Como saber se estou do lado do Bem ou do lado do Mal?
Acredito que, no mundo, grande parte das pessoas acredita que, aquilo que pensa, aquilo que faz e toda a sua ação na vida, estão do lado do Bem. Mesmo aquelas pessoas que até ponderam “eu sei que fiz uma coisa má, mas foi porque…”, acreditam que uma “coisa má” pode ser justificada (no sentido de Justiça, ainda que não seja esse o tema deste ensaio), porque foi feita em nome de uma reposição daquilo que considera que deveria ter sido o Bem.
No entanto, muitos de nós, no dia a dia, falamos do Bem e do Mal, como do Correto e do Errado. Acreditamos que estamos no lado correto da história e, cada vez mais, queremos menos saber o que tem “o outro lado” a dizer. Na verdade, estou errado no que estou a dizer porque, se assim fosse, não havia cada vez mais pessoas a policiar os discursos. Por isso mesmo, há cada vez mais atenção ao que o Outro diz, para verificar se é preciso “intervir”, em nome do Bem. Daquilo que consideramos que é o Bem, o correto a fazer.
Nem sempre foi assim. Para existir uma bolha do Bem, por contraste, existe a do Mal. São inúmeras as situações que nos separam, de forma binária, à luz do julgamento moral. Ainda assim, existe, claramente, um caminho cinzento. Caminho esse que tem cada vez menos atletas a percorrê-lo.
A questão torna-se mais complexa, quando se percebe que, para eu saber que estou do lado do Bem e não do lado do Mal, eu preciso de ouvir o que o Outro tem a dizer, preciso de conhecer o Outro, analisar (não a forma, mas o conteúdo) e perceber se aquilo que o Outro disse, me faz sentido, ou não. Em termos práticos, poderei, a partir dessa minha análise, catalogar aquilo que o Outro disse, com uma ideia do Bem ou do Mal.
Ainda assim, toda esta avaliação, julgamento, será feita única e exclusivamente à luz da comparação com os meus próprios valores morais. Ninguém age em nome de um valor moral supremo.
Se o meu objetivo, for única e exclusivamente, fazer um julgamento sobre o que o Outro disse, para reforçar como eu estou certo (do lado do Bem), será muito difícil eu ter feito uma análise suficientemente ponderada, visto que o meu único objetivo é validar as minhas certezas, evitando a insegurança de reconhecer semelhanças que fragilizem essas mesmas certezas.
Afinal de contas, eu quero ser único e especial. Diferente do Outro. Neste sentido, há alguns pormenores que me podem estar a escapar. Será que, naquilo que o outro disse, tudo é falso? Tudo pertence ao Mal? (para efeitos práticos, coloco Falso e Mal, como pertencentes ao mesmo “saco”, embora saiba que estou a cometer um erro “grave” ao nível conceptual). Não haverá nada, no discurso do Outro, que até possa ter sido maioritariamente “bem-visto”, pontos que eu reconheça como “do Bem”, certos, mais do que aqueles que eu considero errados? Caso assim seja, porque estou eu a preferir focar-me no Errado, do que o Outro disse?
Acredito que, neste enquadramento, há uma necessidade de oposição radical, visto que, por algum motivo, o Outro até pode ter ideias muito parecidas com as minhas ou, pelo menos, algumas ideias parecidas com as minhas, no entanto, como tem “ali” algumas que considero erradas, é nisso que me quero focar. Ele é ideologicamente “parecido” comigo, mas eu prefiro uma postura de oposição, apenas devido a pequenas nuances.
Acreditar em viver do lado do Bem, menosprezando as ideias do Outro, é muito complicado, visto que, eu só posso saber que estou de um lado, se conhecer o outro. Se nada mais houver além da posição em que estou, como vou conseguir fazer um julgamento moral, se não há mais nada com o que eu possa comparar a minha ideia? Qualquer julgamento moral pressupõe contraste.
É através deste contraste que, eventualmente, posso perceber que há mais pontes com o Outro, do que afastamento. Agora, caberá a mim escolher, se prefiro ver o outro como “inimigo ideológico” (é assim que o nosso cérebro primitivo vê as coisas) ou se, mesmo sabendo que não concordo com tudo, consigo perceber que podemos coabitar. No entanto, posso, de forma legítima, escolher o caminho de ver o Outro como oposto radical. Quanto mais alguém se convence que está do “lado certo”, mais risco corre de se tornar cego às próprias sombras.
Reconhecer que o outro não apaga a tua ideia, só a contrasta, parece-me um caminho interessante, para percebermos que várias ideias podem coabitar. No fundo, precisamos, desde cedo, na nossa vida, do contraste, para nos irmos ancorando em ideias e valores. Primeiramente, absorvendo o que nos é dado e, posteriormente, fazendo uma batalha interior entre o que vai embora, o que “depois se vê”, o que fica inequivocamente e, posteriormente, o que criamos para nós mesmos.













































































































