Sempre se falou de uma crise de valores humanos, talvez porque a consolidação e aplicação dos mesmos, nas diferentes gerações e dinâmicas humanas, nunca tenha correspondido em lisura ao idealizado, ou talvez porque o que são crenças morais prioritárias para alguns não o sejam para outros. Na vivência contemporânea, onde, perplexamente, estão invertidos os valores mais dignificantes perante as escolhas mais primitivas, gostaria de evocar um valor em falência ou descrédito: a exigência.
Ao longo da minha educação, ouvi algumas vezes: “se fores muito exigente, ninguém te vai querer ou dificilmente vão poder corresponder-te”. Só em adulta é que percebi, que o critério de exigência e da verdade, connosco e com outros, é bem mais profético que o seu contrário. Difícil, mas necessário.
A palavra exigência traz, na sua origem, uma ação eficaz: o de trazer para fora, movimentar, guiar. Conota-se com o cumprir algo com rigor. Entre nós, culturalmente, nas famílias, nas escolas e comunidades educativas, o valor da exigência está amortecido e relativizado, designadamente o de aprofundar o conhecimento, a fruição cultural e o de aumentar a consciencialização cívica e política. Com vidas e existências todas tão desafiadoras, como não ser mais exigente nas escolas, na educação familiar, para melhor preparar possíveis ações e respostas a problemas presentes e futuros?
Há vários anos noto que as escolas estão a condescender perigosamente, sendo demasiado benevolentes, não só nas avaliações, aquisição de conhecimentos e competências, como na forma leviana com que abordam os comportamentos indisciplinados, desrespeitosos e violentos. Não se trata de exigir dos jovens o que ultrapassa os seus limites de entendimento ou estágios de desenvolvimento, mas, mediante uma avaliação de cada um, exigir mais, tendo em conta onde cada um pode chegar.
Quem trabalha nas escolas portuguesas sabe que as avaliações nas disciplinas são inflacionadas, de modo a corresponder a expectativas internas e externas, designadamente nas classificações comparativas entre escolas e nas avaliações de desempenho dos docentes. Não nos iludamos: neste momento, índices altos de não retenção e notas altas dos alunos, não correspondem necessariamente ao mérito pessoal e evolutivo. A indisciplina nas escolas é abafada, para não riscar o verniz das instituições e para que as vítimas não sintam que foram culpadas ou incompetentes no confronto com os conflitos. Quanto à falta de assiduidade ao horário letivo, níveis injustificados de ausência às aulas são desculpabilizados com muita facilidade.
Nas dinâmicas familiares e escolares, não há grandes consequências ou penalizações imediatas aos desvios de crescimento pessoal e cívico. Infelizmente, não se valoriza, comparativamente a outras áreas curriculares, a Educação para a Cidadania, que tem pouco peso na avaliação, quando esta é transversal e matricial na construção do caráter. Nas nossas comunidades, é mais comum o julgamento das aparências sociais, do que das lacunas espirituais, científicas e culturais. Os ginásios enchem-se para estilizar as silhuetas, mas as bibliotecas, esvaziadas de intenções, não escandalizam a maioria. Relativiza-se.
Ignorando que milhares de crianças no mundo, principalmente meninas, não têm a oportunidade de ir à escola e de se emancipar. Aqueles que, no nosso país, têm a oportunidade de frequentar o ensino básico e de continuar os seus currículos académicos, após saírem das instituições formativas, com que vontade ficam em perdurar a evoluir as suas competências e aprendizagens? A importância do estudo, da leitura, da autodisciplina, da iniciativa e da determinação em aprofundar criticamente os conhecimentos, mede-se como? E com que resultados de causa e efeito na vida pessoal e na cidadania? No nosso percurso, o que realmente aprendemos e o que escolhemos continuar a aprender? Em que níveis ou circunstâncias cada pessoa cede ao facilitismo? Que temperatura tem o nosso temperamento, no que toca a satisfazer a sede de erudição e sabedoria? Em que níveis de carência emocional uma pessoa cede ao contrário da sua cura?
Exigência não significa tecnocracia, produtividade, formalização ou padronização, mas sim a vontade de autossuperação, a assertividade em dar mais, e a busca por maior autenticidade, responsabilidade, liberdade e criatividade individual.
Como professora de crianças e adolescentes há mais de três décadas, posso testemunhar a diferença de nobreza e caráter entre alguns alunos, que, crescendo nas mesmas circunstâncias, com a mesma educação e as mesmas oportunidades, decidem fazer a diferença entre a maioria, pelo bem e pela beleza. Nesse livre-arbítrio ou autodeterminação de alguns entre muitos, o que faz despoletar a sua particularidade é ainda uma incógnita que me fascina. Independentemente das circunstâncias mais ou menos favoráveis, há pessoas que decidem, desde cedo, não ceder ao ordinário e fazer delas próprias, através das suas ações, exemplos de talento e superação.
No mínimo, é preciso ser exigente na exigência verde, uma vez que estão em causa mudanças comportamentais urgentes, pelo futuro do nosso planeta, biosfera, ecossistemas e biodiversidade. Haja exigência nas ações pela dignidade humana, assim como pela dignidade e plenitude das outras espécies, contra todas as formas de dor, exploração e subjugação. Haja exigência pela liberdade informada, pela autodeterminação, pelos valores éticos universais e democráticos, em fresca renovação e em detrimento de patriarcados neuróticos e reacionários. Haja exigência na formação pessoal, cultural, espiritual e cívica das nossas comunidades, no sentido da consciencialização e efetiva responsabilização de cada um de nós.