A palavra “ lar” vem do latim lar ou lares. Os Lares eram divindades romanas, Deuses domésticos protetores da casa, da família, e do fogo aceso. Cada casa romana tinha um pequeno altar dedicado a essas entidades. Guardavam o espaço, mas sobretudo guardavam as pessoas. O lar representava o vínculo. Desde aí, a palavra ficou no léxico. Mas nunca perdeu o significado essencial: lar é o lugar onde se pertence. Hoje em dia, a realidade que se observa é bem diferente … assustadora até!
Um lar deveria ser a casa de alguém. A casa tem cheiro, tem voz; é feita de escolhas e, principalmente, de dignidade. O problema é que demasiadas instituições estão perigosamente mais perto de ser armazéns.
Envelhecer não é falhar, não é perder utilidade, não é ocupar espaço à espera do fim. Nem significa tornar-se um fardo para os familiares próximos. Mas a sociedade trata a velhice como um carro velho que já não passa na inspeção; encosta-se, tapa-se, evita-se, e despacha-se para o ferro velho. Quando uma pessoa entra num lar não deixa a sua história à porta. Não pendura a identidade num cabide. Não entrega a autonomia em troca de uma cama limpa e refeições. Pelo menos, não deveria ser assim. Na prática, no entanto, é muitas vezes isto que acontece. Horários rígidos, rotinas impostas, banhos agendados, decisões tomadas sem perguntar… Como se envelhecer fosse sinónimo de incapacidade absoluta. Como se todos os idosos fossem iguais. Há regras que são impostas a todos depois de se assinar um contrato… um contrato que ditará o fim da autonomia e o início da despersonalização.
Quando um idoso entra para um lar, decide que a sua vida terminou por ali, pois muitos vão com o único objetivo de esperar a morte. É o fim da linha, a última morada. Isto não poderia estar mais errado. Este estigma é alimentado desde cedo, porque a sociedade trata o lar como uma prateleira onde se depositam velhos, e não como uma casa onde podem continuar a viver com o devido apoio e acompanhamento que as suas fragilidades assim exigem. Há quem diga que não há condições, seja por falta de pessoal, falta de dinheiro, falta de tempo…Tudo verdade. Mas nada disso justifica a perda de dignidade. A dignidade não custa dinheiro. Um lar pode ter poucos recursos e ainda assim ser humano; pode ter instalações de luxo e ser miserável e degradante.
Quando digo que o lar não é um depósito de velhos, falo de direitos humanos básicos: o direito à individualidade, direito à privacidade, direito à participação nas decisões que afetam a própria vida, direito a escolher o que vestir, o que comer e a que horas dormir. Pequenas coisas que, afinal, se tornam gigantes. Um lar deve ser um lugar de continuação de vida e não de suspensão. Não é uma sala de espera para a morte, é um espaço onde se vive com apoio. Onde se adapta o cuidado à pessoa e não a pessoa ao cuidado… onde se respeita o ritmo de cada um. Os profissionais que trabalham em lares sabem disto. Muitos fazem milagres diários com pouco. Outros estão exaustos. E isto também é um problema estrutural: cuidar de quem cuida é parte da solução. Um sistema que esmaga profissionais acaba inevitavelmente por esmagar residentes. É um efeito dominó. Cai um, caem todos.
A família também tem responsabilidade. Colocar alguém num lar não é, por si só, abandono. Às vezes é a única solução possível. O abandono começa depois. Começa quando as visitas desaparecem, quando o telefone deixa de tocar ou quando a presença vira culpa evitada. Uma Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI) não substitui vínculos. Não apaga histórias partilhadas nem ocupa o lugar do afeto. Isso não se institucionaliza. Quando a família se afasta o idoso sente. Mesmo quando já não fala. Mesmo quando já não reconhece rostos. O corpo lembra-se e a ausência é o que mais dói.
Dizer que um lar não é um depósito de velhos é recusar a normalização da negligência. É exigir modelos de cuidado centrados na pessoa. É lembrar que envelhecer com dignidade não é um privilégio, é um direito! E direitos não se negociam. No fim das contas, cuidar dos outros é ensaiar o futuro que queremos para nós… e ninguém sonha com ser deixado num depósito.
Eu sonho com um casa. E um lar deve ser isso. Uma casa onde ainda se vive, não um sítio onde se espera. É altura de as instituições começarem a rever as suas políticas e de as que se erguem prezarem pela diferença. Ser idoso é, ainda, pertencer à vida. Um idoso pode sair, pode conhecer, experimentar, rir, e criar novas memórias. Envelhecimento ativo é isto. É mostrar que a idade não nos rouba valor e que estar numa instituição não apaga a identidade. O idoso não está fora da sociedade, nós é que às vezes o deixamos de ver e isso tem que mudar.












































































































