Entre a Amputação e a Poda

"Não gosto de chamar ‘’virtual’’ a algo que está tão impregnado e presente na vida de todos, pois se estas plataformas existem, embora em bases de dados ou servidores, é porque são tão reais como os livros das minhas prateleiras ou os filmes que vi no cinema."

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Ansiava, há alguns meses, um mergulho digno no mar que me lembrasse o prazer que senti ao me imergir em águas salgadas e ondulantes. Consegui-o finalmente há uns dias. Enquanto aproveitava a frescura do mar a abraçar-me o corpo, senti uma presença. Alguém a deslocar-se até mim.

Tenho a sorte de ter uma extrema e impressionante capacidade de fixar caras, nomes e as circunstâncias que me levaram a determinada pessoa. Reconheci-a imediatamente. Esta mulher, outrora colega no emprego que mais detestei ter até hoje, decidiu nadar na mesma praia a que decidi ir. No meio de milhares de pessoas que nunca vi, uma cara conhecida obrigou-me a socializar num momento que eu achava estar reservado à minha solitude.

Ultrapassados os salamaleques comuns no início de conversas que não se está à espera de ter, como resposta à minha constatação de que não nos víamos ou falávamos há mais anos do que conseguia lembrar, ela respondeu-me: ‘’Ah, sim, apaguei todas as minhas redes sociais há 4 anos’’. Não consegui esconder o espanto e foi justamente essa minha reação que me tem desconcertado desde então. O quão improvável e disruptivo me pareceu alguém da minha idade não ter o seu cantinho plantado na ‘internet’.

Tendo nascido precisamente a meio da década dos anos 90, faço parte da geração que assistiu ao crescimento expansivo da ‘internet’ e à forma sorrateira e destemida com que se infiltrou na nossa vida. Não com um pontapé na porta, mas com a confiança de quem arranjou um molho de chaves e não tem vergonha de entrar. Foi na minha adolescência que as redes sociais se tornaram o projeto daquilo que são hoje. Lembro-me da ânsia que havia em fotografar momentos do dia para poder publicar depois; do início do cativeiro dos ‘likes’ e dos comentários; do despoletar da curadoria dos nossos dias, roupas, corpos e feições, para que o ‘feedback’ fosse o melhor e em maior quantidade possível. Sem nos apercebermos, vivemos uma mudança dramática na forma de nos relacionarmos com os outros e com o mundo.

Sem sabermos, enterramos um ‘’antes’’ e demos forma a um ‘’depois’’. Passadas quase duas décadas, custa-me lembrar como era a vida que antecedeu tudo isto.

Em 2017, decidi deixar de ser apenas consumidora e tornar-me também criadora de conteúdos, embrenhando-me mais ainda nesta teia emaranhada que são as redes sociais. O que eu partilhava por lá contaminava a minha vida e vice-versa. Sem dar por isso, criei uma continuação da minha pessoa num plano formado por zeros e uns. Apaixonei-me pela partilha, pelo retorno imediato e pela forma como conseguia moldar a realidade para se parecer mais ou menos com aquilo que eu queria que as pessoas achassem de mim. De forma mais consciente e controlada, faço-o até hoje, como qualquer pessoa nas redes sociais, por mais verdadeiras e reais que se autoproclamem.

Ninguém partilha tudo (ainda bem) e ao não partilhar tudo estamos a escolher como queremos que o mundo nos veja. É uma constatação com a sua dose de deprimência, não nego. Por isso mesmo, nos últimos anos, tenho feito um esforço para que os meus tempos livres sejam povoados por mais do que ‘selfies’, viagens e anúncios de gravidezes alheias. Com isso, sinto que algo do meu tempo presente e do passado que tive me foi devolvido.

Apesar de tudo, quando me deparei com alguém sem esta parte virtual e encenada da vida, reagi como se lhe faltasse um bocado de alguma coisa. Como se um braço lhe tivesse caído enquanto me relatava os motivos para o ter feito. O quão mais leve e feliz se sentia. A quantidade de coisas que fazia no mesmo tempo que antes se prendia ao telemóvel a comparar-se com a vida dos outros. Tudo o que lhe saía pela boca fazia total sentido, no entanto, eu não conseguia desbloquear o espanto de alguém da minha idade, não ter qualquer contacto com as redes sociais há tanto tempo. Foi um misto de estranheza e admiração, que conservo passados já vários dias. Apesar de estar também eu a tentar viver cada vez mais deste lado carnal da vida, vendo claramente o bem que isso me tem feito, noto o quanto esta realidade paralela que criei na ‘internet’ faz parte da minha vida real e de como não estou disposta nem preparada para a renegar totalmente. Não sei o que isso diz sobre mim e talvez nem queira saber.

Não gosto de chamar ‘’virtual’’ a algo que está tão impregnado e presente na vida de todos, pois se estas plataformas existem, embora em bases de dados ou servidores, é porque são tão reais como os livros das minhas prateleiras ou os filmes que vi no cinema. Por mais que me espante, quando alguém me diz que não gosta de ver filmes, não vejo esse facto como uma anomalia da personalidade dessa pessoa. O facto de o fazer com a presença ‘online’, planta um questionamento que eu, e qualquer pessoa que se sinta identificado, deve explorar e levar a sério.

Talvez o exercício a fazer seja o de aceitar que as redes sociais vieram para ficar, que nos podem acrescentar muito, mas que não podem ser a nossa vida. Que a vida se faz essencialmente de nasceres-do-sol, tardes de conversa com amigos, ronhas na cama e palavras ditas ao vento. Daquelas que nos saem e não ficam escritas em lado nenhum.

Há cortes que nos acrescentam e mudam. Não como uma amputação de membros e sim como uma poda, aparentemente abrupta, mas que traz escondida a possibilidade de evolução. Eu pensava que ia apenas dar um mergulho no mar, ficar a boiar à superfície. Uma antiga colega de trabalho fez com que tivesse de mergulhar mais fundo.

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Bárbara Cardoso nasceu em 1995, no Algarve. Desde sempre a arte foi o seu principal interesse, não conseguindo imaginar a vida sem lápis, papéis e cores em volta. Por isso mesmo, licenciou-se em Artes Visuais embora a sua paixão pela escrita tenha começado a desabrochar nessa altura também.

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