A epidemia do evitamento

“Vivemos tão voltados para nós, preocupados com as nossas próprias idiossincrasias e realidade, que nos esquecemos do outro [...] Estamos perante um paradigma de evitamento experiencial consonante com o outro, também, paradigma atual de individualismo e egocentrismo.”

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Antes de mais, devo começar por esclarecer que evitar é um comportamento inerente ao ser humano e que por vezes é extremamente útil. Claro que, se apenas fosse útil, não escreveria sobre isto, mas porque é que isto é importante? Vejamos a seguinte situação: estamos num meio de transporte público, de fones, a olhar para o telemóvel (acredito ter feito uma boa representação do que acontece na generalidade), quantas coisas perdemos durante esta viagem? Quantos olhares perdidos que necessitam de companhia passaram por nós? Quantas pessoas entraram no mesmo local e nós nem a sombra quisemos ver? Claro que todas as questões podem ser respondidas como “nenhum(a)”, mas também podem ser respondidas como: “uma senhora idosa precisava do meu assento” ou “encontrei um colega de velha data”. A verdade é que evitamos muitas vezes por indisponibilidade psicológica para lidar com diferentes cenários, pelo cansaço, pela indisponibilidade emocional, ou, por vezes, aprendemos simplesmente que este é o comportamento mais “fácil” de tantas vezes praticarmos.

Atrevo-me, como disse no parágrafo anterior, a ponderar que o mais provável é o facto de ser mais “fácil”. Estamos perante um paradigma de evitamento experiencial consonante com o outro, também, paradigma atual de individualismo e egocentrismo, onde evitamos o meio envolvente para impedir ou inibir experiências angustiantes (ou mesmo rotineiras, ao cair no erro de desvalorizar cada segundo da nossa vida), como pensamentos, emoções, comportamentos, atitudes, entre outros, que possam, ou não, afetar-nos. Vivemos tão voltados para nós, preocupados com as nossas próprias idiossincrasias e realidade, que nos esquecemos do outro. Esquecemo-nos daquela pessoa que muitas vezes anda de transportes sem rumo porque não tem com quem falar e ali tenta estabelecer uma conexão, ou da pessoa que está a sentir-se mal, mas simplesmente ignoramos porque, quem nunca disse, “não é nada comigo”.

Muitas vezes é um olhar meigo ou um sorriso, é o estar presente e saborear cada sentido, cada momento, é poder olhar, é (para os meus queridos leitores nortenhos) atravessar de metro a ponte D. Luís e absorver a bela vista do rio Douro, é observar o nosso meio e as pistas que ele nos dá, pois, como disse, o evitamento pode ser muito útil, mas para situações de perigo, e, quando usamos e abusamos desta estratégia, perdemos pistas, perdemos formas de saber por onde fugir, perdemos a capacidade de nos orientarmos. Por isso, vamos deixar de olhar para o telemóvel, conversar com aquela pessoa que está a sorrir para nós ou que inicia uma conversa e tão prontamente damos respostas frias e vazias, começar a valorizar o ambiente, o ver, o sentir, o estar presente e fundamentalmente o carpe diem.

P.S. mais à frente escreverei do mal comum associado ao evitamento: a procrastinação.

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Olá! Sou o José, mas prefiro Zé, tenho 23 anos. Alma do norte, gaiense de coração. Apaixonado desde novo por psicologia e pelo comportamento humano, especialmente no que concerne a personalidade e o desenvolvimento.

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