Hoje, enquanto está fresco e presente em mim, escrevo. Escrevo para não esquecer, escrevo para entender, ou apenas para me entreter. Hoje, escrevo sobre o passado, presente e futuro. Escrevo sobre memória, sobre histórias e sensações, sobre sentidos ouvidos adormecidos. É no passado que nascem as memórias, é no presente que ganham vida e é no futuro que nos guiam.
“Pobre velha música!
Não sei porque agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.
Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.”1
A memória de um som, cheiro, toque, sabor, paisagem, ou ardor são pequenos retratos que guardamos. E, muitas vezes, quer queiramos quer não, abrimos o álbum e recordamos. Recordamos para nos fazer sentir, para nos fazer sorrir ou chorar, para dar espaço à saudade e nela poder ficar.
Quantas músicas não marcam uma infância? Quantas músicas não marcam uma vida? Eu tenho 26 anos e já tantas fazem parte da minha. Qual será o meu espólio de canções quando já só restar a memória de mim em ti? Caminho na estrada, ouço-te e penso em ti. Momento do passado, história vivida lado a lado. Entro no carro, ouço-te e penso em ti. Memória de um fado, de um riso descontrolado, de um olhar atordoado. Estou num concerto, ouço-te e penso em ti. Recordação de uma infância, vivida com esperança, liberta de mudança, repleta de abundância.
Hoje, falo para ti, memória. Para ti que ficaste, que nada pedes em troca, que te deixas ser usada, maltratada, chorada. Que te deixas ser amada, que te transformas em risada e que fluis da minha guitarra. Escrever, fazer uma canção não é nada mais nada menos do que um conjunto de memórias. Por vezes regadas pela imaginação, claro, mas não serão também algumas das nossas memórias pura imaginação? Lembro-me da cara do meu avô Eurico, porque me mostraram fotos dele, e, por isso, imagino-o à minha frente? Ou lembro-me dele porque me teve no seu colo quando eu tinha apenas um ano de idade? Por vezes, fico confuso com as minhas memórias. Não sei se realmente nasceram de algo, ou se fui eu a criá-las de raiz. Mas não deixam de ser memórias, certo? É caso para dizer que “a memória age como a lente de uma câmara escura; reduz todas as coisas e, dessa forma, produz uma imagem mais bela do que o original”2.
Não existe maneira mais bonita de expressão do que a arte. Em todas as suas vertentes, a arte é um conjunto de memórias do artista, um conjunto de vivências trazidas à superfície no momento de criação. A memória de uma canção, do que ela representa e do que ela me atormenta ou alenta é o meu momento favorito do dia. Cada canção tem uma capacidade diferente, um superpoder presente que nos transporta. Daí a minha quase obsessão por ti, música. Ao ouvir-te, sinto; ao escrever-te, inspiro; ao tocar-te, expiro.
Gostava de ter uma memória infinita. Por vezes, dou por mim a esquecer-me do que fiz ontem e sei que não sou o único aqui presente a passar pelo mesmo. Gostava de me lembrar com exatidão, com pormenor. Gostava de estar lá, naquele momento, naquele futebol de amigos, naquele jantar já esquecido, naquele beijo contido, naquele andar fugido, naquele concerto contigo.
“Trocaria a memória de todos os beijos que me deste por um único beijo teu. E trocaria até esse beijo pela suspeita de uma saudade tua, de um único beijo que te dei.”3
Por muito que a memória seja uma dádiva dada a nós humanos, existem algumas que dávamos tudo para esquecer. Mas é um esquecer magoado. É um fugir ao sofrimento, às sensações outrora adormecidas, que vêm ao de cima quando invocadas por nós. Muitas vezes inconscientemente e involuntariamente. Basta um som, cheiro, toque, um sabor, paisagem ou ardor, para trazer tudo ao presente.
E tudo isto – todas as nossas boas ou más memórias – é o que faz de nós quem somos e, se pensarmos mesmo bem, o que é a memória, senão mesmo uma grande dádiva?
Por isso, música, sê para mim aquilo que eu sou para ti. Não me esqueças, faz de mim tua memória, tua morada. E, mesmo que o faças, mesmo que me esqueças, sabe que me podes sempre voltar a lembrar.
“Poder Esquecer
Poder esquecer que conheci
contigo
o interior antigo da cidade
[…]
Poder esquecer que ignorei
contigo
tudo o que quisemos e pensámos
[…]
Poder esquecer que conheci
contigo
os sítios mais meigos da cidade
[…]
Poder esquecer que conheci
contigo
aquilo que escondemos. Não fizemos
[…]
Poder esquecer que conheci
contigo
a recusa de nós
Que ignorei
contigo
tão meigas vontades que esquecemos”4
Referências
- http://arquivopessoa.net/textos/213 ↩︎
- https://blogdaprofessoraarminda.wordpress.com/2024/03/09/reescrita-das-composicoes-6/ ↩︎
- https://www.pensador.com/frase/MzA3NDg2/ ↩︎
- https://pt.scribd.com/document/699431693/As-Palavras-Do-Corpo-Maria-Teresa-Horta#content=query:poder%20esquecer,pageNum:51,indexOnPage:0,bestMatch:false
Pág 51 ↩︎




















































































































