Durante décadas, o futebol feminino em Portugal foi interpretado como um rodapé. Uma obrigação moral num desporto universal que se diz inclusivo para todos. Uma atividade profundamente seletiva. Hoje em dia a conversa já é outra. Já há olhos, câmaras e interesse na cobertura da prática do desporto rei representado pelas verdadeiras embaixadoras, as mulheres.
Foi um longo caminho até à crónica que escrevo agora. Obviamente um caminho longe de estar terminado. Uma missão sem fim na vontade de imaginar um mundo onde o futebol feminino possa receber a atenção, receita e competitividade que o outro género construiu para a sua base.
Os últimos anos foram certamente o ponto de viragem para Portugal. Finalmente inicializou-se aquela que é a compreensão de que o futebol feminino não é um gesto simbólico de inclusão, mas sim uma necessidade cultural, desportiva e económica. A Federação Portuguesa de Futebol tem um claro papel importante naquela que foi a estruturação do futebol feminino. Conseguiu antecipar-se a uma transformação inevitável do desporto rei e organizou ainda mais as suas competições, professionalizou estruturas e criou projetos.
São já 22 milhões de euros investidos já nesta temporada de 2025/2026, sendo que 10M são direcionados às competições, 4.25M diretamente para as equipas das primeiras três divisões portuguesas, 11.2M para as Seleções Nacionais e ultimamente 1.5M para a arbitragem feminina. Fundamental. Vivemos hoje consequências extremamente positivas destes investimentos feitos no passado recente. O crescimento e a presença das Navegadoras em fases finais de torneios da UEFA e da FIFA, como o Europeu de 2022 e o Mundial de 2023 demonstrou que cada vez mais conseguimos transformar esta vontade em talento, a organização em ambição e um intento de colocar Portugal no mapa, agora com a ajuda das mulheres.
Voltando ao futebol de clubes, a presença cada vez mais constante de Benfica e Sporting em competições europeias, conseguindo ter uma capacidade de produção de talento maior de ano a ano tem sido uma bela nuvem de positividade e de confirmação da qualidade natural que conseguimos encontrar na jogadora portuguesa. O Porto não quis ficar atrás e vimos também um grande investimento ser feito, com a ambição de chegar à primeira liga e lutar pela hegemonia do futebol feminino português.
Não existem melhores embaixadoras da nossa marca como Kika Nazareth, Jéssica Silva e Ana Capeta, entre outras mais. Todas levaram o amor pelo futebol português para fora e fizeram com que a nossa liga seja mais atrativa, com mais capacidade de investimento e desenvolvimento de talentos. O mais importante é que as novas gerações de atletas portuguesas já nasceram num contexto diferente daquelas que foram as suas pioneiras. Estas jovens entram em academias certamente mais estruturadas e em competições/clubes que ambicionam vê-las crescer e tornarem-se profissionais. O futebol deixou então de ser apenas uma paixão. É agora uma carreira. O sucesso é a continuidade deste trabalho.
É por isso que este Dia da Mulher é fundamental para podermos refletir sobre este percurso. Não apenas uma celebração simbólica, mas um rever daquele que foi o caminho traçado até aqui e também o que ainda falta percorrer. As Navegadoras já demonstraram que o talento e a ambição existe. Este é um momento que define a história do futebol feminino. E viva ao futebol. E viva à mulher.





















































































































