Ser Psicólogo em Portugal: porque o percurso importa

”A meu ver, apesar da enorme evolução que temos visto nos últimos anos, principalmente depois da pandemia, falta ainda um longo caminho para a psicologia ser devidamente reconhecida e valorizada em Portugal.

Tempo de leitura: 7 minutos

Em conversa com várias colegas de trabalho, inclusive também da área da saúde, apercebi-me que ainda existe muito desconhecimento acerca do percurso formativo de um psicólogo. E acredito que parte da desvalorização da profissão venha precisamente daí, de não se saber o que implica este título profissional. Acompanhem-me, então, caros leitores, nesta bonita, mas desafiante jornada. 

Para se ser psicólogo em Portugal é necessário estar inscrito na Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), que é precisamente a entidade que regula a profissão e que, portanto, define qual o percurso necessário para se poder exercer. Atualmente, a coisa funciona assim: 

Tudo começa com a licenciatura, que são três anos de estudo. Depois vem o mestrado, que são mais dois anos, e que deve ter uma componente prática, que é como quem diz, um estágio curricular. Depois do diploma na mão temos apenas isso, um diploma. Portanto, somos diplomados em Psicologia, e ainda não psicólogos. 

Agora é necessário realizar o Ano Profissional Júnior (APJ) que consiste basicamente num ano de prática profissional supervisionada por um orientador, ou seja, um psicólogo com um mínimo de cinco anos de experiência naquela área de trabalho específica. De forma resumida, é preciso elaborar um projeto de estágio, que tem de ser aprovado pela OPP, assim como um protocolo de colaboração entre as duas entidades, e mais dois relatórios (um de progresso, aos seis meses, e um final, aos 12 meses). Durante este período temos também uma formação teórico-prática obrigatória administrada pela própria Ordem. Durante o APJ também não somos psicólogos, mas sim psicólogos juniores, e é-nos atribuída uma cédula de estagiários que é, obviamente, temporária. Depois deste ano, e se tudo correr dentro do esperado, somos, finalmente, psicólogos, membros efetivos da OPP, com uma cédula profissional que nos permite exercer a profissão de forma autónoma, credível e segura. 

Ora, feitas as contas, são seis anos de formação teórico-prática intensiva. E isto é “só” o percurso básico obrigatório, porque a grande maioria destes estudantes e profissionais realiza inúmeras formações e cursos ao longo do seu percurso. Sem contar ainda com projetos de voluntariado, investigação ou de apoio académico, que também contribuem enormemente para o desenvolvimento de competências e conhecimentos que são essenciais para o exercício da profissão. Além disso, a nossa prática, mesmo ainda enquanto juniores, deve seguir e respeitar sempre o código deontológico. De repente a coisa já não parece assim tão fácil, pois não? 

E é por isto, caros leitores, que muitos psicólogos se sentem frustrados e desvalorizados quando ouvem coisas como “ah um amigo também faz isso”, “ah eu também dava para psicólogo”, etc. etc. Mais preocupante ainda é quando pessoas sem formação creditada se auto-intitulam de psicólogos ou psicoterapeutas e prometem fazer o mesmo que os profissionais qualificados (o que na verdade pode constituir crime de usurpação de título e/ou funções, já agora!)1. Peço desculpa, mas não dá para aprender em meia dúzia de workshops de fim de semana aquilo que se estudou e trabalhou durante, no mínimo, seis anos. Percebo que este tipo de discursos e situações não ocorram por haver más intenções, mas como diz o velho ditado: “de boas intenções está o inferno cheio”; e dizia também um estimado professor meu: “não basta querer ajudar”. É preciso muito mais, mesmo. 

É preciso compreender o comportamento, a cognição, os processos mentais, o desenvolvimento do nosso organismo como um todo, a influência de fatores externos e internos na construção do “eu”. É preciso entender ciência, saber ler um artigo científico e perceber o que lá se diz, e por isso é preciso estudar matemática e estatística (e convém dominar o Inglês). Para compreender o organismo como um todo, é preciso estudar anatomo-fisiologia e psicobiologia. Para perceber o comportamento e a cognição é preciso estudar os processos mentais envolvidos na aprendizagem, como funciona a memória, a atenção, a motivação, a perceção, as emoções, etc. É preciso estudar teorias e modelos de desenvolvimento ao longo de todo o ciclo de vida, desde a infância à velhice. É preciso estudar psicopatologia, avaliação psicológica, personalidade, raciocínio e tomada de decisão, história, sociologia, ética, entre tantas outras temáticas e disciplinas. 

Podem achar um exagero, no início também achei. Mas quanto mais aprendo, mais sei que nada sei, e mais profundamente compreendo a necessidade deste percurso e de um desenvolvimento profissional contínuo, porque o ser humano é do mais complexo e vulnerável que existe, e é também um ser em constante mudança e evolução. Portanto, não é qualquer um que pode desempenhar a função de psicólogo. Tenho vindo a acreditar cada vez mais que a psicologia, mais do que uma profissão que se escolhe exercer, é uma vocação que se desenvolve, com esforço e dedicação. 

A meu ver, apesar da enorme evolução que temos visto nos últimos anos, principalmente depois da pandemia, falta ainda um longo caminho para a psicologia ser devidamente reconhecida e valorizada em Portugal2. O que não faz sequer sentido, se pensarmos que Portugal é um dos países da Europa (e talvez até do mundo) onde a saúde mental é mais precária.3 Precisamos tanto destes profissionais e nem sabemos o quanto. Precisamos deles nos hospitais, nas escolas, nos lares, nos centros de apoio e reabilitação, nos municípios, na política, no ensino superior, nos projetos sociais, nas organizações, nas clínicas, nas associações comunitárias, nos centros de investigação, nas empresas, nas polícias, nos centros de saúde… 

Como psicóloga (ainda júnior), mas principalmente como cidadã portuguesa, sonho com um Portugal e com uma sociedade que respeite, valorize e reconheça verdadeiramente o trabalho dos psicólogos. Ainda bem que podemos todos ter um papel nisso mesmo e que, com a escrita e leitura deste texto, já demos mais um passinho em frente na construção da informação e desconstrução da desinformação. Obrigada, caros leitores, por contribuírem para esta missão coletiva.


Referências

  1. https://www.pt/pt/pesquisa?q=Usurpa%C3%ordemdospsicologosA7%C3%A3o+ ↩︎
  2. https://healthnews.pt/2024/11/13/bastonario-dos-psicologos-pede-mais-valorizacao-p rofissional-a-montenegro/ ↩︎
  3. https://www.dn.pt/sociedade/saude-mental-afeta-20-dos-portugueses-e-custa-15-mil-milhoes-a-seguradoras 
    https://rr.sapo.pt/artigo/explicador-renascenca/2024/10/10/quantos-portugueses-sofrem-de-problemas-de-saude-mental/396964/ 
    https://sicnoticias.pt/iniciativaseprodutos/projetos-sicnoticias/familiarmente/2024-10-22-como-esta-a-saude-mental-dos-portugueses–5cf0e933 ↩︎

Plano curricular da licenciatura em Psicologia da Universidade de Aveiro: https://www.ua.pt//pt/c/42/p 

Plano curricular do mestrado em Psicologia da Saúde e Neuropsicologia da Universidade de Aveiro: https://www.ua.pt//pt/c/1528/p 

Acesso à profissão: https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/p/acesso-a-profissao

Informações sobre o APJ: https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/p/ano-profissional-junior 

Código deontológico dos Psicólogos: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/caodigo_deontolaogico_regulamento_nao_898_2024.pdf 

Requisitos para a especialização avançada em psicoterapia: https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/especialidades

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/orientaa_aoes_especialidades_psicoterapia_equiparaa_aao.pdf

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Sou Psicóloga Júnior na “Casa Maior”, uma residência sénior no Porto. Fiz o meu percurso académico na universidade de Aveiro, sendo mestre em Psicologia da Saúde e Neuropsicologia. Fiz parte da primeira geração de estudantes embaixadores OPP e sou também recrutadora na “Reconhecer o Padrão”.

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