai ileso deste caldo, escreve para desobstruir.

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