Agora que janeiro terminou, podemos refletir quais as resoluções que (já) ficaram para trás, aquelas que são para manter e aquelas que podem ser redefinidas. Dentro das que acredito que têm de ser redefinidas estão as relacionadas com a nossa saúde, mais concretamente, com o Dry January. Este conceito nasceu em 2013[1], pela Alcohol Change UK, como uma experiência para avaliar como é que um mês sem álcool afetaria a vida das pessoas[2].
Hoje em dia, vê-se cada vez mais adeptos deste desafio nas redes sociais. É encarado como forma de abrandar, de avaliar os nossos consumos, de entender o impacto que este hábito tem na nossa vida e, acredito eu, como uma solução de entrada no novo ano num modo mais saudável. Não sou muito fã de tendências das redes sociais, mas quando traduzem saúde e bem-estar, sou grande apoiante. Se correr maratonas se tornou uma moda? Perfeito! Sinal que as pessoas estão a praticar exercício físico. Estar, pelo menos, um mês sem beber álcool? Perfeito! As pessoas estão a adotar hábitos saudáveis.
Fiquei fã do Dry January e, no fim deste desafio, quero deixar algumas reflexões no ar. Uma delas é: depois de mudarmos um hábito durante um mês, devemos mesmo pensar sobre ele e o impacto que está a ter na nossa vida. A outra é: esta aprendizagem segue-nos nos restantes 11 meses do ano, ou a partir de fevereiro voltamos ao que era?
Um mês é, de facto, melhor que nada. No entanto, a mim, parece-me pouco. O álcool é aquela droga que a sociedade ignora em conjunto. Ignora os riscos, ignora as doenças hepáticas, os casos de cancro e ignora os acidentes na estrada que acabam com pessoas mortas, apenas porque alguém bebeu “mais um copo” e não devia ter pegado no carro. Mesmo sabendo de tudo isto, é difícil estar num grupo social sem beber, e, quando alguém o faz, são raras as vezes em que não tem de responder a (demasiadas) perguntas sobre o porquê de não estar a beber.
O álcool é efetivamente uma droga e, como tal, vicia e afeta a vida de quem a consome. E elimine-se a visão estereotipada de uma pessoa alcoólica que temos na nossa mente; é possível ter um vício em álcool e, mesmo assim, ter um trabalho, pagar as contas, assumir responsabilidade, etc. Chama-se alcoolismo funcional. Da mesma forma que o vício no álcool não determina a vida de uma pessoa, também defendo que não é preciso ter o vício para repensarmos a nossa relação com o álcool. E é aqui que o Dry January entra: parar, repensar, avaliar e tomar uma decisão.
Quando paramos com qualquer hábito, sentimos o seu impacto. E quando decidimos parar de beber, mesmo que por um mês, podemos notar em várias coisas na nossa rotina: que vamos demasiadas vezes ao café, que usamos o álcool como um ritual de relaxamento, que o álcool está muito mais presente nas nossas vidas do que julgamos, entre muitas outras.
Uma das que mais me abriu os olhos foi o facto de, depois de uma saída, conseguir acordar sem dores de cabeça, com mais energia e sem sintomas de ressaca. E, mesmo sem as saídas, senti-me efetivamente com mais energia e com menos sintomas de ansiedade. Foi uma ótima oportunidade para repensar a minha relação com o álcool, mas também uma oportunidade para procurar soluções alternativas. Por exemplo, ao fim de um dia de trabalho, queremos um copo para relaxar. Porém, o seu conteúdo não é importante. Uma bebida sem álcool pode perfeitamente fazer parte desse ritual de relaxamento e é muito mais saudável!
Da mesma forma que, num contexto social, quase ninguém quer saber do que bebemos, do conteúdo do copo. O importante é estarmos presentes, independentemente do que estamos a ingerir. E, além disso, se formos seguros da nossa decisão de dizer “não quero”, torna tudo muito mais fácil. Por isso, defendo que devemos levar esta aprendizagem para o resto do ano. Devemos avaliar seriamente o impacto do álcool na nossa vida e decidir conforme aquilo que faz sentido para nós, quer seja parar de beber completamente, quer seja pelo menos ter mais consciência e intenção no nosso consumo. Qualquer que seja a decisão final, a nossa saúde e bem-estar agradecem!
[1] https://www.medicalnewstoday.com/articles/dry-january-1-month-no-alcohol-difference-health-study
[2] https://alcoholchange.org.uk/help-and-support/managing-your-drinking/dry-january/about-dry-january/the-dry-january-story













































































































