O Nutricionista num Clube Desportivo: CD Feirense, SAD

"Hoje em dia já está mais do que reconhecido que ser um jogador de futebol é muito mais do que ter uma bola nos pés. É um conjunto de fatores que o fazem atingir o seu potencial máximo enquanto atleta e, definitivamente, a nutrição e tudo o que lhe envolve, é um deles."

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Se por si só a alimentação e a nutrição são temas que apenas ganharam destaque relativamente há pouco tempo, o que dirá em meio desportivo. No PubMed, só os últimos 10 anos representam quase 80 por cento daquilo que é a informação disponível relativamente à nutrição desportiva. A verdade é que o primeiro artigo oficial publicado pela UEFA que aborda minuciosamente este tema no futebol profissional foi publicado apenas em 20211. Também em 2021, o Sporting Clube de Portugal tinha três nutricionistas e, apenas três anos depois, passou a ter 11, distribuídos por todas as modalidades2.

Apesar de desde sempre se falar de nutrição e do nutricionista, só recentemente é que a profissão ganhou a devida relevância, e fora daquilo que era o comum (a perda de peso). Talvez por isso, para alguns, possa suscitar curiosidade acerca do papel do nutricionista num clube desportivo e o que poderá ser o seu impacto num atleta a sério.

O nutricionista insere-se no Departamento de Performance, conjuntamente com o(s) médico(s), fisioterapeuta(s) e fisiologista(s). Portanto, efetivamente, todo este segmento faz parte do trabalho invisível (brilhantemente assim reconhecido por António Pedro Mendes3) que está por de trás de um atleta, de um jogo e de um clube desportivo. 

As funções do nutricionista no meio desportivo podem variar muito de acordo com o contexto em que o próprio clube se insere, mas certamente passarão pelas avaliações da composição corporal (com recurso a perímetros corporais e pregas cutâneas), pela garantia da disponibilidade alimentar nas refeições que os atletas/jogadores poderão fazer no próprio clube (frequentemente pequeno-almoço), pela elaboração das ementas e dos planos de estágio e pela garantia dos suplementos adequados ao alto nível de exigência que se tem nas ligas profissionais, tanto daqueles que são feitos diariamente, como daqueles que são feitos apenas em dia de jogo ou em fases específicas da época desportiva.

Não existem as típicas consultas de nutrição super estruturadas, dentro de um consultório e com uma bata branca. Maioritariamente, o trabalho é feito através de conversas informais, durante as avaliações físicas e, individualmente, são esclarecidas dúvidas e feitos ajustes à alimentação e nutrição, de acordo com a realidade individual e fase desportiva. Cada vez mais o próprio atleta reconhece o papel do nutricionista e o impacto que a nutrição tem diariamente na sua performance e, por isso, o trabalho é contínuo. 

Objetivamente, é nisto que podemos resumir o trabalho do nutricionista num clube desportivo. No entanto, há outra fração ainda mais minuciosa, que é aquilo que são os desafios diários que encontramos ao trabalhar com uma equipa que não deixa de ser constituída por jogadores que têm gostos, preferências e hábitos individuais.

Num universo tão multicultural, não é de estranhar se, na mesma equipa, houver um jogador tipicamente português, um com uma religião específica que o pode limitar em determinadas fases da época desportiva, outro com determinados caprichos relacionados à nutrição e um que é complemente alheio a este mundo. Pessoalmente, é aqui que se encontra o maior desafio enquanto nutricionista em contexto de clubes desportivos: aliar a teoria à prática. E a verdade é que a sensibilidade para vários temas, em meio desportivo, é crucial para nos posicionarmos no meio.

A partilha de informação entre o nutricionista e restante Departamento de Performance e, posteriormente, equipa técnica e diretor-desportivo, é um casamento perfeito para que a expectativa se assemelhe o mais possível à realidade. Realço aqui a influência da equipa técnica, principalmente do treinador principal, naquilo que é a importância do nutricionista. O míster é a primeira voz numa equipa de futebol e pode ser relevante para levar a cabo o trabalho do nutricionista. 

Hoje em dia já está mais do que reconhecido que ser um jogador de futebol é muito mais do que ter uma bola nos pés. É um conjunto de fatores que o fazem atingir o seu potencial máximo enquanto atleta e, definitivamente, a nutrição e tudo o que lhe envolve, é um deles.

Atualmente, grande parte da minha prática profissional encontra-se dedicada ao CD Feirense, SAD., que disputa na Segunda Liga Portuguesa. No momento em que escrevo este artigo, é com orgulho que partilho que apresentamos um plantel de verdadeira qualidade no que toca à composição corporal, à luz da evidência científica e de acordo com os padrões do clube, definidos em conjunto com o restante Departamento de Performance. Não só como equipa como individualmente, conseguiu-se fazer um trabalho notável de melhoria de alguns parâmetros importantíssimos para a qualidade do jogador enquanto atleta. Fico feliz pelo caminho percorrido e celebro algumas pequenas conquistas de que diariamente me vou apercebendo e que permite ao clube estar no alto nível que se pretende.

É com muito carinho que partilho a minha experiência com profissionais e, sobretudo, pessoas que diariamente estão unidas por um objetivo, num clube que há muito tempo está no meu coração. Um especial obrigado ao médico Doutor Diogo Silva, ao ‘boss’ Ricardo Vasconcelos e ao míster Vítor Martins por verdadeiramente acreditarem que juntos somos muito melhores. Feliz época 2024/2025!

Referências

  1. Collins, J., Maughan, R. J., Gleeson, M., Bilsborough, J., Jeukendrup, A., Morton, J. P., Phillips, S. M., Armstrong, L., Burke, L. M., Close, G. L., Duffield, R., Larson-Meyer, E., Louis, J., Medina, D., Meyer, F., Rollo, I., Sundgot-Borgen, J., Wall, B. T., Boullosa, B., Dupont, G., … McCall, A. (2021). UEFA expert group statement on nutrition in elite football. Current evidence to inform practical recommendations and guide future research. British journal of sports medicine55(8), 416. https://doi.org/10.1136/bjsports-2019-101961 ↩︎
  2. Marques, D. (2024). Por dentro da nutrição no Sporting: «Não queremos castigar ninguém, mas sim educar» [Reportagem]. Maisfutebol, lisboa, 9 de janeiro de 2024. https://maisfutebol.iol.pt/reportagem/sporting/por-dentro-da-nutricao-no-sporting-nao-queremos-castigar-ninguem-mas-sim-educar ↩︎
  3. Mendes, A. P. (2023, 15 de outubro). A nutrição enquanto “trabalho invisível” no desporto. Público. https://www.publico.pt/2023/10/15/impar/opiniao/nutricao-trabalho-invisivel-desporto-2066276 ↩︎

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Ana Catarina Gomes, inscrita na Ordem dos Nutricionistas desde setembro de 2021 (4859N); Licenciatura em Ciências da Nutrição, pela Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa;

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