Hoje, ao celebrarmos o Dia Nacional do Psicólogo, somos impelidos a refletir sobre a silenciosa, embora fundamental, revolução que estes profissionais têm vindo a orquestrar no cenário da saúde mental em Portugal. De forma quase invisível, mas profundamente eficaz, a psicologia tem-se revelado uma ciência capaz de desbravar as intricadas veredas da mente humana, oferecendo luz onde antes só havia escuridão. É no mais ínfimo detalhe da vida quotidiana que reside a complexidade do ser humano – e é aí que os psicólogos operam, com uma destreza que merece mais do que aplausos esporádicos num dia de setembro.
O psicólogo, no fundo, é um explorador das profundezas humanas. Armado com conhecimento e uma curiosidade insaciável, desvenda comportamentos, emoções e processos mentais que muitas vezes nem nós, protagonistas de tais processos, conseguimos compreender. Contudo, este papel não é devidamente reconhecido. Em Portugal, há ainda uma teimosa resistência em conceder a devida importância aos psicólogos, seja no contexto clínico, educacional ou organizacional. E, sejamos honestos, numa sociedade que continua a preferir o remédio fácil ao entendimento profundo, a tarefa do psicólogo não é apenas difícil – é hercúlea.
Vivemos tempos em que a saúde mental se tornou a nova fronteira da saúde pública. A pandemia de COVID-19, com todas as suas consequências, não fez mais do que expor aquilo que muitos de nós já sabíamos, mas poucos se atreviam a dizer em voz alta: as nossas mentes estão sobrecarregadas, e não sabemos como lidar com isso. A ansiedade, a depressão e outros transtornos mentais são agora nossos companheiros diários, e os psicólogos, incansáveis, têm estado na linha da frente, tal como os médicos e enfermeiros, mas com uma subtileza que raramente é notada.
E depois há a neuropsicologia, essa especialidade quase misteriosa que liga o cérebro ao comportamento. Num país onde a saúde mental ainda luta por reconhecimento, a neuropsicologia emerge como uma espécie de farol, iluminando o caminho para diagnósticos mais precisos e tratamentos mais eficazes. Através de testes que por vezes nos fazem sentir que estamos a ser avaliados, os neuropsicólogos conseguem compreender a complexidade do cérebro. São estes testes, e as intervenções que se seguem, que têm permitido que pessoas com lesão cerebral, demências ou distúrbios do desenvolvimento possam recuperar alguma normalidade nas suas vidas.
Portugal, com a sua habitual lentidão em abraçar o novo, tem vindo, a custo, a reconhecer o penhorado valor da neuropsicologia. A integração desta especialidade avançada nos cuidados de saúde mental é crucial, sobretudo no diagnóstico precoce de condições potencialmente devastadoras. A ciência que hoje celebramos não é estática; está em constante evolução, com avanços quer em neuroimagem, quer nas novas técnicas de intervenção que deixam até os mais céticos de queixo caído.
Mas nem tudo são rosas. A saúde mental em Portugal ainda enfrenta desafios que não podemos ignorar. A literacia em saúde mental é quase caricata, e o estigma, esse monstro invisível, continua a afastar muitos dos cuidados necessitados. As listas de espera são intermináveis, e a distribuição desigual dos serviços é uma piada de mau gosto. A integração dos psicólogos nos cuidados primários de saúde, algo que parece tão óbvio, continua a ser mais uma ideia bonita do que uma realidade prática.
Assim, neste Dia Nacional do Psicólogo, ao mesmo tempo que celebramos, devemos também exigir. Exigir mais valorização, mais reconhecimento, mais investimento. Porque a saúde mental não pode continuar a ser a prima pobre da saúde. Os psicólogos, com a sua dedicação e especialização, são a chave para um futuro onde a saúde mental possa ser, finalmente, uma prioridade. E, se quisermos um futuro melhor, é imperativo que comecemos a agir agora.