A afirmação do populismo na Europa em 2024

"Deverão os líderes democráticos reduzir-se ao populismo, numa tentativa de garantir resultados eleitorais favoráveis ao partido, ou manter a seriedade e fidelidade aos ideais que têm garantido o respeito pelos direitos de todos na Europa?...

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Em 2024 o mundo assistiu à emergência e consolidação do populismo que, juntamente com os conflitos bélicos mundiais e as dificuldades económicas, aumentaram a exigência eleitoral aos mais de dois mil milhões de eleitores chamados às urnas.1 Neste âmbito, assistiu-se a uma clara alteração do panorama político mundial, decorrente das transformações sociopolíticas e económicas que têm abalado a contemporaneidade.

Ao fazer uma análise superficial dos resultados eleitorais deste ano, percebe-se uma clara diminuição de poder das forças democráticas, que acabaram por sofrer com a emergência das tendências populistas. Esta diminuição é ainda mais evidente no seio europeu.

No caso de Portugal, com as eleições legislativas, percebeu-se um claro aumento da força da extrema-direita, evidenciado pelos cinquenta deputados eleitos pelo Chega.2 Apesar de não ser suficiente para formar governo, a consolidação do Chega como terceira força política foi suficiente para aumentar a degradação das instituições democráticas portuguesas, observando-se uma clara diminuição da qualidade do debate e discurso parlamentares, bem como o aumento de situações de desrespeito face a pessoas, partidos e símbolos da democracia, culminando com a “vandalização” da Assembleia da República no dia 29 de novembro de 2024.3

A situação portuguesa mostrou ser um prenúncio do que aconteceria no seio da União Europeia. As eleições para o Parlamento Europeu acabaram por provar que o crescimento populista é algo transversal a toda a Europa, refletindo-se no crescimento e consolidação de grupos políticos pouco democráticos, como os Conservadores e Reformistas Europeus e os Patriotas pela Europa. Apesar da nona vitória consecutiva do Partido Popular Europeu, a extrema-direita tornou-se rapidamente a terceira força política europeia, refletindo o desgaste social face às condições de vida e aos conflitos bélicos e económicos que afetam a Europa.4

Se no momento da escolha dos eurodeputados uma boa parte da população cedeu à pressão da extrema-direita, nas eleições internas que se realizaram em vários países europeus o resultado não foi muito diferente. Denotando-se sérias aproximações ao poder por parte de partidos, coligações e políticos populistas.

Na Áustria, o Partido da Liberdade conseguiu aproximadamente 29% dos votos, vencendo assim as eleições. Apesar dos esforços dos líderes partidários dos restantes partidos, as negociações para a formação de coligações ao centro falharam após a saída do Partido Liberal, forçando assim o presidente Alexander Van der Bellen a convidar Herbert Kickl, líder do Partido da Liberdade, para formar governo.5 Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, a extrema-direita foi convidada a formar governo na Áustria, deixando assim várias questões para o resto da Europa.6

Ao olharmos para o caso romeno, a situação torna-se mais preocupante. Călin Georgescu, líder da extrema-direita romena, conseguiu vencer a primeira volta das presidenciais, no entanto, os resultados acabaram por ser anulados devido a alegadas provas de interferência russa na eleição. O caso de Călin Georgescu é ainda mais alarmante quando observamos o percurso deste candidato até à sua vitória. Para além de se ter apresentado como um independente, ultranacionalista, pró-Rússia, este era praticamente desconhecido no ambiente político, alicerçando a sua campanha na plataforma digital TikTok e em contas falsas para a sua promoção.7 Este caso acaba por evidenciar um dos grandes desafios políticos da atualidade. Com a crescente importância do digital nas campanhas eleitorais, a capacidade de transmitir informações importantes de forma sucinta e credível começa cada vez mais a afetar os resultados eleitorais, fazendo com que alguns partidos se centrem em cativar progressivamente a população com informações simples e pouco fundamentadas, degradando a qualidade do ambiente político.

Parece-me importante mencionar também as eleições francesas. Marcadas antecipadamente pelo presidente Emmanuel Macron, estas eleições refletiram claramente o descontentamento face ao executivo que vigorava, levando à derrota da aliança centrista ‘Ensemble’.8 Simultaneamente, é possível observar uma repetição de um padrão histórico. De forma semelhante ao que aconteceu em 1936, a esquerda necessitou de se unir, formando a Nova Frente Popular, visando impedir o avanço da extrema-direita. No entanto, apesar de ter conseguido vencer na segunda volta, a Frente Popular não pode formar governo unicamente com a sua coligação, mantendo-se o forte impasse político que tem assolado a França e dado força ao Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen.

Na Bélgica, um dos países fundadores da União Europeia e historicamente defensor da democracia, os resultados das eleições deste ano deram ainda mais força ao partido de extrema-direita Vlaams Belang, que conseguiu um sólido segundo lugar.9

Por último, num dos países mais bipartidos politicamente da Europa, a extrema-direita também teve capacidade de aumentar a sua força. Vencidas pelo Partido Trabalhista, as eleições gerais britânicas, para além de acabarem com os 14 anos de poder dos Conservadores, levaram o líder da extrema-direita, Nigel Farage, a conseguir um assento parlamentar após oito tentativas.10

Aliada à ameaça da extrema-direita, o crescimento de ideais pró-russos na Europa tem colocado cada vez mais em causa a prosperidade das democracias europeias. Apesar de estarem longe do poder na maioria da Europa, os partidos pró-russos têm crescido fortemente em diversos países do Leste europeu. Na Eslováquia, Peter Pellegrini, candidato pró-russo, venceu este ano as presidenciais, reforçando a força do governo populista de Robert Fico, que se tem afirmado muito cético no apoio à Ucrânia.11 Já na Geórgia, a situação mostra-se ainda mais preocupante, com a vitória do Partido Sonho Georgiano, também pró-russo, que levou a fortes contestações, principalmente por parte das camadas jovens da população.12

Os resultados eleitorais de 2024 reforçaram vários problemas que têm assolado a Europa. A questão que perdura para os partidos democráticos, passa por uma opção política importante para o futuro da democracia, que é transversal à esquerda e à direita democráticas. Deverão os líderes democráticos reduzir-se ao populismo, numa tentativa de garantir resultados eleitorais favoráveis ao partido, ou manter a seriedade e fidelidade aos ideais que têm garantido o respeito pelos direitos de todos na Europa?

O berço da democracia tem-se mostrado incapaz de conter a ameaça populista e extremista que se tem desenvolvido na ala mais conservadora da política europeia. No entanto, enganam-se os que culpam somente as redes sociais por este fenómeno. A visibilidade dada pelos órgãos de comunicação social aos partidos populistas têm-se mostrado proporcionalmente superior à dos restantes partidos e figuras políticas, assistindo-se também a uma espécie de domínio do espaço de comunicação público por parte da extrema-direita. 

Por exemplo, apesar de se ter provado, mediante vários estudos e estatísticas, que o nível de segurança em Portugal tem-se mantido estável, a quantidade de notícias relacionadas com a imigração e com pequenas ilegalidades tem aumentado substancialmente com o crescimento da extrema-direita, que tem conseguido aproveitar o espaço mediático para consolidar assuntos que permitam o seu crescimento. Simultaneamente, a ação dos tribunais tem sido insuficiente para controlar a propagação do ódio, limitando-se a condenar leve e raramente os responsáveis. 


Acima de tudo, o combate contra a extrema-direita e contra o populismo passa pela limitação da tolerância, uma vez que, como afirmou Karl Popper no seu livro A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos: “Se estendermos a tolerância ilimitada aos intolerantes, e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da tolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles.”13

Referências

  1. O’Neill, A. (2025). Global elections in 2024 – Statistics & Facts. Statista. https://www.statista.com/topics/12221/global-elections-in-2024/ ↩︎
  2. (2024). Parlamento. https://www.parlamento.pt/Parlamento/Paginas/ResultadosEleitorais.aspx ↩︎
  3. Borges, L. Lopes, M. (2024). Aguiar-Branco condena “vandalização política”, PAN e Livre ponderam queixa-crime contra o Chega. Público. https://www.publico.pt/2024/11/29/politica/noticia/aguiarbranco-condena-vandalizacao-politica-pan-livre-ponderam-queixacrime-chega-2113891 ↩︎
  4. Scott, S. (2024). Right wing movements are growing in Europe. How do they differ from those in the U.S.? NPR. https://www.npr.org/2024/07/06/nx-s1-5026953/right-wing-movements-are-growing-in-europe-how-do-they-differ-from-those-in-the-u-s ↩︎
  5. Guimarães, M.J. (2025). Crise política na Áustria: direita radical mais perto de chefiar governo. Público. https://www.publico.pt/2025/01/05/mundo/noticia/crise-politica-austria-falharam-conversacoes-governo-2117668 ↩︎
  6. (2025). Extrema-direita convidada a formar governo pela primeira vez na Áustria. RTP. https://www.rtp.pt/noticias/mundo/extrema-direita-convidada-a-formar-governo-pela-primeira-vez-na-austria_v1625680 ↩︎
  7. Euronews Romania. (2024). Candidato presidencial romeno, o “Messias do TikTok”, é uma estreia para a Europa. EuroNews. https://pt.euronews.com/2024/11/27/candidato-presidencial-romeno-o-messias-do-tiktok-e-uma-estreia-para-a-europa ↩︎
  8. (2024). France legislative election 2024. POLITICO Poll of Polls. https://www.politico.eu/europe-poll-of-polls/france/ ↩︎
  9. (2024). Belgium — 2024 general election. POLITICO Poll of Polls. https://www.politico.eu/europe-poll-of-polls/belgium/ ↩︎
  10. Machado, A. Capucho, I. (2024). Os resultados das eleições do Reino Unido. Trabalhistas voltam ao poder 14 anos depois com maioria absoluta, catástrofe para conservadores. Observador. https://observador.pt/2024/07/05/os-resultados-das-eleicoes-do-reino-unido-trabalhistas-voltam-ao-poder-14-anos-depois-com-maioria-absoluta-catastrofe-para-conservadores/ ↩︎
  11. (2024). Slovakia — European election 2024 results. POLITICO Poll of Polls. https://www.politico.eu/europe-poll-of-polls/slovakia/ ↩︎
  12. Gavin, G. Parulava, D. (2024). Georgia’s ruling party on course for victory amid charges of vote-rigging. POLITICO. https://www.politico.eu/article/georgias-ruling-party-on-course-for-win-amid-charges-of-election-rigging/ ↩︎
  13. Popper, K. R. (1945/2012). A sociedade aberta e os seus inimigos: Volume I: O sortilégio de Platão (1ª ed. em português, Cap. 7, Nota de Rodapé 4). Lisboa: Edições 70. ↩︎

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Simão Cera, natural de Cantanhede, nasceu a 18 de fevereiro de 2006. Está atualmente a estudar Ciência Política e Relações Internacionais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa.

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