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A very American coup

Tempo de leitura: 3 minutos

Em agosto de 1991, quando generais e KGB tentaram fazer desaparecer Gorbachev de cena com um ‘putsch’ militar, a televisão dos insurretos aquietava uma população estupefacta com a repetida transmissão d’O Lago dos Cisnes. Foi o que faltou à estranha deposição de Joe Biden. De resto, tudo no surreal episódio teve algo de inconfundivelmente tardo-soviético. O Presidente desapareceu de cena nebulosamente, em ignomínia e pelas traseiras da História: se LBJ anunciou de frente e olhos nos olhos, em 1968, que não concorreria a segundo mandato, Biden fê-lo sem um discurso público ou uma banal conferência de imprensa. O bidenismo foi enterrado com uma carta digitalizada, rematada por uma assinatura que pode ou não ser genuína, colocada no X sabe-se lá por quem. 

Assim se faz um golpe de Estado ‘the American way’. Mas, ora, é imperioso que ninguém dê por nada – para os ocidentais de hoje, O Lago dos Cisnes tranquilizador é o burburinho acéfalo do comentariado profissional. A sua última tese? Que o presidente abdicou voluntária e generosamente do poder. Os mesmos que ao longo dos anos nos garantiram, contra o que os nossos olhos viam e os nossos ouvidos ouviam, que Biden era titã de loquacidade e vigor, pedem-nos agora que finjamos que não houve ‘putsch’. Paizinho dos povos, escravo abnegadíssimo do bem comum, Biden teria deixado a Casa Branca em derradeiro ato sacrificial de herói, tudo em defesa dos nossos valores. Poucos terão caído na patranha. O autor viu-o, o leitor viu-o, o mundo inteiro o viu: Biden não saiu; foi enxotado com um pau. Vencedor indiscutível das primárias, o presidente americano foi deposto nas sombras por Obama, Pelosi, plutocracia aliada e respetiva criadagem, no Congresso e no aparelho opinativo-mediático. Em peça sobre o golpe, o sempre bem informado Politico [1] põe tudo em pratos limpos: ‘Nancy [Pelosi] deixou claro que a renúncia de Biden poderia dar-se a bem ou a mal’. O texto, que é de candura refrescante, continua: ‘[Pelosi] deu [a Biden] três semanas para fazer as coisas a bem. Estávamos prestes a começar a fase das coisas a mal’. Q.E.D.

Não é todos os dias que o gangsterismo político é tão livremente assumido. O tema, aqui, não é tanto a súbita revelação da natureza sinistra da política de corredor. No fundo, todos sabemos que assim foi, é e será a política – por muito que possamos preferir fechar os olhos a essa realidade inquietante. O que surpreende é que os autores da conspiração se sintam confortáveis em dizer-nos tão francamente o que fazem (discutem-no nos jornais!), mesmo se, em culminâncias de orwellianismo, nos pedem que pensemos que não fizeram o que publicamente afirmaram fazer. É a mesma ousadia que lhes permite mover perseguição judicial a Trump e depor em conjura Biden – candidato escolhido com o voto de quinze milhões de americanos – enquanto, compostos, se dizem paladinos da democracia face ao perigo mortal da serpente populista. Sobre excecionalismos melífluos e outros delírios solipsistas, ficamos concludentemente conversados. Ostrogorski e Michels teriam gostado de ver.


[1] Politico. (2024, 21 de julho). Why Biden finally quit. Disponível em https://www.politico.com/news/2024/07/21/why-biden-dropped-out-00170106

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Rafael Pinto Borges é politólogo e historiador. Tem desenvolvido colaboração com a revista The European Conservative, o Jornal Novo, o Público, o Observador, O Diabo e o Bom Dia (Luxemburgo).

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