As comparações são inevitáveis. Ao olharmos para o mundo atual, sentimos que vivemos numa era de convulsões, como se estivéssemos no epicentro de uma transformação histórica. Mas serão estas perturbações verdadeiramente novas, ou apenas mais um capítulo de um ciclo que a humanidade conhece demasiado bem?
Ao observar Donald Trump, é difícil não evocar outras figuras que emergiram em momentos de grande turbulência geopolítica. A sua retórica grandiosa e profundamente divisiva faz lembrar Napoleão Bonaparte, que prometeu restaurar a glória de França, dividindo a sociedade entre fervorosos seguidores e opositores implacáveis. Inquietantemente, a exclusão de certos grupos sociais promovida por Trump traz ecos das políticas de segregação de um antissemita alemão que governou nos anos 20 — ainda que em contextos distintos e de intensidade incomparável. Por outro lado, a relação tumultuosa de Trump com a imprensa e o peso dos escândalos que marcaram o seu mandato evocam Richard Nixon, outro líder que governou num período de polarização e descontentamento social profundo. Sem falar na admiração declarada de Trump por Vladimir Putin, que reforça ainda mais estas associações, sugerindo afinidades com modelos autoritários que desafiam as normas democráticas. E, no entanto, há também um estranho paralelo com Franklin D. Roosevelt: embora em polos ideológicos opostos, ambos enfrentaram momentos de fragmentação social e recorreram ao poder executivo como ferramenta para tentar reunificar o país. Estes paralelos históricos, ainda que imperfeitos, revelam uma verdade essencial — as crises e divisões de hoje não são inéditas.
A posse de Trump, envolta em conflitos internos e acusações de populismo, faz ecoar os discursos inflamados de outros líderes que ascenderam ao poder em épocas de incerteza.
As divisões nos Estados Unidos — políticas, sociais e raciais — assemelham-se a um espelho distorcido da tensão global que marcou o período entre as duas guerras mundiais. Tal como então, paira a sensação de um colapso iminente, de que o velho mundo já não funciona, mas o novo ainda não tomou forma.
As intenções expansionistas de Trump, ainda que enviesadas pela lógica de uma superpotência em declínio, relembram a geopolítica agressiva de outros tempos. Queria erguer muros, não apenas contra migrantes, mas contra qualquer ideia que desafiasse a sua visão do mundo. É impossível ignorar os paralelos com outros períodos de isolamento e medo: o isolacionismo americano dos anos 30 do século XX, a Cortina de Ferro que dividiu a Europa, ou as rivalidades coloniais que redesenharam o mapa no século XIX. A diferença reside na escala: Trump quer Marte, não apenas territórios terrestres. Ao lado de Elon Musk, com foguetes e sonhos de colónias espaciais, parece que assistimos a uma versão caricatural da corrida espacial, onde o espetáculo ultrapassa a ciência.
E depois, há as redes sociais, o verdadeiro campo de batalha dos nossos tempos. A forma como foram instrumentalizadas recorda os panfletos propagandísticos do século passado, mas com uma eficácia assustadora. Se no início do século XX o rádio e os jornais moldavam opiniões, hoje são os algoritmos que decidem o que vemos e ignoramos. Esta nova arma de manipulação massiva não só amplifica a desinformação, como exacerba as divisões. Tal como nas décadas mais sombrias da história moderna, os extremos dominam o discurso, esmagando a moderação.
A luta pelos direitos humanos, frequentemente usada como barómetro de progresso, também reflete a instabilidade do nosso tempo. Apesar dos avanços significativos, enfrentamos uma reação feroz que ameaça reverter conquistas importantes. Este movimento pendular entre progresso e retrocesso não é novidade: vimos algo semelhante nos anos que antecederam o colapso de regimes autoritários.
E o gesto de Elon Musk num evento de Trump, que alguns associaram à saudação nazi, exemplifica como os fantasmas do passado continuam a assombrar-nos. Mesmo que tenha sido um mal-entendido, a polémica revelou o peso simbólico que atribuímos a esses gestos. Tal como na década de 1930, pequenos atos ou palavras podem incendiar nações inteiras. Vivemos num mundo onde as imagens e as interpretações têm um poder desmesurado.
Mas será que vivemos mesmo uma época extraordinária? Ou estamos apenas a repetir — em alta-definição — os mesmos erros, as mesmas disputas de poder, as mesmas divisões sociais e ideológicas que sempre marcaram a história humana? Talvez a questão essencial não seja se o nosso tempo é único, mas como escolhemos responder a ele.
A ironia é que, mesmo com a tecnologia para colonizar Marte, continuamos a debater as mesmas questões fundamentais que há séculos definem a humanidade. Talvez, ao revisitar o passado, possamos não apenas identificar os paralelos que nos alertam, mas também as lições que evitam que estejamos condenados a encenar o mesmo drama. Afinal, será que somos assim tão diferentes daqueles que viveram crises antes de nós? Ou será que o extraordinário reside, como sempre, na nossa capacidade de refletir, corrigir e, com um pouco de sorte, evitar o colapso?