Conflito pela coerência

“É fácil entrar num ciclo em que o grupo se autoprotege de ideias contrárias, mas é precisamente na informação e na leitura realista das situações que surgem as decisões e opiniões informadas – não por uma manutenção excessiva do que eu penso, nem do que o meu grupo pensa. Será que estamos com medo de discordar? Ou de mostrar que não entendemos?”

Tempo de leitura: 4 minutos

Há quem diga que o conhecimento só acontece num espaço de dúvida. Que é preciso haver algum tipo de atrito ou desconhecimento sobre algo e uma necessidade de aprender. O que nos move acaba por ser não só a nossa curiosidade, mas também a oportunidade. Esta combinação de fatores, para iniciar e resultar num processo de aprendizagem, requer esforço. Exige de nós tempo, atenção e outros recursos cognitivos que nem sempre temos disponíveis.

De forma a tornar o mundo mais simples, acabamos por cair no hábito de simplificar e procurar evitar este contexto de atrito com o que já temos consolidado em nós. Por vezes, para além de fugir da fricção, procuramos filtrar a informação como nos é mais vantajosa ou encontramos justificações, causas, alinhamentos astrológicos, para moldar a nossa perceção da realidade ao que nós sabemos como facto. Procuramos a coerência interna para evitar sentimentos negativos e, muitas vezes, entramos em dissonância cognitiva através destes mecanismos1.

Se pensarmos um pouco nos momentos que vivemos – inundados com fake news, informação contraditória, avalanches de textos, notícias, opiniões, discursos –, já é difícil discernir e sumarizar tudo o que é importante, ainda lidar com este atrito constante e fazer com que dele saiam novas ideias ou aprofundamento das que já temos? Vamos com calma!

Somos feitos para não viver em constante sobressalto, mas a realidade é que estamos constantemente a precisar de prestar atenção e filtrar tudo o que nos chega. O caminho mais natural a isto é simplificar, contextualizar, desculpar aquilo que não cabe nos nossos moldes e, mais ainda, quando as pessoas que nos são queridas vão caminhando numa direção específica ou quando o nosso algoritmo nos prende na nossa própria bolha.

Devemos, por isso, relativizar a reprodução de discursos populistas e, na grande maioria das vezes, falsos e maliciosos? Completamente em desacordo. Devemos vestir sempre a camisola da pessoa que explica tudo ao detalhe e recebe com compreensão a postura do outro? Tão-pouco.

O equilíbrio é necessário. É cansativo lidar com esta análise constante e com o constante debate. No entanto, não devemos desistir dele. Realçar esta dissonância cognitiva é dos poucos caminhos para que a pessoa que a apresenta possa desmontá-la.

Nada nos obriga a ensinar o outro (e, apesar de achar que a educação é algo horizontal, não quer dizer que os nossos pensamentos sejam, intrinsecamente, melhores que os da pessoa que achamos estar neste processo), mas também desistir da conversa e não reforçar este choque com a realidade fomenta estas crenças e permite que estas ideias cresçam em terreno fértil.

É importante também reconhecer que ideias dissidentes não são, por si só, uma dissonância cognitiva. É fácil entrar num ciclo em que o grupo se autoprotege de ideias contrárias, mas é precisamente na informação e na leitura realista das situações que surgem as decisões e opiniões informadas – não por uma manutenção excessiva do que eu penso, nem do que o meu grupo pensa. Será que estamos com medo de discordar? Ou de mostrar que não entendemos?

Este texto não é uma diretiva. É um recordar ou reforçar que é importante respeitarmos os nossos limites enquanto pessoas e os nossos recursos internos para aprender e, no geral, navegar o mundo, mas também que vale a pena não desistir de trabalhar em conjunto em prol de uma visão do mundo mais real e ampla – por muito que nos seja inconveniente.


Referência

  1. Neto, Psicologia Social, vol. 1. ↩︎

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Mestre em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Apaixonada por Políticas Públicas e práticas inclusivas e de proximidade. Nos tempos livres dedica a sua atenção à música e escrita.

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