“Coisas impossíveis, é melhor esquecê-las do que desejá-las”

“Não quero que, ao lerem o que escrevo, saibam o princípio, meio e fim. Não quero ser rima fácil, não quero ser como um carro numa rotunda, sem saber qual saída seguir.”

Tempo de leitura: 5 minutos

Não me quero tornar repetitivo nem recorrer a clichês. Não quero que, ao lerem o que escrevo, saibam o princípio, meio e fim. Não quero ser rima fácil, não quero ser como um carro numa rotunda, sem saber qual saída seguir. Não quero dar voltas nem mais voltas. Mas. Mas e mas…

Sinto certo conforto e desconforto com a palavra “mas”, mas embora o primeiro parágrafo recorra insistentemente ao paralelismo anafórico (“Não quero”), o meu texto é mesmo sobre o poder desta conjunção. A palavra tem possibilidade finita, reservada a apenas duas possibilidades: a dualidade do “mas” é a dualidade do “eu”.  Possibilidades que são, na verdade, oposições ou contrastes, tal como manda a regra, ou não estivéssemos nós a referirmo-nos a uma conjunção coordenativa adversativa — obrigado, cara professora de português (mãe).

Vejamos, se eu escrever “Este ano tivemos muitos concertos, mas…” ou então escrever “Este ano tivemos poucos concertos, mas…”, o que diz a vossa intuição em relação ao que vem a seguir do “mas”? Assim, “tivemos muitos concertos” significa que o ano correu bem e que a conjunção coordenativa adversativa introduz uma adversidade — algo desfavorável —, ou porque há coisas que podem não ter corrido tão bem ou então porque sugere que no próximo ano haverá menos. As possibilidades aqui são infinitas, não vou estar a explorar muito mais, deixo ao vosso critério. Contudo, o “mas” na segunda frase, esse segundo “mas” a que tanto me agarro, introduz uma ideia de contraste positiva. Sim, este ano tivemos poucos concertos, e, sim, essa é a verdade que me inquieta a mente. Essa e outras que também me atormentam, mas que decido guardar para mim. Este ano tivemos poucos concertos, mas para o ano podemos ter muitos mais.

Não se confundam com as minhas palavras. Para isso já basto eu! Quando me refiro à quantidade de concertos, não me refiro à qualidade. E quando me refiro à qualidade, não me refiro ao número de pessoas, cachê, catering, nada disso. Refiro-me, unicamente, àquilo que o concerto nos fez sentir, às memórias que em mim enraizaram, e à vontade que continua a crescer e que não tem pressa de parar.

Dou por mim a escrever e a pensar que, há um ano, estava a escrever sobre o final de 2024, sobre o Spotify Wrapped, sobre nós, robôs sociais, vaidosos por mostrar o nosso número de minutos ouvidos, artistas descobertos, conquistas ganhas. Apenas deixo um dos meus dados relativos ao meu resumo anual. O Spotify atribuiu-me uma idade musical de 80 anos, o que me deixou deveras realizado com este meu feito. Não só já estou careca, como afinal também tenho 80 anos. Mas, ora aí está o nosso amigo “mas”, este ano não vou ser mais clichê do que já acabei de ser nas últimas linhas, ou seja, este “mas” revela que vou trazer algo de novo ou pelo menos tentar.

“Coisas impossíveis, é melhor esquecê-las do que desejá-las.” Hoje trago Luís de Camões. Chegou-me aos ouvidos que não existe melhor poeta para falar de amor do que Camões. E se amor é o que sinto por ti, coisa impossível que “tanto me atormentas e inquietas”, que tanta força fazes para me afastar, então é com Camões que vou falar.

Mas coisas impossíveis existem, sim. Contudo, em tempos disseram-me que sou persistente. E, se persistência é o que tenho para dar, então certo que vou continuar. Porque esquecer é tema não, impossível tema também não é, resta-me apenas o desejo de te querer para continuar a viver. Mas será este tamanho desejo desmedido? Serei eu comandado por ele? E o que poderão trazer tamanha fome e procura? Talvez as palavras de Camões sejam palavras regadas de sofrimento, cuidadas e criadas para o fazer sarar. Palavras inundadas de desejo, que o afastaram do racional, mas que, de outra forma, não o deixariam escrever tais palavras como estas. Pelo menos esta é a minha interpretação, sendo verdade ou não.

“Ah o amor… que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei porquê.” Clichê ou não, não fui eu que te escolhi, foste tu a mim. Tu ou os meus pais que me guiaram para o conservatório. Mas talvez tenhas sido tu a guiar os meus pais, quero acreditar que sim. Terá o meu amor por ti, música, nascido através dos meus pais e depois regado e cuidado por mim? Podiam ter dito que doía, que o próprio amor é um grande “mas”, nada fácil, nada simples, nada certo e todo ele contraditório e com uma vida dupla tal como implica a dualidade do “mas”.

Amor…

É um estar-se preso por vontade,
É servir a quem vence o vencedor,
É um ter com quer nos mata lealdade.

Mas como causar pode o seu favor,
Nos mortais corações conformidade,
Sendo a si tão contrário o mesmo amor?

Mais um ano passou e tudo continua igual, eu continuo eu, tu continuas tu. Nada está decidido e talvez não seja ainda amanhã que te poderei ter. Toda tu, diariamente, pontualmente, rotineiramente tu. Mas coisas impossíveis não existem, o melhor é mesmo continuar a querê-las e a desejá-las.

E eu. E tu. Não passamos de um grande “mas” cuja adversidade ansiamos profundamente descobrir.

“Sou beijo por dar

Abraço por apertar

Livro por escrever

História por viver

Sou frio da noite escura

Em busca de tortura

De ter MAS não ter

De ver e perder

Mão entrelaçada

Uma vida condenada

Sou eu e tu

Parados na estrada”

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Ricardo Neto, 26 anos. Natural de Amiais de Baixo, Santarém, reside atualmente em Aveiro, sendo o vocalista dos Maria Café, uma banda da região. Lançou também o seu primeiro projeto a solo “Conforto Desconfortável”.

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