Sempre a um Passo, nunca Suficiente

“Já não basta poder ser tudo. Parece que temos de ser tudo ao mesmo tempo.”

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Durante anos, disseram-nos que podíamos ser tudo. Crescemos a ouvir que o futuro pertence aos mais resilientes. Aos mais criativos. Aos mais inovadores. Trata-se de uma mensagem inspiradora, de facto. Contudo, algures pelo caminho, tem passado por um processo de metamorfose, transformando-a noutra bem diferente. Já não basta poder ser tudo. Parece que temos de ser tudo ao mesmo tempo.

Hoje, um estudante não costuma ser apenas e por si só um estudante. Espera-se que construa, de médio a longo prazo, um currículo académico sólido. Que faça voluntariado, participe em eventos dos mais diversos géneros, e que aprenda, no mínimo, uma língua estrangeira. E, no entretanto, que domine ferramentas de automatização, tenha experiência profissional antes de terminar o curso, e mantenha uma presença cuidada nas redes sociais. Ainda, se possível, que desenvolva um projeto próprio. Tudo isto enquanto vai descobrindo quem é.

Esta realidade torna-se particularmente curiosa numa época em que tanto se fala de bem-estar. De equilíbrio. No entanto, quase toda a vida à nossa volta parece ter sido plantada no espetro oposto. Já não descansamos apenas para recuperar, mas para sermos mais produtivos no dia seguinte. Já não fazemos exercício físico por puro prazer ou pela nossa saúde, mas porque nos aumenta o rendimento ou por motivos estéticos. Até as nossas atividades de tempos livres parecem precisar de justificar a sua utilidade.

A Inteligência Artificial tem intensificado esta sensação. Se uma máquina se mostra capaz de aprender mais depressa e produzir mais rapidamente, nasce em nós a forçosa dúvida em relação à serventia da função que desempenhamos. Do nosso papel efetivo enquanto humanos. Aqui poderá residir a génese da sensação permanente de atraso. Não porque estejamos realmente atrasados, antes porque nos ensinam a comparar o nosso percurso com o momento mais brilhante da vida de centenas de pessoas diferentes.

Creio que tendemos a medir o sucesso com réguas que se revelam ligeiramente inúteis. Uma sociedade coesa não nasce da procura ininterrupta pelo extraordinário. Nasce da confiança de que cada um fará, com rigor e responsabilidade, aquilo que lhe compete. Daqueles que todos os dias acordam a ferver a mesma ideia, com a mesma vontade.

O professor que prepara uma aula. O médico que veste a bata. O polícia que chega a tempo. O investigador que insiste numa hipótese. O funcionário que resolve um problema com honestidade. Até mesmo o vizinho que ajuda sem esperar reconhecimento. É neste compromisso silencioso com o quotidiano que se constrói o bem comum.

Confundimos, diversas vezes, excelência com excecionalidade. A primeira constrói-se com consistência. Com esforço, dando tempo ao tempo. A segunda tornou-se uma exigência permanente, sustentando-se, dentro de nós mesmos, como uma obrigação. E viver com a obrigação de ser excecional é uma forma subtil de nunca nos sentirmos suficientes.

Talvez a maior liberdade que possamos conquistar não seja a de podermos ser tudo, mas a de deixarmos de sentir que temos de o ser. A de olharmos para o que há em nós, todos os dias, com o mesmo espanto.

No fim, a resposta pode ser arrebatadamente mais simples do que imaginamos. Fazer bem aquilo que escolhemos fazer. Estar verdadeiramente presentes onde estamos.

Que consigamos ser inteiros e, sobretudo, sentir-nos inteiros, nunca saindo de nós mesmos. Libertar-nos, regressando a António Variações, deste “estado de ansiedade”, desta “pressa de não chegar tarde”1. E escreveu Fernando Pessoa: “Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes.”2


Referências bibliográficas

  1. Variações, A. (1983). Estou além [Canção]. In Anjo da guarda. Edições Valentim de Carvalho. Disponível em: https://genius.com/Antonio-variacoes-estou-alem-lyrics ↩︎
  2. Reis, R. (2000). Poesia (M. Parreira da Silva, Ed.). Assírio & Alvim. ↩︎

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Estudante de Matemática Aplicada à Economia e à Gestão. Além do percurso nas ciências exatas, foi através da música e do teatro que descobri o sabor da expressão artística. A escrita tornou-se uma extensão natural deste trajeto, adquirindo a forma de um espaço de construção do meu próprio pensamento.

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