Não é raridade alguma a instrumentalização de conceitos para, ora vilanizar, ora legitimar agentes políticos. Não deixa, contudo, de ser curioso que, se antes “populista” era um adjetivo que visava apodar adversários ideológicos de um signo de perigo, nos últimos dias tem servido o propósito contrário. Nas redes sociais e no comentário tradicional, é sobejamente recorrente a descrição de Ventura como “só um populista”, geralmente para o distanciar de vias fascizantes ou autoritárias. Ora, se parte desse comentariado se identifica com o liberalismo ou, pelo menos, com as democracias liberais, será que as palavras “só” e “populista” devem integrar a mesma frase?
O populismo do CHEGA e do seu líder é, praticamente, objeto consensual no debate académico. Considere-se a obra de Marchi (2020)1 ou a de Zúquete (2022)2, e a conclusão é a mesma: sendo o populismo um conjunto de ideias cujo núcleo se desenvolve a partir da noção de uma disputa moral entre o povo puro e virtuoso e as elites corruptas e corruptoras (Mudde, 2017)3, André Ventura é, certamente, um populista. E, ultimamente, a forma como veicula o ideário é quase caricatural, evidenciando-se em declarações cristalinas como: “Não estão a votar por Seguro, estão a votar contra mim. É sobre cancelarem-me e cancelarem o projeto de mudança e de rutura com o sistema. É uma luta de elites contra o povo. São os amigos do sistema a defender o sistema.”4
Porém, uma dimensão ideacional do populismo, que frequentemente é deixada de parte na análise política de bolso, diz respeito à forma como estes atores interpretam a representação. O líder que se coloca do lado do povo nesta luta cósmica (Hawkins, 2009)5 contra as elites apresenta-se como único representante legítimo da vontade geral (Mudde, 2004)6. Essa leitura circunscrita do modelo de seleção de representantes ameaça um dos eixos essenciais das democracias liberais: o pluralismo (Muller, 2017)7. Se só André Ventura percebe e é capaz de colocar em prática a voz do povo – ainda que mesmo este ente não a conheça –, o que se pode dizer de quem o vence numas eleições? Podemos intuir que o seu mandato carece, por definição, de validade. Compreendo que isto se afigura mera verborreia e retórica para o leitor, mas advirto que já produziu consequências sérias. Repare-se que tanto Jair Bolsonaro quanto Donald Trump puseram em causa resultados eleitorais não favoráveis e desencadearam movimentos de assalto a órgãos de soberania nos seus respetivos países.
De resto, está mais do que reiterado o desprezo destas figuras pela separação de poderes e, particularmente, pela independência judicial. A “ditadura do Supremo Tribunal Federal” é um espantalho comummente agitado pelo bolsonarismo. Por isso, entre Seguro e alguém proveniente de uma família política que antagoniza pilares básicos do liberalismo político, não me parece que a escolha deva ser difícil para um liberal. Sendo eu um marxista que pretende superar a democracia liberal e o capitalismo, nem deveria assumir a função de elucidar os defensores da atual arquitetura institucional. Mas, infelizmente, há quem se desloque ao sabor do vento, ou melhor, da janela de Overton. A trasladação dos horizontes coletivos cobriu distâncias tais que, para alguns, António José Seguro configura apenas outro lado de um extremo que, nesta infame segunda volta, opõe a esquerda à direita. Bem me disseram que estes ‘quadros teóricos’ que só reciclam a mesma tese da ferradura nos iam relegar a todos à “chalupice” instruída. De falsa equivalência em falsa equivalência, tivesse passado Cotrim de Figueiredo e os ‘media alternativos’ ainda lhe chamariam woke.
Referências
- Marchi, R. (2020). A Nova Direita Anti-Sistema: O caso do Chega. Edições 70. ↩︎
- Zúquete, J. P. (2022). Populismo: lá fora e cá dentro. Fundação Francisco Manuel dos Santos. ↩︎
- Mudde, C. (2017). Populism: An Ideational Approach, in Cristóbal Rovira Kaltwasser, and others (eds), The Oxford Handbook of Populism. Oxford University Press. ↩︎
- Cruz, H. (2025, Janeiro 27). Seguro quer unir os portugueses, Ventura vencer as elites. Jornal de Notícias https://www.jn.pt/nacional/artigo/seguro-quer-unir-os-portugueses-ventura-vencer-as-elites/18045350 ↩︎
- Hawkins, K. A. (2009). Is Chávez Populist?: Measuring Populist Discourse in Comparative Perspective. Comparative Political Studies, 42(8), 1040-1067. https://doi.org/10.1177/001041400933 ↩︎
- Mudde, C. (2004). The Populist Zeitgeist. Government & Opposition, 39(4), 541-563. https://doi.org/10.1111/j.1477-7053.2004.00135.x ↩︎
- Muller, J.-W. (2017). O que é o Populismo? Texto Editores. ↩︎













































































































