Como trabalhadora em Portugal, cedo entendi as dificuldades em viver neste país, que tem tanto de bonito como de financeiramente sufocante – tão sufocante, que ainda recebo cartas das finanças para pagar sabe Deus o quê.
Trabalhei a recibos verdes, em alguns casos por opção própria (uma ilusão de liberdade), mas mais tarde paguei o preço. Nessa altura, percebi porque muitos fisioterapeutas trabalham a domicílios sem declarar: às vezes é a única forma de pagar impostos, e ainda conseguir viver. Tudo isto deixa-me estupefacta: um curso superior e múltiplas formações, para isto?
A minha realidade sempre foi de múltiplos trabalhos e, para trabalhar na área que gostava, tinha de trabalhar nas áreas que não gostava. O trabalho durante o dia deixava-me demasiado cansada para conseguir raciocinar, quando o que realmente me dava gosto era ser Fisioterapeuta na área desportiva, no período pós-laboral. A este cansaço, aliava-se a falta de autonomia, injusta para fisioterapeutas e utentes, porque muitas vezes temos de obedecer a prescrições completamente antiquadas por alguém hierarquicamente superior, sendo que nós somos muito mais capacitados para a prescrição. Portugal faz parte dos países que descredibiliza os profissionais de saúde não-médicos; aliás, desvaloriza todas as classes por igual, e a maioria das especialidades/áreas não têm um salário digno.
Com o tempo, consegui melhorar o meu horário, tornar-me mais produtiva, mas uma grande questão sempre pairou na minha cabeça: O que este país, e esta profissão, me estão a dar, enquanto ser humano? E a partir daí, pensei nas portas que poderia abrir. A ideia de hospedeira de bordo foi aparecendo aos poucos na minha vida. Tendo em conta que o meu grande objetivo de vida é viver do que escrevo, talvez fosse uma forma de adquirir experiências, que de outra forma não conseguiria, e então comecei a tentar. Ter tido experiência profissional fora da fisioterapia fez com que eu percebesse que uma mudança talvez me fosse fazer bem, e que há um mundo de possibilidades no mercado de trabalho.
A decisão de sair do país só teve impacto a uns dias de o deixar. De repente, comecei a ver Portugal com um olhar saudoso, como uma antecipação do que aí vinha. É nestes momentos que temos de ter coragem para continuar a fazer as malas, mas olhar bem para a nossa família e saber a sorte que temos.
Dois meses não são suficientes para o meu subconsciente entender que saí do país, mas consigo detetar algumas coisas. Portugal tem algo que outros lugares não têm, chamemos-lhe uma “alma” só dele. Consegue-se sentir alguma coisa noutros países europeus, mas não há nada igual à felicidade de ver Lisboa de cima, sabendo que vamos aterrar. Portugal é uma mina de ouro de cultura, paz, sol acolhedor, boa comida e natureza. No entanto, há muito no país que nos faz olhar para fora, o que não considero totalmente mau, porque de facto o país não nos vai dar tudo. O que nos dá, certamente, é a vontade de voltar.













































































































