Demasiada Oferta Mata o Interesse.

"Num dia em que é suposto acordarmos com o pequeno-almoço na cama, um ramo de rosas e um beijinho na testa, nós, solteiros, acordamos, em vez disso, com a vibração do telemóvel: mais um like, mais uma match."

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Demasiada oferta mata o interesse.Vamos falar em direita e esquerda, mas nada a ver com política. Num dia em que é suposto acordarmos com o pequeno-almoço na cama, um ramo de rosas e um beijinho na testa, nós, solteiros, acordamos, em vez disso, com a vibração do telemóvel: mais um like, mais uma match. Ora segue o tutorial.

Primeiro abrimos a página principal e deixamos o dedo guiar: desliza para a direita, desliza para a esquerda. Fazemos os nossos julgamentos sobre a pessoa numa questão de segundos: se é bonita, se é alta ou baixa o suficiente, se parece minimamente interessante.

As matches vão acumulando incontáveis conversas sem rumo, uma porção significativa que nunca passa de uma troca de palavras desinteressantes, mas, dependendo da vontade do utilizador, às vezes resulta em encontros. Encontros onde a conversa tende a seguir uma lógica assustadoramente repetitiva: de onde és, o que fazes da vida e o que esperas que resulte da interação.

Os resultados variam: caso álcool esteja envolvido, podem acabar na casa de um ou de outro, acordar com uma dor de cabeça no dia seguinte, e fazer a famosa jornada de vergonha de volta para casa, deste cenário é improvável vir um segundo encontro; caso não haja álcool, ou a conversa é aborrecida e inventas uma desculpa para terminar o encontro (pessoalmente a minha preferida é “tenho de ir passear o meu cão”); ou um resultado mais raro, a conversa é de facto ótima. Têm imensa coisa em comum, os objetivos alinham-se, há risos, faíscas até. Passam uma tarde maravilhosa juntos e no final acordam haver um próximo encontro e falam de todos os potenciais planos. Fantástico, possivelmente encontraste mesmo o amor da tua vida!

Chegas a casa do melhor encontro que já tiveste. Agora tens duas opções. Deitas-te na cama, ligas aos teus amigos com um sorriso na cara a contar tudo sobre esta nova pessoa. Eles já ouviram isto antes, mas ouvem-te na mesma. No dia seguinte, mandas mensagem para combinar o segundo encontro. Ou, deitas-te na cama, abres a aplicação, dedo para a esquerda, dedo para a direita, match. Falam, combinam um primeiro encontro, enquanto o amor da tua vida espera que lhe respondas à mensagem para combinarem o segundo, já estás tu a combinar outro primeiro. 

E na vida real? Andas pela rua, entras num café, no metro ou autocarro, vais dar uma volta ao parque, dás de cara com uma quantidade de pessoas aparentemente interessantes. Se calhar sorris, se calhar sorriem-te de volta, mas ninguém fala. A vida continua, tanto para ti como para o amor da tua vida.

Entretanto, chega o Dia de São Valentim, o melhor dia do ano dos floristas, época em que os especialistas de marketing devem todos tirar férias, sendo que são sempre as mesmas bugigangas à venda todos os anos.

Abres o Instagram e vês os casais nas suas atividades fofinhas de Dia dos Namorados, quase acreditas que toda a gente está apaixonada, menos tu. Depois lembras-te que é tudo mentira. Provavelmente tiveram uma discussão no carro a caminho do restaurante porque pessoa A queria ir ao sushi novo, mas pessoa B não reservou o restaurante a tempo e agora têm de ir ao sushi velho. Ou pessoa A estava à espera de 50 rosas e pessoa B deu-lhe só 10. Ou pessoa A estava à espera de diamantes e pessoa B deu-lhe um voucher para irem saltar de paraquedas, mas pessoa A tem vertigens, e como é que pessoa B não se lembrou disso após três anos de namoro. 

Fechas o Instagram, ligas à tua mãe, porque o Dia de São Valentim não é só para os namorados, é dia de celebrar o amor. Depressa, arrependes-te desta decisão: “então e namoros filha(o), nada?”. Abres novamente a aplicação e dá-te vontade de bater com a cabeça na parede, de pensar em ter de responder a mais um “olá, tudo bem?”, vestir a tua melhor roupa para ir beber mais um copo (não beber no mês de janeiro não é algo a que os solteiros se possam dar ao luxo). Estás farto. Já viste mil caras, falaste com centenas delas, conheceste dezenas e nada. 

É aí que decides apagar a aplicação. Quem sabe, podes até conhecer alguém de forma orgânica. Fazes um esforço, sais mais à rua, vais continuando a sorrir a estranhos com caras bonitas, talvez algum há de ganhar coragem e falar contigo. Ficas na esperança que entre algum colega novo no teu trabalho, da tua idade, e quem sabe até seja engraçado, mas é improvável. Vais a mais festas com amigos, até fazes um esforço e falas com mais pessoas, mas o álcool não ajuda propriamente a tomar boas decisões. Vais conhecendo pessoas atrás de pessoas, mas ninguém te provoca as tais borboletas que de tanto se fala.

Passados uns meses, esqueces-te da vontade de bater com a cabeça na parede. Reinstalas a tal aplicação. Será que é desta? 

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