Estive longe… Mas agora que aqui estou, sinto-me perto. Sinto que fechei os olhos e acordei seis meses depois. O tempo é realmente um conceito interessante, mas não será o tema desta vez.
Os inícios são sempre complicados. Mas os meios também. E nem sequer me façam falar dos fins, deixemos esses para outra altura. Tudo é complicado até deixar de ser. Mas o fácil, o acessível, transforma-se em tédio e convencemo-nos de que é imperativo voltar ao difícil, ao inacessível. Só assim sentimos; só assim vivemos, na busca do simples, para voltar novamente à procura do complicado. É um ciclo. Tal como a vida é um ciclo controlado pelo tempo.
Vivo neste ciclo; na constante incerteza incomodativa de não saber, de não ter, de não poder. Os inícios são difíceis para mim. 2025 tem sido difícil porque a incerteza é ainda maior. No dia 14 de janeiro, estivemos na RTP1, no programa “A Nossa Tarde” com Tânia Ribas de Oliveira, algo que surgiu de forma espontânea. Experienciei algo semelhante ao meu fechar de olhos que me transportou seis meses no tempo. Experienciei, nessa altura, e experiencio precisamente o mesmo neste momento, uma vez que já passaram 2 meses desde esta experiência inesquecível.
Ir à televisão ajudou-nos. Ajudou a nossa banda a dar um passo em frente, a ficar um bocadinho mais inserida. Inserida no panorama nacional? Não, não se trata disso. Quando digo inserida, falo de uma ideia. A ideia de que nós, Maria Café, uma banda de Aveiro, continua aqui. A música é o que nos une e o simples facto de termos ido à televisão implicou que esta ideia — o sonho de sermos músicos — ficasse inserida nas mentes das pessoas que nos rodeiam. “Eles foram à televisão, se calhar é mesmo a sério isto!”. Sim, é mesmo isto! Mas o tempo corre, as pessoas falam e a caravana passa, continuando a ser difícil apanhá-la.
“Eu não me quero lembrar
De quando a vida escolhe abraçar um sonho para o afastar”1
Estes dois versos pertencem a uma música chamada “Vou”, de Mimi Froes. Artista que recomendo vivamente, quer pelas letras, quer pela música, quer pelos concertos. No que diz respeito às letras, cada um pode interpretar à sua maneira. O artista, quando escreve, pode muitas vezes escrever sobre ele próprio, as suas vivências e mágoas, mas pode também escrever sobre algo hipotético, pode inventar uma história que não a dele.
Fernando Pessoa aborda este tema na sua “Autopsicografia”:
“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”2
O facto de a mesma letra ou música poder ser interpretada de maneira diferente por várias pessoas, mostra-nos o verdadeiro poder e dimensão que a arte tem: a capacidade de fazer sentir. Por vezes, o próprio artista perde-se na sua arte, no seu mundo, chegando até a perder a sua própria realidade, ficando imerso num vazio. Vazio esse que transborda de tão cheio que está. Para mim, os versos de Mimi, simbolizam a dificuldade que é viver em busca de um sonho que se afasta. A dificuldade que é viver com e sem a música.
Estaria a mentir se dissesse que vivo sem música. Vivo com ela diariamente. Alguns até poderiam achar que se trata de uma relação tóxica e complicada, mas eu estou a tentar torná-la simples, seguindo o ciclo eterno da procura do sentir. Mas o que me falta presentemente não é a música. Falta-me palco, falta-me multidão, mas não no sentido literal da palavra. Gostava de ter um espaço neste meio. Gostava que a ideia ficasse totalmente inserida e crescesse. Todas as multidões começam com uma pessoa. É para lá que aponto, para essa pessoa que me ouve.
O início é difícil, sim. Acredito que um dia estarei no meio. No meio do meu sonho, no meio do panorama nacional, no meio da minha vida. E quando chegar a esses meios, sei que vai ser complicado, mas também sei que vai ser gratificante, e o sonho que a minha vida escolheu abraçar de certeza que estará para ficar.
Termino com dois versos escritos pela Ana Bacalhau, outra artista portuguesa que me acompanha nos meus dias. Dois versos que mostram que a arte pode ser interpretada de maneiras diferentes, porque somos muitas vezes nós que a completamos, atribuindo-lhe significados diferentes, significados esses que dão sentido ao complicado, tentando que se torne simples.
“Chegará o dia em que passa a magia
De tanto te querer”3
Sim, pode chegar o dia em que passa a magia de querer algo ou alguém. Mas, para mim, uma coisa é certa: esse algo nunca serás tu, música.
Referências:
- Froes, M. (2020). Vou. Disponível em: https://genius.com/Mimi-froes-vou-lyrics ↩︎
- Arquivo Pessoa. Autopsicografia. Disponível em: http://multipessoa.net/labirinto/fernando-pessoa/1 ↩︎
- Bacalhau, A. (2017). Maria Jorge. Disponível em: https://genius.com/Ana-bacalhau-maria-jorge-lyrics ↩︎