O Aborto e a Consciência: Entre o Ser e o Não-Ser

O dilema moral do aborto é, assim, um reflexo do paradoxo existencial – um embate entre o desejo de preservar a vida e a necessidade de garantir a liberdade individual dentro da absurdidade da condição humana. No fundo, a escolha entre permitir ou interromper uma gravidez é um exercício da liberdade camusiana: um confronto entre a responsabilidade, a moral e a aceitação do absurdo da existência.

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Ao escutar o terceiro episódio do podcast “Sem Asteriscos” – onde se falava, sem rodeios nem cerimónias, sobre a liberdade, esse bicho esquivo e necessário – tropeçou-se na questão do aborto1. E eu, que até achava que já tinha pensado o suficiente sobre o assunto, dei por mim a remoê-lo outra vez. E pronto, não resisti. Resolvi escrever.

O debate sobre o aborto atravessa fronteiras éticas, científicas e filosóficas, girando em torno de uma questão fundamental: a partir de que momento se pode considerar que há vida e quando o feto adquire o status de pessoa? Essas indagações não apenas definem as políticas sobre o tema, mas também influenciam os direitos da mulher e do próprio embrião ou feto em desenvolvimento.

A ciência fornece algumas referências importantes para este debate. Biologicamente, a vida inicia-se na conceção, quando um novo código genético é formado a partir da fusão do óvulo e do espermatozoide2. No entanto, definir o início da vida não é o mesmo que estabelecer o momento em que um feto se torna uma pessoa com direitos próprios. Muitos argumentam que ser biologicamente vivo não equivale a ser uma entidade moralmente independente.

Uma das abordagens mais adotadas na bioética e no direito considera que a personalidade surge progressivamente. O desenvolvimento do sistema nervoso central e a formação do córtex cerebral, que ocorre por volta da 20ª a 24ª semana de gestação, são frequentemente apontados como marcos críticos3. Nesse estágio, há indícios de atividade cerebral organizada, sugerindo que o feto pode começar a sentir dor e a ter uma consciência rudimentar4.

Outros sustentam que a viabilidade do feto fora do útero é o critério mais relevante. Hoje, graças aos avanços da neonatologia, fetos nascidos a partir de 22 a 25 semanas têm chances crescentes de sobreviver, o que leva alguns a argumentar que esse deveria ser o limite para a interrupção da gravidez5.

Do ponto de vista psicológico, a personalidade não é considerada totalmente formada no nascimento. Freud defendia que os primeiros anos de vida são cruciais para o desenvolvimento da personalidade, pois as experiências infantis moldam os padrões de pensamento e comportamento futuros6. Carl Rogers, por sua vez, acreditava que a personalidade se desenvolve a partir da busca de congruência entre o self real e o self ideal, influenciada pelas experiências de aceitação e empatia7. Para Piaget, a formação da identidade ocorre em estágios progressivos ao longo da infância, dependendo da maturação cognitiva e das interações sociais8.

Em termos legais, a interrupção voluntária da gravidez (IVG) em Portugal é regulamentada pela Lei n.º 16/2007, que permite o aborto até às 10 semanas por decisão da mulher e em circunstâncias específicas até às 24 semanas, dependendo de fatores como risco para a saúde materna ou inviabilidade fetal9. Em 2024, mais de 500 mulheres portuguesas recorreram a clínicas em Espanha para realizar abortos devido às restrições legais em Portugal10. Recentemente, em fevereiro de 2025, propostas de alteração para ampliar o prazo legal foram debatidas no Parlamento, mas acabaram rejeitadas, mantendo-se a legislação inalterada11.

Dessa forma, a questão do aborto não pode ser reduzida a uma resposta simples e absoluta. Entre considerações científicas, psicológicas, filosóficas e jurídicas, o debate permanece aberto, refletindo diferentes conceções sobre vida, autonomia e moralidade. Se há um consenso, talvez seja o de que cada sociedade deve equilibrar esses fatores ao definir suas políticas, garantindo tanto os direitos da mulher quanto a proteção da vida em desenvolvimento.

A consciência da própria existência não é um dado adquirido, mas um processo de confronto com o absurdo da vida. Se existir significa reconhecer-se enquanto ser em meio a outros, então o estatuto de pessoa exige mais do que a mera presença biológica. O feto, no seu estado inicial, não possui a revolta contra o absurdo, nem a angústia do existir; a sua identidade ainda não emergiu como uma consciência12. Camus diria que a vida só se justifica pelo próprio ato de a viver, e ser pessoa é tomar consciência do próprio ser e do outro13. A existência só se torna real quando há um olhar que devolve o sentido do “eu” ao “outro”. Neste sentido, a decisão sobre o aborto não é apenas uma questão legal ou biológica, mas uma reflexão sobre a própria condição humana: até que ponto podemos impor o estatuto de pessoa a um ser que ainda não possui consciência de si? O dilema moral do aborto é, assim, um reflexo do paradoxo existencial – um embate entre o desejo de preservar a vida e a necessidade de garantir a liberdade individual dentro da absurdidade da condição humana. No fundo, a escolha entre permitir ou interromper uma gravidez é um exercício da liberdade camusiana: um confronto entre a responsabilidade, a moral e a aceitação do absurdo da existência.


Referências

  1. #04 – A MENTE SEM ASTERISCOS | Alexandre Bogalho ↩︎
  2. Jacobs, S. A. (2018). The Scientific Consensus on When a Human’s Life Begins ↩︎
  3. Gynaecologists (2010). Fetal Awareness Evidence Review ↩︎
  4. Derbyshire, S. W. G., & Bockmann, J. C. (2020). Reconsidering Fetal Pain ↩︎
  5. Limite de viabilidade no moderno cuidado intensivo
    neonatal
    ↩︎
  6. Freud, S. (1923). O Ego e o Id. ↩︎
  7. Rogers, C. (1959). Uma Teoria da Terapia, Personalidade e Relações Interpessoais ↩︎
  8. Piaget, J. (1952). A Origem da Inteligência na Criança. ↩︎
  9. Diário da República (2007). Lei n.º 16/2007 ↩︎
  10. Mais de 500 portuguesas abortaram em clínicas de Espanha em 2023 ↩︎
  11. Lei do aborto mantém-se inalterada ↩︎
  12. Camus, A. (1942). O Mito de Sísifo ↩︎
  13. Camus, A. (1956). A Queda. ↩︎

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Psicólogo no CRPG-Delegação de Coimbra e de Hospitais Privados (Área Clínica / Neuropsicológica).

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