Flores hoje, igualdade quando?

"Portugal ainda tem muito caminho a trilhar para assegurar os direitos plenos das mulheres e um caminho ainda maior para assegurar que as leis saem do teórico para a prática."

Tempo de leitura: 4 minutos

O Dia Internacional da Mulher é para muitos mais um dia de planeamento de estratégias de marketing por parte de grandes marcas, cumprindo sempre um estilo de publicidade: a mulher como mãe e mulher devota, uma panóplia de cor de rosa, bouquets de flores, uns docinhos e aqueles romances que vêm nuns saquinhos de organza. E há espaço para prendas, para celebrações mas há assuntos mais imperativos sobretudo quando tentam descredibilizar a necessidade de se falar em igualdade de género.

 “Nenhum país no mundo alcançou plena igualdade jurídica para mulheres e raparigas”1. Começa assim a mensagem escrita pelo Centro Regional de Informação das Nações Unidas (UNRIC) para marcar esta efeméride e levanta dados que deviam alarmar qualquer um: em 2026 as mulheres têm apenas 64% dos direitos legais que os homens e continuam expostas a violência física, moral, sexual, a casamento coargido, a remunerações dispares no trabalho, a um trabalho não remunerado (de lida doméstica, cuidado dos filhos e doutros familiares) desigual, a uma investigação científica e conhecimento médico insuficientes sobre os nossos corpos e falta de acesso a tratamento a condições de saúde que nos afetam.

Estas realidades batem-nos à porta. Portugal ainda tem muito caminho a trilhar para assegurar os direitos plenos das mulheres e um caminho ainda maior para assegurar que as leis saem do teórico para a prática. A violência doméstica continua a ser o maior crime cometido e a maioria das vítimas são mulheres que têm ou tiveram relações de intimidade com os seus agressores. O número de vítimas acompanhadas na Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) aumentou nos últimos anos2 e apesar da violência doméstica ser um crime público, chegando a tribunal pode ser um dos vários casos conhecidos em que o juiz desvaloriza ou descredibiliza a vítima (remontando a vários casos mediáticos, demasiados, em que os juízes exercem juízos de valor em casos de violência doméstica3). 

Estas situações são sintomáticas duma visão social machista. Numa altura em que muitas de nós lutam por manter e ganhar os direitos dignos que toda a gente merece, há quem defenda o poder esmagador do patriarcado com unhas e dentes. Com a subida de ideologias de extrema direita têm-se insurgido mulheres que repudiam o feminismo e que reinvidicam um retorno aos “valores tradicionais”; e homens que defendem tanto ou menos acesso à vida pública e à discussão de ideias por parte das mesmas. Só temos o privilégio de negar ou de recusá-los quando os temos por garantidos. Porque o feminismo defende a pluralidade de vozes mesmo que falem contra si. Sem ele, o que seria destas vozes? Não teriam plataforma, não teriam tido acesso à escola (ou teria sido dificultado e não teria sido uma prioridade), não teriam voto em matérias sobre os seus direitos, o seu corpo, as políticas que os homens escolheriam para si.

O Dia da Mulher não é só para prendas. E mais. Não deixem as flores para as efemérides, os aniversários e os funerais. Amem as mulheres todos os dias mas não só: sublinhem as suas conquistas, valorizem o seu valor, lutem por pela sua equidade social e laboral, pelo seu acesso pleno à saúde e de ter um corpo são, autonomia corporal plena, apoiem o trabalho de mulheres, consumam arte produzida por mulheres.

Referências

  1. https://unric.org/pt/nenhum-pais-no-mundo-alcancou-plena-igualdade-juridica-para-mulheres-e-raparigas/ ↩︎
  2. https://www.publico.pt/2026/03/06/sociedade/noticia/apav-apoiou-50495-mulheres-ultimos-quatro-anos-maioria-violencia-domestica-2167037 ↩︎
  3. Ainda em 2025 foram noticiados vários casos, como o do juíz em Santarém que disse à vítima “ ‘A senhora fazia como fazem as mulheres, mentia’ ”. Fonte: https://cnnportugal.iol.pt/videos/a-senhora-fazia-como-fazem-as-mulheres-mentia-juiz-de-santarem-culpabiliza-vitima-de-violencia-domestica-e-absolve-agressor/681361460cf2ba9f720ed005 ↩︎

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Ana Rita Cunha nasceu em 1993 em Lisboa. Licenciou-se em Estudos Portugueses (major em Literaturas e Culturas, minor em Literaturas e Culturas Africanas de Língua Portuguesa) e concluiu o mestrado em Edição de Texto. Em 2021 começou a publicar com frequência sobre as suas leituras, fotografias e assuntos atuais.

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