Num país violentamente dilacerado pelos resquícios da doutrina fascista, veiculada através do catecismo de Benito Mussolini, em 1946, nos dias 2 e 3 de junho, materializou-se algo que certamente já se sonhava há décadas: as primeiras eleições com direito ao voto feminino na Itália, após 33 anos do primeiro sufrágio universal, que de verdadeiramente universal teve pouco, dada a exclusiva permissão ao voto masculino. Estou certo de que a massiva participação feminina (85% das mulheres em idade elegível compareceu para votar, representando 13 milhões dos 25 milhões de eleitores1) é reflexo de um profundo desejo de intervir igualmente na decisão do futuro do seu país, como desde sempre deveria ter sido regra. Só se encontra, nos anais da História, um tão belo e exemplificativo paralelo: a afluência às urnas de 91,6% dos cidadãos portugueses recenseados em abril de 1975 (cerca de seis milhões e duzentas mil pessoas), representando as mulheres 53% dos eleitores2.
A Ciência Política tem-se desdobrado em múltiplas conjeturas acerca da razão pela qual assistimos hoje a decréscimos sustentados de participação eleitoral. Quer seja devido à fadiga eleitoral, ou à menor importância percebida pela população relativamente ao valor de uma eleição, creio que ninguém duvida de que seja um sinal de alarme quanto à saúde de uma democracia. Regressando à Itália, o mesmo pode ser dito, com a reflexão acrescida da popularidade de partidos como o de Giorgia Meloni, assumidamente ultranacionalista e eurocética, com laivos da doutrina fascista adaptada aos tempos contemporâneos. Um paradoxo que, se é que sequer faz sentido, nos dias hodiernos, os resquícios desta ideologia política deveriam ser ativamente combatidos e esvaziados de destaque, a meu ver.
O filme “There’s Still Tomorrow” (2023), realizado por Paola Cortellesi3, reportando-se ao pós-Segunda Guerra Mundial em Roma, retrata os últimos dias da violência perpetrada por Ivano, marido de Delia, protagonizada pela própria cineasta, na semana que precede os referidos dias 2 e 3 de junho de 1946. A cena inaugural é uma chapada de realidade, metafórica, ao contrário da realmente desferida por Ivano assim que acorda ao lado da esposa. É o bastante para compreendermos com que tipo de família lidaremos daí em diante, no decorrer da longa-metragem. Quase como no clássico voyeurismo, acompanhamos Delia na sua dor e na violência que sofre, à medida que, simultaneamente, floresce em si o desejo de se libertar.
Não sejamos alheios à perpetuação da violência doméstica, representada neste filme, visto que Marcella, filha mais velha do supracitado casal, acaba, mais tarde, por cair nas mãos de comportamentos semelhantes, levados a cabo por Giulio, de quem recentemente se tornara noiva. Contudo, Delia, até aqui passiva em relação ao seu próprio sofrimento conjugal, decide agir ao assistir à repetição da tragédia. É a partir daí que se inicia a sua revolta e consequente emancipação.
Por mais singelo que nos possa parecer o ato de votar, representa um sinal social sobejamente maior do que somos capazes de imaginar. É determos nas nossas mãos a possibilidade de expressar aceitação, revolta ou desejo de alternativa face ao atual estado das coisas. Mesmo que esta oportunidade e este direito nos possam ser velados, mesmo que amanhã acordemos assustados, sem a possibilidade de termos uma palavra a dizer, ainda teremos dias depois disso para nos fazermos ouvir.
“Segurámos as nossas cédulas [de voto] como bilhetes de amor…”
Anna Garofalo4
Referências
1. Gabrielli, P. (2009). Il 1946, le donne, la Repubblica. Donzelli Editore.
2. Comunicar. (n.d.). ELEIÇÕES PARA A ASSEMBLEIA CONSTITUINTE (1975). https://app.parlamento.pt/comunicar/Artigo.aspx?ID=393
3.Cortellesi, P. (Director). (2023). There’s Still Tomorrow (C’è ancora domani). [Film]. Italy.
4. Gabrielli, P. (2017). Senza rossetto: il primo voto delle italiane. https://www.federalismi.it/nv14/articolo-documento.cfm?Artid=33158 // Garofalo, A. (1956). L’italiana in Italia. Laterza.