O nascer de um novo mundo é sempre um misto de sensações, mas sem dúvida que estamos perante uma altura de definição do caminho da humanidade. Qualquer historiador consegue perceber que estamos neste momento a escrever história. Depois de muito tempo em que as canetas estiveram paradas, uma certa normalidade pós-queda do muro de Berlim é posta em causa.
Podia estar aqui a falar de mil e uma coisas que correram mal na conceção do sistema de grande capital da América desde a virada do século, mas quero-me focar na consequência-mor que saiu daqui: a tecnologia pode ser vista como uma dádiva e também como a nossa futura maior vulnerabilidade, e tudo gira à volta da informação. A nossa informação.
Por muito idealista que seja imaginar um mundo sem o grande capital, eu sempre me refugiei na ideia de que ele é um mal necessário e que é uma estrutura de poder inerente à raça humana. Continuo com esse credo. O grande capital servia um propósito, servia-nos a nós com produtos e serviços com os quais fomos desenvolvendo cada vez mais o nosso futuro. Fosse o grande capital feudalista, industrial ou até o da banca, todos serviam um propósito e, mesmo que em última instância, as pessoas – claro que com um preço de maior desigualdade entre o topo e o fundo, mas sempre anexando uma melhoria factual da qualidade de vida.
No entanto, cá estamos, um tempo novo em que são os donos da Big Tech que detém o poder.1 Mas será que nos servem? Não. Estamos a assistir a uma entrega de poder pela via de um vício num produto que alterará para sempre a conceção sociológica da raça humana. Falo oriundo de uma geração que, por culpa própria, sofre com uma presença constante das redes sociais na sua vida. Muitos nem sequer notam os sentimentos negativos que as mesmas trazem, e com isso conseguem menosprezar a ameaça que é desde a insegurança pessoal até à comparação constante com terceiros2.
As redes sociais mexem com os sentimentos mais sombrios das pessoas, e reforço a importância disto porque são exatamente eles que podem facilmente ser explorados para propósitos políticos e económicos, veja-se como exemplo a segunda eleição de Trump. O neoconceito de masculinidade é algo muito maleável pelas redes sociais, desde Tate’s a casos nacionais, como Numeiro e afins – pessoas que desbloqueiam em milhares e milhares de jovens a ideia de que se tem de ser parvo para ser um homem. Isto jogou a favor de Trump, pois o voto jovem masculino, definido pelas redes sociais, foi absolutamente preponderante no resultado final3.
Agora temos de interiorizar algo muito importante: quem detém estes mecanismos, detém tudo sobre nós. Conseguem facilmente saber o que gostamos de ver, o que gostávamos de ter, o que pensamos, a que horas dormirmos e acordamos, o que gostamos de comer e para onde gostávamos de viajar. Conseguem entender quando estamos mal com nós mesmos, quando acabamos uma relação ou quando estamos mal com amigos. Conseguem perceber tudo – chama-se uma For you Page.
Compreendam a grandiosidade disto, porque é o que faz ganhar ou perder eleições, e criar hiperpersonalizações aos nossos gostos, fechando-nos o mundo ao que nós queremos, achando que o que o outro gosta é absurdo, errado e incoerente. Cria trincheiras entre pessoas apenas porque não pensam o mesmo. Insisto que é uma alteração sociológica infinita do pensamento humano: o desprezar da diferença cria fricção entre os demais.
Eles capitalizam com isso, pois estão ali a vender-nos nada além de medo, separação e ansiedade. E isto é só o início. Penso que já não há volta a dar, as clouds prometem ser eternas, mais eternas que nós. Resta-nos o que sempre nos restou: legislar. Ou isso, ou estamos perdidos.
Shoshana Zuboff, no seu livro The Age of Surveillance Capitalism, desmonta aquilo que eu também defendi no meu artigo: as grandes tecnológicas já não são apenas empresas que nos prestam um serviço, mas sim sistemas que nos colonizaram, que extraem tudo o que somos e transformam num produto para ser vendido. Mais do que isso, geraram um modelo de negócio que assenta no controlo absoluto da informação e na manipulação do comportamento humano.
No final do livro, Zuboff apresenta a mesma solução que eu corroboro: legislar. Não há outra alternativa. O capitalismo de vigilância não se regula a si próprio, porque a própria natureza do sistema exige mais e mais dados, mais e mais controlo. Se não se erguerem barreiras legais, se não se limitar o poder destas plataformas, então estamos condenados a viver num mundo onde a nossa liberdade já não é nossa – é deles. E, como eu disse antes, se nada for feito, estamos entregues…
Referências
- https://leitor.jornaleconomico.pt/noticia/que-mundo-querem-os-superviloes-das-big-tech ↩︎
- https://observador.pt/explicadores/as-redes-sociais-sao-uma-ameaca-para-a-saude-mental-e-ha-pessoas-mais-expostas-7-respostas-para-entender-os-riscos/ ↩︎
- https://fastcompanybrasil.com/news/por-que-tantos-homens-da-geracao-z-resolveram-votar-em-donald-trump/ ↩︎