João Cotrim de Figueiredo: Liberal até dizer Chega

Tempo de leitura: 7 minutos

João Fernando Cotrim de Figueiredo tem sido um dos nomes mais apontados à passagem à segunda volta das eleições presidenciais de 2026. Mas afinal de quem falamos e como tem crescido este nome da política portuguesa?

Nascido em Lisboa em 1961. Estudou, até concluir o ensino secundário, na Deutsche Schule Lissabon, um colégio limitado às classes altas portuguesas, capazes de pagar uma propina de mais de 8 mil euros anuais1, ingressando posteriormente na London School of Economics, no Reino Unido, onde conclui a licenciatura em Economia, terminando os seus estudos num programa de Master of Business Administration conjunto da NOVA SBE e da Wharton School (Pensilvânia)2, apresentando assim um grau invejável e até inalcançável para uma família dita, pelo próprio, de classe média no período do Estado Novo. Não querendo questionar a avaliação da posição económica da família de Cotrim, até porque isso pouco importa num candidato presidencial – exceto quando este a usa para se tentar provar um português “comum” bem-sucedido de forma meritosa. Centrar-me-ei numa análise e numa avaliação política do carácter e da campanha do candidato apoiado pela IL. Falarei apenas da campanha de Cotrim, porque parece-me um fenómeno algo engraçado, tendo em conta as incoerências e a base de apoio, e uma caricatura real do futuro da política portuguesa, que nos pode ajudar a perceber alguns sinais de alerta deste tipo de “defensores da liberdade”.

O ex-dirigente da Iniciativa Liberal, de 64 anos, é mais velho que jovem e, ainda assim, cativa mais jovens do que velhos com uma nova estratégia de marketing digital que apela a um eleitorado cronicamente online, apoiando-se no mesmo algoritmo que elevou seres iluminados como Trump e Ventura e outros, não tão iluminados, mas igualmente apelativos, como Andrew Tate ou a versão portuguesa deste, Numeiro. Seguindo esta nova catapulta política digital, a candidatura de Cotrim tem vindo, simultaneamente, a realçar a aparência física do candidato, tendo sido visto de calções a dar toques numa bola, a fazer flexões, a dar socos de forma agressiva, faltando apenas alguns agachamentos ou abdominais. Afinal que tipo de qualidades são precisas para se ser Presidente da República? Vital Moreira, no seu livro “Que Presidente da República para Portugal?”, parece ter cometido um grave erro ao ter deixado de parte a importância da aptidão física dos candidatos. Ainda assim deixo uma pergunta algo retórica, mas de fácil resposta com uma análise rápida a certos comentários online, Que tipo de reação teríamos se a Catarina Martins instrumentalizasse o seu corpo para objetivos eleitorais?

João Cotrim de Figueiredo faz parte daquela perturbante classe política portuguesa sem espinha dorsal e sem qualquer tipo de escrúpulo na condução do jogo político, acusando os outros de incoerência enquanto diz e faz o que lhe convém no momento que lhe parece mais oportuno. Há 3 semanas, no debate televisivo frente a André Ventura, caracterizava o candidato apoiado pelo Chega de forma assertiva e correta, como o “pior que o sistema já produziu” e como alguém “sem perfil para ser Presidente da República”3, esta segunda-feira, não exclui apoiar a sua candidatura, nem a de qualquer outro candidato, numa eventual passagem à segunda volta. Esta afirmação analisada isoladamente não parece ter nada de errado, mas olhando para a campanha de Cotrim podemos ver vários momentos em que o respeito e a valorização pelos momentos e personagens da luta antifascista foram deixados de parte por motivos ideológicos. Entre Álvaro Cunhal e Salazar, Cotrim mostrou, num podcast, não conseguir escolher4, entre o 25 de Dezembro e o 25 de Abril opta pelo purismo religioso face ao momento mais importante para a democracia do Estado Português5. Alguém que não exclui apoiar o “pior que o sistema já produziu”, que em perguntas de resposta rápida não consegue escolher entre um ditador e um antifascista e que coloca uma celebração religiosa à frente da revolução que foi o garante da liberdade nacional merece ocupar o lugar mais alto da Nação? Simultaneamente, esta súbita aceitação de André Ventura e a sua caracterização, pelo próprio Cotrim, como “mais moderado” e “um político diferente”6 revela ainda mais a sua incoerência política.

Um candidato que fala da autonomia estratégica da Europa, chegando até a almoçar com o embaixador dinamarquês em Portugal como símbolo da defesa da integridade territorial europeia, não descarta um possível apoio a um candidato que venera a ideologia de Donald Trump, enquanto aceita o apoio de um Partido incapaz de condenar a agressão e a violação da integridade territorial de outro Estado, e integra orgulhosamente na sua lista de apoiantes personalidades com ligações à partilha e banalização da misoginia, da violência e da intolerância. Por outro lado, não deixa de ser interessante um candidato a Presidente da República, cargo que tem como principal função o respeito, a defesa e o garante da Constituição, defender avidamente uma revisão constitucional num dos momentos políticos mais instáveis da nossa democracia7.

Para além do seu regozijo com a possibilidade de esta alteração constitucional ser feita sem a voz de todos os partidos, contrariamente ao que sempre foi feito em período democrático. A ideia de um liberal na segunda volta pode parecer magnífica para alguns portugueses. Para mim, tendo a plena noção de que esta seria disputada com André Ventura – sendo que este é o único que tem um eleitorado fixo capaz de tal proeza – parece-me o início de um pesadelo para o constitucionalismo português. Não estamos a falar de um simples liberal, estamos a falar de um neocapitalista, que, de copo de gin na mão e com uma leveza e simplicidade de quem nunca saiu da sua bolha de elitismo, insiste em atacar o Estado Social construído após o 25 de Abril, o princípio da igualdade consagrado no artigo 13.o da Constituição e o acesso universal à saúde e à educação. E a cereja no topo do bolo é colocada por grande parte da juventude social-democrata que, traindo Sá Carneiro, Freitas do Amaral, e os ideias sociais-democratas de intervenção estatal na saúde, na educação e na segurança social para a mitigação das desigualdades e para o garante do bem-estar social, apoiam uma candidatura nitidamente elitista e anti-social-democrata.

O liberalismo defendido por Cotrim pode parecer um sinónimo de liberdade e democracia, mas deparando-se com uma crise, seja ela social ou económica ou com um confronto entre o povo e as elites, optará sempre pela limitação e usurpação de liberdades, privilegiando os altos setores sociais em vez de aprofundar os mecanismos democráticos que forjem soluções para a construção da liberdade. E quem o diz não sou eu, mas a História. Os mesmos neoliberais que, no final do século XIX e no início do século XX, se uniram em torno do ideário fascista para conter as greves, as manifestações e as revoltas sociais, fazendo crescer o apreço das classes médias pela centralização personificada do poder, são os que hoje não descartam o apoio a protofascistas.

Referências

  1. https://dslissabon.com/servicos-de-apoio/propinas/?lang=pt-pt ↩︎
  2. https://www.publico.pt/2019/10/06/politica/perfil/joao-cotrim-figueiredo-mundo-empresarial-iniciativa-liberal-1889053 ↩︎
  3. https://sicnoticias.pt/especiais/eleicoes-presidenciais/2025-12-19-video-andre-ventura-vs.-joao-cotrim-figueiredo-o-debate-na-integra-c222e955 ↩︎
  4. https://www.rtp.pt/play/p260/e900343/prova-oral#:~:text=Prova%20Oral%20de%2005%20jan%202026%20%2D%20RTP%20Play. ↩︎
  5. https://www.instagram.com/reel/DTD1mPzDCbi/?igsh=cDNzaTN6MHo2aXNi ↩︎
  6. https://www.rtp.pt/noticias/politica/cotrim-admite-votar-em-ventura-na-segunda-volta_v1709592 ↩︎
  7. https://www.rtp.pt/noticias/pais/cotrim-defende-atualizacao-da-constituicao-e-antonio-filipe-opoe-se_n1692301 ↩︎

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Simão Cera, natural de Cantanhede, nasceu a 18 de fevereiro de 2006. Está atualmente a estudar Ciência Política e Relações Internacionais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa.

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