A história não espera por ninguém

Este estilo de liderança, frequentemente pautado pelo confronto e pela imprevisibilidade, guarda semelhanças com a audácia de César ao cruzar o Rubicão, uma vez que abalou estruturas pré-estabelecidas, transformando a política e a sociedade de forma profunda e absoluta.

Tempo de leitura: 6 minutos

A história está repleta de exemplos e lições que nos ajudam a compreender o mundo em que vivemos. Das grandes civilizações do passado às transformações sociais e políticas da modernidade, cada evento carrega consigo ensinamentos preciosos. Seja para evitar a repetição dos erros humanos que transcendem o tempo, inspirar novas ideias ou simplesmente entender melhor a natureza humana, o estudo da história permite-nos viajar no tempo e encontrar padrões que moldam o presente.

Quando pensei em escrever sobre Trump e o seu agressivo início de mandato, procurei desde logo uma figura histórica cujas atitudes desafiadoras tivessem deixado uma marca profunda na história. Após alguma ponderação, escolhi Júlio César, o que numa primeira fase poderá parecer estranho, mas a realidade é que existem bastantes pontos pertinentes para esta escolha.

Bem sei que comparar Júlio César a Trump é quase uma heresia, um autêntico sacrilégio moral, mas o facto é que ambos desafiaram o Status Quo imposto e trouxeram com as suas ações uma série de mudanças e consequências importantes para esta reflexão.

Comecemos com Júlio César, que ao atravessar o Rubicão em 49 a.C.1, desobedeceu à ordem do senado e marchou com as suas tropas em direção a Roma, criando não apenas um momento de crise e de transgressão política, mas uma total rutura com as instituições da república romana, marcando o início de um período de grandes transformações que levariam à queda da República e ao surgimento do Império. Donald Trump, por sua vez, segue uma trajetória que também pode ser vista como desafiadora e arriscada, afinal e ainda na sua primeira presidência, desafiou os valores tradicionais da política e da diplomacia, valorizando uma agenda populista e polarizadora centrada no “Make America Great Again”, que consigo trouxeram vincadas mudanças à sociedade americana.

Este estilo de liderança, frequentemente pautado pelo confronto e pela imprevisibilidade, guarda semelhanças com a audácia de César ao cruzar o Rubicão, uma vez que abalou estruturas pré-estabelecidas, transformando a política e a sociedade de forma profunda e absoluta. Embora esta abordagem possa ser eficaz na transformação de sistemas ultrapassados e viciados, pode de igual forma trazer consequências imprevisíveis. Afinal, poucos se esquecem da invasão do capitólio por parte dos fiéis seguidores de Trump e de todos os outros problemas que o populismo e as inverdades de Trump causaram.

Mas há algo que diferencia profundamente Trump de Júlio César: o contexto histórico e a motivação. César, por mais ambicioso que tenha sido, era um estratega militar e político com uma visão bem estruturada sobre o futuro que queria para Roma. A sua ascensão ao poder não surgiu apenas por vontade pessoal, mas foi reforçada pelo início do colapso de uma República que já estava profundamente corroída pela corrupção, por desigualdades sociais e inúmeras lutas internas.

Trump, por outro lado, opera num mundo democrático que, apesar das suas falhas e lacunas, ainda se rege por instituições teoricamente fortes. No entanto, o perigo do seu estilo de liderança reside na erosão gradual dessas mesmas estruturas democráticas2. O seu discurso nacionalista, anti-imigração e de uma elevada agressividade contra os próprios aliados políticos e parceiros internacionais coloca os Estados Unidos numa posição de instabilidade global. Enquanto Roma conseguiu crescer como império após a queda da república, os Estados Unidos podem estar a seguir o caminho inverso: o de um “império” em declínio, fragmentado por divisões internas e pelo isolamento externo.

Um dos problemas atuais é o facto de o mundo ter mudado consideravelmente nos últimos anos, e não necessariamente para melhor. Conflitos como a invasão da Ucrânia por parte da Rússia, o conflito em Gaza, a queda do regime na Síria e o próprio galopar dos preços e da inflação tornaram-se assuntos do dia a dia, deixando uma série de cicatrizes e problemas numa sociedade cada vez mais global, mas igualmente mais desigual. 

Vivemos uma era de migrações forçadas e de descontentamento, onde, por um lado, os países desenvolvidos tentam refugiar-se numa bolha nacionalista e fechada sobre si, combatendo as migrações em massa e o sentimento de insegurança, enquanto, do outro lado, vemos estados falhados ou países em guerra cada vez mais isolados e sem apoio3

A solidariedade no mundo livre ameaça tornar-se uma miragem, sobretudo quando o maior dos seus aliados entra numa espiral de ameaças e cavalga as ideias de um populista que idolatra todos os que se opõem verdadeiramente à liberdade e democracia. O início do novo mandato de Trump marca claramente a tentativa do surgimento de uma nova América, de um país que só aceita o papel de guardião do mundo livre através do pagamento de bens e interesses, abandonando a solidariedade e a importância que tinha desde a Segunda Guerra Mundial. 

Se há algo que a história nos ensina, é que líderes que desafiam o status quo têm sempre um impacto profundo, mas raramente previsível. Júlio César, ao cruzar o Rubicão, selou o destino de Roma e abriu caminho para um império que moldaria o mundo por séculos. No entanto, a sua ascensão também trouxe consigo instabilidade e, no fim, a sua própria destruição. 

Trump, ao regressar ao poder, pode conduzir os EUA a uma nova fase da sua história, o problema é que em vez de uma fase de prosperidade e evolução, esta poderá ser uma fase de conflitos e do acentuar do declínio do papel dos Estados Unidos enquanto ator global. A ascensão de líderes populistas, o desmantelamento de alianças globais e a corrosão de instituições democráticas são sintomas de um mundo em transformação4. A questão que se impõe, então, não é apenas o que Trump fará, mas sim como as democracias responderão a este novo paradigma.

A história em si não se repete, mas os erros humanos e os seus padrões são inegáveis. Roma caiu não por um único líder, mas por décadas de corrupção, lutas internas e desafios externos que minaram a sua estrutura5. A democracia americana e o mundo livre estão perante um dilema semelhante: resistir às forças que ameaçam corroê-los por dentro e minando-o a nível internacional ou assistir, impotentes, a mais um capítulo do longo ciclo de ascensão e queda dos grandes impérios6.

Seja qual for o desfecho, uma coisa é certa: a História não espera por ninguém.


Referências

  1. BRANDÃO, José Luís; OLIVEIRA, Francisco de. História de Roma Antiga – Volume I: Das Origens à Morte de César.p.385 – 404. ↩︎
  2. DIAMOND, Larry. “Trump busca que todos se arrodillen ante su voluntad imperial.” El País, 5 de março de 2025. ↩︎
  3.  HOLLIFIELD, James. “Migration, Forced Displacement, and Human Development.” Wilson Center, 2023. ↩︎
  4.  PNUD. “PNUD alerta para ascensão extremamente preocupante do populismo.” Visão, 13 mar. 2024. ↩︎
  5. WARD-PERKINS, Bryan. The Fall of Rome and the End of Civilization. New York: Oxford University Press, 2006. ↩︎
  6. KAGAN, Robert. The Jungle Grows Back: America and Our Imperiled World. New York: Knopf, 2018. ↩︎

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João Luís Pinho Branco Ferreira, nasceu a 31 de março de 1994 e é natural de Ovar. Com formação académica em História e uma ligação forte ao associativismo político.

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