A quase vitória (segundo lugar) de Cotrim de Figueiredo nas últimas eleições presidenciais, por muito que nos custe a nós, liberais, é a prova cabal de que o maior erro que cometeu foi ter “abandonado” a IL numa altura definidora das alternativas ao regime vigente. Pelo seu carisma e pela sua dialética, tendo-se mantido na liderança da IL, teria sido um contrapeso à demagogia chegana, de forma que este partido não teria tido os êxitos eleitorais retumbantes das últimas duas eleições legislativas. Nem o André Ventura teria tido agora a hipótese que lhe foi dada pelo sufrágio universal nesta eleição para a Presidência da República.
Cotrim, mantendo-se líder da IL, poderia, na mesma, ter ido para Bruxelas. Quantos líderes de partidos pela Europa o fizeram e mantiveram-se na liderança? Teria certamente levado a IL ao patamar dos 30 deputados ou mais. Asseguraria, muito provavelmente, a governação em coligação com Luís Montenegro e o PSD na atual legislatura. E teria mantido o crescimento do CHEGA e o seu líder à distância de um sonho numa noite de verão. O País já estaria, dessa forma, a beneficiar de reformas liberais de que precisa como nunca, para poder sair deste marasmo em que os partidos do Centrão nos colocaram nos últimos 25 anos.
Desta forma, Cotrim, se não tivesse cometido os erros estratégicos que cometeu e tivesse continuado à frente do partido, teria vencido o escrutínio sobre o André Ventura e teria facilitado imenso a vida a todos os liberais e conservadores de direita em Portugal perante a escolha entre ele e um socialista confesso, António José Seguro.
Desta forma, Cotrim, se não tivesse cometido os erros estratégicos que cometeu e tivesse continuado à frente do partido, teria vencido o escrutínio sobre o André Ventura e teria facilitado imenso a vida a todos os liberais e conservadores de direita em Portugal perante a escolha entre ele e um socialista confesso, António José Seguro.
Pelo que a escolha para qualquer liberal é agora do arco-da-velha. Perante um socialista com pose de Estado, mas sem substância, e um animal político como o André Ventura, venha o diabo e escolha.
Mas, em democracia, os votos de uns são exatamente iguais aos votos de outros. Perante este dilema, como avançar? Este sistema que nos impuseram, longe de ser perfeito, é o que existe, e temos que nos cingir aos factos:
- Portugal, depois de Abril e de uma travessia fascista que nos deixou um legado de pobreza e miséria, analfabetismo e uma guerra impossível de ser justa, muito menos superável, deu uma esperança tal a todos que mobilizou o país num progresso que se fez sentir e se alcançou nos 30 anos que se lhe seguiram;
- Sobretudo depois da entrada na CEE, que nos deu estradas, escolas, universidades, hospitais, formação; e, infelizmente, o Estadão dos princípios socialistas e sociais-democratas, que defendem que o Estado tudo pode resolver;
- Com os comissários políticos à frente disto e daquilo, tudo é possível, em vez de termos seguido por uma deriva liberal de acreditar no indivíduo;
- Este indivíduo, mais do que ninguém, movido pelos seus interesses pessoais e pela sua vontade, é muito mais capaz de resolver os seus problemas do que estar à espera de que alguém os resolva por ele.
Infelizmente, os incentivos estão todos errados. Taxa-se até a morte quem produz. Procura-se resolver o problema de quem tem dificuldade em superar-se, entregando-lhe umas esmolas, escondidas como subsídios. Perpetua-se a vontade do indivíduo no pouco que lhe dão, em vez de estimular o muito que pode conseguir, com o seu engenho e arte.
Nos últimos 25 anos, na ânsia do Estado tudo querer resolver, assistimos à perpetuação da pobreza em Portugal, dois milhões encontram-se lá e não conseguem sair, outros dois milhões mal podem subsistir. Não fossem os muitos subsídios e esmolas que se distribuem a torto e a direito pelos socialistas e sociais-democratas. Comprando-lhes o voto e sufocando fiscalmente quem trabalha e produz. Impedindo quem cai no estertor da subsidiação de procurar outra alternativa, porque os incentivos das esmolas suplantam os rendimentos alcançáveis pelo trabalho. É esta a alternativa que se coloca nas eleições presidenciais que se adivinham entre Seguro e Ventura.
Por um lado, um socialista convicto, que acha que o sistema está bem e recomenda-se. Por outro, um radical, conservador, que, segundo todos os comentadores e propaladores da verdade, é racista, xenófobo, mentiroso e sei lá que outros nomes lhe vão inventar nas três semanas seguintes (e que certamente lhe trarão mais votos, pois o povo de estúpido não tem nada). Em quem votar? Em quem?
Em quem personifica o mais do mesmo: cerimonioso, redondo nas palavras; palavroso nas opiniões sobre nada; e, sobre tudo, com pose mas sem substância. Agradável e bom para a fotografia, para o corte das fitas e para o discurso habitual de ano novo, de que tudo está bem e o quartel se mantém em Abrantes.
Ou, em quem personifica uma revolução: um presidente da maioria dos portugueses, mas não de todos. Como deixou bem claro, todas as minorias terão de cumprir a lei, e quem não cumpre deverá pagar por isso (“quien las hace, las paga” de Javier Milei). Incluindo o ladrão de malas e o pedófilo confesso, que pulavam pelo partido CHEGA. Um presidente populista, cheio de vontade de combater a corrupção e de baixar os impostos, tudo ao mesmo tempo, num intrincar de políticas liberais e conservadoras radicais de direita, incluindo coisas intoleráveis de se debater atualmente, como castração química e pena de morte. Enfim, tudo e muito mais.
O dilema para um liberal é mesmo este: entre uma pessoa que nada irá fazer e tudo manterá; ou uma que tudo quer fazer e que em tudo quer mexer. De qualquer das formas, a nossa democracia não está em risco. Repito: a nossa democracia não está em risco!
Os pesos e contrapesos da nossa Constituição e da nossa República parecem-me ser suficientemente resilientes para resistir à eleição de um presidente radical com ânsia reformista, mesmo que venha da Direita Conservadora, dita Radical. Da mesma forma, se nas antípodas o António Filipe tivesse os votos para ser eleito Presidente da República Portuguesa.
Vamos com certeza ver o André Ventura Presidente, a ter de ir à Assembleia da República discursar no dia 25 de Abril e agradecer à República e à nossa Constituição pelo facto de ter sido eleito graças ao 25 de Abril, se for o caso. Da mesma forma que terá de receber Luís Montenegro às quintas-feiras no Palácio de Belém, se for o caso. Terá de velar pela passagem do orçamento em outubro e tudo o mais, se for o caso. E também terá de receber e apertar a mão ao Presidente de Angola, se for o caso.
Esperar que os socialistas caiam na tentação de tentar derrubar o governo para irmos para eleições e, aí sim, veremos um presidente a lutar para que o seu partido vença. Ou, pelo contrário, incentivar que o PSD faça uma coligação com o CHEGA para evitar irmos novamente para eleições. Pois o CHEGA sem o seu presidente pode dar-se muito mal e tudo irá ser posto em causa, se for o caso.
Ou, caso não vença, esperar na mesma que os socialistas façam cair o governo, na tentação de regressar ao poder. E, sendo André Ventura a ganhar as eleições, fazer na mesma a coligação com o PSD, já com Passos Coelho à frente, e obrigar António José Seguro a dar-lhe posse como Primeiro-Ministro, pois os liberais continuarão a não contar para nada.
De ambas as maneiras, André Ventura ganha, pelo que acho melhor que ganhe já as presidenciais e fique refém do papel que à Presidência cabe. Em vez de lhe darmos uma hipótese de vir a ser o partido mais votado de Portugal e termos um socialista a ter que dar posse a um primeiro-ministro oriundo da Direita Radical.
A pergunta final que nos cabe encarar é: com André Ventura afastado do CHEGA por inerência de funções, quais as hipóteses que o CHEGA tem de ganhar o que quer que seja? Talvez até por isso, muitos cheganos encaram a hipótese de votar em Seguro para não perderem o seu amado líder.
Quanto aos Liberais, incluindo os que votaram em Cotrim de Figueiredo, a melhor maneira de encarar a sua sobrevivência (com o regresso do Cotrim à liderança) será mesmo irem votar em massa no Radical de Direita, afastando o líder carismático dos cheganos para a Presidência da República. Dessa forma, poderão encarar com esperança redobrada as próximas eleições legislativas que se avizinham para breve.








































































































