As redes sociais e o impacto na nossa realidade

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Vou admitir: quando pensei neste tema, senti-me aquelas pessoas por volta dos 50 anos que dizem que os miúdos de hoje em dia só querem saber dos telemóveis. Mas acho que a minha perspetiva (de alguém com 25 anos) é mais pessoal e gostaria de partilhar isso com os leitores.

Para quem não sabe, além de psicóloga, sou professora de dança. Dou aulas a crianças dos 8 anos aos 10, e a adolescentes dos 12 aos 16 anos. A diferença entre estes dois grupos não podia ser maior. Os mais novos, ainda com pouco acesso às redes sociais, são muito originais, têm ideias diferentes e ficam fascinados quando fazemos alguma coisa fora da caixa. Os mais velhos têm mais dificuldade em ser criativos, acham cringe quando sugerimos algo diferente – senti uma pontada no coração quando me disseram que ser gótico e ver anime é foleiro (porque eu era assim quando tinha 15 anos!). Mas isto parece estranho, porque os mais velhos, por norma, têm muito mais acesso a conteúdo e informação diferente, então, porque é que têm mais dificuldade em saírem da caixa? Podemos reduzir a resposta a algumas palavras que têm um impacto gigante na autoestima dos adolescentes: comparação, pressão social e procura por aceitação.

Primeiramente, as redes sociais passaram de algo que servia para mostrarmos aos nossos amigos por onde andávamos e aquilo que gostávamos para algo monetizado. Isto levou a que muitas pessoas aderissem a padrões e modas porque era algo que dava dinheiro e, consequentemente, trocámos as coisas que nos representam por coisas que representem o dinheiro e a exposição.

Mas falemos de algo mais próximo da minha/nossa realidade. Modas sempre existiram, mas, mesmo assim, cada pessoa tinha um estilo próprio que refletia a sua personalidade. Um exemplo muito simples é o guarda-roupa dos adolescentes, que, atualmente, se resume a cores como o preto, branco, bege e a ganga. Não que isto seja algo de mal, mas são TODOS assim. Todos têm o mesmo corte de cabelo, o mesmo estilo de roupa, a mesma maneira de pensar, porque, se não for assim, não são aceites pelos pares. São esquisitos e acabam por sofrer críticas. É aqui que entra a pressão social para nos inserirmos numa norma – que também sempre existiu, eu sei, mas não num extremo. Como é que alguém que ainda está em processo de se autoconhecer e a construir a sua personalidade experimenta coisas diferentes, se isso não lhe é permitido por saber que vai ser alvo de crítica?

Além disso, as redes sociais têm o fator da comparação altamente enviesado. As pessoas só publicam o lado bom e bonito da sua realidade. Olhem lá publicar uma foto sem filtro… Ao vermos só o lado positivo – viagens, comer fora, roupas e maquilhagens caras –, faz com que nos questionemos o que é que estamos a fazer de mal para não conseguirmos atingir aquilo tudo. Quantos de vocês é que já desvalorizou aquilo que possui ou fez porque o outro tem mais e melhor? Uma verdade, que muitas vezes é varrida para debaixo do tapete, é que nem todos temos as mesmas oportunidades. Seja por questões monetárias ou porque aquilo, antes de vermos nos outros, nem sequer nos fazia sentido. Mas queremos ter ou fazer porque os outros também fazem, e isto é muito visível nos adolescentes. Quero acrescentar um desafio – que eu própria estou a tentar implementar no meu quotidiano – se eu quero publicar uma selfie numa rede social, vou fazê-lo sem um filtro que distorça a minha cara. Prestem especial atenção no que sentem e pensam enquanto o fazem. Isto tudo tem implicações na nossa autoestima e autoimagem. Deixamos de saber quem somos e como nos queremos mostrar ao mundo, porque isso é definido por aquilo que vemos nos outros.

Se agora as redes sociais desaparecessem, quanto é que apostam que muitos ficavam perdidos sobre aquilo que iriam fazer, usar ou pensar?

Quanto tempo é que perdemos a ver aquilo que os outros vivem, enquanto devíamos passar esse tempo a pensar naquilo que queremos viver? Quanto tempo é que passamos a perceber aquilo que gostamos verdadeiramente, a sair da zona de conforto e a conhecermo-nos? Aquilo que nos define é porque nos faz sentido, ou porque define os outros também?

Para terminar, não quis ao longo do texto demonizar o uso das redes sociais – eu própria as uso diariamente – mas desafiem-se a questionar aquilo que seguem e o que vos aparece nos feeds. Desafiem-se a mostrarem quem são verdadeiramente, experimentem estilos de roupa, penteados e maquilhagens diferentes. Saiam da caixa. A beleza do mundo também está nas imperfeições, seja lá o que isso for. Permitam-se descobrir. Não se autocensurem, se vos faz feliz e não prejudica ninguém, façam-no!

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Mestre em Psicologia da Saúde e Reabilitação Neuropsicológica pela Universidade de Aveiro. Atualmente, trabalha maioritariamente com a população idosa e é também professora de dança urbana de crianças no distrito de Aveiro, sendo a dança uma das suas paixões desde os 6 anos.

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