Quando as escolhas de adolescente deixam de fazer sentido na vida adulta?

“Há todo um conjunto de problemáticas em jogo, tais como o tempo (que não é igual para todos), o capital financeiro e cultural disponível (que não é igual para todos) e as responsabilidades em família e no campo profissional (que, adivinhem, não são iguais para todos).”

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Quando era mais nova, tinha um sonho que, atualmente, ainda deve ser comum a muitos jovens: terminar a licenciatura antes dos 21 anos e celebrar o canudo do mestrado aos 23. Gostaria de ter tido alguém para me explicar que nem todos os planos, por muito bem concebidos, estão fadados a acontecer. Pelo menos como julgamos. Tinha 18 quando entrei na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa (FAUL). Aos 21, comecei a sentir que algo não estava bem, longe de compreender que o mundo não desabaria se mudasse de curso, revertendo as decisões tomadas em adolescente. No fim do terceiro ano letivo, congelei a matrícula, deixando o mestrado integrado para depois. Apesar de, na altura, não ter contado com a pandemia que nos assombrou nos anos seguintes, dei comigo a celebrar o facto de não ter frequentado a faculdade naquela altura; afinal, se já estava com a saúde mental à beira do abismo, o que teria sido de mim se permanecesse no curso que deixou de me encantar?

No entanto, inspirada num misto de situações, dei por mim a regressar aos recintos da FAUL, em setembro de 2021. A pressão familiar para terminar o que havia começado, junto da pressão social que nos é incutida desde cedo para estarmos sempre ocupados, reforçou a ideia de me sentir atrasada nesta corrida desenfreada para um destino que, até agora, ainda ninguém descobriu qual é. Há quem lhe chame sucesso, mas o que é isso de ter sucesso? Na especialização em que julguei vir a trabalhar, começou por correr tudo bem. Os professores eram acessíveis, os colegas davam-se bem e aprendi coisas que me são úteis até hoje. Porém, as circunstâncias da vida adulta eram outras. Mesmo com bolsa de estudos – que, reforço, foi o que me permitiu frequentar a faculdade –, tinha de trabalhar para arcar com outras despesas. Além das propinas, havia impressões constantes em formatos grandes para fazer, materiais vários para maquetes para comprar e despesas de alimentação e pessoais para pôr em dia. Considero-me uma sortuda por ter vivido relativamente perto da faculdade, não tendo precisado de pagar por um quarto (entenda-se por “perto” fazer três horas de viagens que implicavam atravessar o rio e a cidade de Lisboa até à Ajuda todos os dias). Em comparação com muitos dos colegas que eram de outros países, ou do Norte e Sul de Portugal, longe do que lhes era familiar, considerava-me uma privilegiada. Ainda assim, após aqueles anos todos, algo em mim não sossegava. No âmago do meu ser, sentia que aquele não era o meu lugar.

Além de não ser fácil conciliar os estudos com o trabalho, tornando-se mais difícil à medida que os anos se desdobram e as responsabilidades acumulam, sentia-me um peixe fora de água em relação a colegas que pareciam ter a vida resolvida. Sentia-me amargurada. Questionava-me constantemente o que haveria de errado comigo. Vim a perceber mais tarde que não havia nada de errado: acontecia que era apenas uma jovem, entre tantos mais pelo mundo fora, a quem calhou ter tido uma orientação psicotécnica insuficiente para compreender exatamente o que queria fazer na vida. O que é irónico, dado que passei grande parte da minha existência convencida de que sabia exatamente o que queria, bastando continuar a tirar as notas mais altas, sendo condecorada aluna de mérito ano após ano e ganhando uma ou outra bolsa como resultado. Só que isso não bastou para conseguir escolher um percurso académico que me preenchesse.

Sinto que a nossa educação falha em muitos sentidos. Desde a falta de diversidade nos currículos escolares (atividades extracurriculares que contribuam verdadeiramente para o desenvolvimento dos jovens, um apoio psicológico semanal ou mensal, a autonomia do aluno em escolher as matérias com que se identifica), até à perpetuação da ideia de que só existe um caminho possível e que, se nos desviarmos, considerando mudar uma única peça do puzzle, somos uns falhados. Esta visão não só isenta o coletivo da responsabilidade perante os acordos sociais que alimenta, mas também desconsidera as diferenças entre classes sociais. O ponto de partida de uns não é igual ao de tantos mais que não podem preocupar-se, somente, em tirar notas altas, dedicando horas a fio aos estudos.

Há todo um conjunto de problemáticas em jogo, tais como o tempo (que não é igual para todos), o capital financeiro e cultural disponível (que não é igual para todos) e as responsabilidades em família e no campo profissional (que, adivinhem, não são iguais para todos). Como consequência, há pessoas que não têm a capacidade nem tão-pouco o tempo para investir em acompanhamento psicoterapêutico para organizar as ideias. Nem todos podem dar-se ao luxo de tirar um gap year ou participar em retiros espirituais para se redescobrirem. Não está acessível a todos a possibilidade de mudar a rota; há quem não se possa dar ao luxo de “falhar”. Infelizmente, estamos perante um problema que não é exclusivamente individual. Muito pelo contrário, é uma questão social e política que deve ser analisada, compreendida e conversada devidamente, indo além de discursos defensores do conceito de meritocracia, dedicação constante e sucesso. Como tal, fica a pergunta: o que é que temos feito enquanto sociedade para fazer diferente?

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Mestranda em Estudos Urbanos, artista multidisciplinar, podcaster e sonhadora. Uma “calma nervosa” que não cessa na criação de projetos. Apreciadora de plantas, livros e velas, escreve para organizar as ideias, pinta para expressar emoções e partilha o que lhe vai na cabeça em conteúdos escritos e audiovisuais desde 2015.

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