Reino Unido: A ressaca de um império

"Depois de séculos a construir um império, o Reino Unido pode estar finalmente a enfrentar a parte mais difícil da História [...]."

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Há qualquer coisa de particularmente irónica em ver o Reino Unido discutir a possibilidade de deixar de ser… um reino unido.

Depois de séculos a desenhar fronteiras pelo mundo, a decidir quem pertence a quê e a explicar aos outros povos que a autodeterminação é um princípio bastante discutível quando não coincide com os interesses de Sua Majestade, Londres parece finalmente estar a receber a pergunta de volta: “E se forem vocês a ter de aceitar que alguém quer sair?”

A Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte estão a aproximar-se politicamente da ideia de que os seus povos devem poder decidir o próprio futuro. E, naturalmente, Westminster não parece particularmente entusiasmado com a ideia.

É curioso.

Quando um Estado quer recuperar a soberania, chama-se democracia. Quando uma nação dentro desse Estado quer fazer exatamente o mesmo, aparentemente é preciso uma reunião, três comissões, cinco pareceres e, se possível, esperar mais uns vinte anos.

Talvez esta seja a ressaca do império: não o desaparecimento das bandeiras, mas a dificuldade em aceitar que já não se pode decidir tudo a partir do centro.

Durante demasiado tempo, a imagem do Reino Unido foi construída como uma união naturalmente sólida. A Inglaterra, a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte têm sido apresentados como peças de um mesmo puzzle, convenientemente esquecendo que algumas dessas peças passaram séculos a discutir, e por vezes a lutar, contra a forma como o puzzle estava montado.

E há uma palavra que me parece essencial nesta discussão: união.

Uma união não é uma prisão. Não é um casamento em que uma das partes pode dizer: “Não vais embora, porque eu não autorizo”. E muito menos deveria ser uma espécie de contrato eterno, cuja validade depende exclusivamente de quem tem mais poder para o interpretar. Se uma parte de uma união já não quer continuar nela, a resposta democrática não deveria ser: “Não podes”. Deveria ser: “Vamos perguntar às pessoas.”

É claro que a independência não é uma solução mágica. Não transforma salários baixos em altos, não constrói casas por decreto e não resolve automaticamente décadas de problemas económicos e sociais. Um país independente pode continuar a ser mal governado. Pode até descobrir que estava melhor antes.

Mas isso é precisamente o que torna um referendo importante: permitir que as pessoas decidam, sabendo que a escolha tem consequências.

O argumento de que “a independência seria demasiado complicada” também me parece cada vez menos convincente. Claro que seria complicada. Separar países é complicado. Criar fronteiras, instituições e novas relações económicas é complicado. Mas manter uma união política contra a vontade de uma das partes também é complicado.

A diferença é que, nesse último caso, chamamos-lhe estabilidade. E talvez estejamos simplesmente a confundir estabilidade com hábito.

O Reino Unido está a descobrir aquilo que tantos outros Estados já descobriram: uma identidade política não pode ser mantida eternamente por nostalgia.

A grandeza imperial pode estar nos livros de História. O império pode ter acabado. Mas a mentalidade de que Londres deve continuar a ser o centro natural de tudo parece ter sobrevivido bastante bem.

E é aqui que o Brexit torna tudo ainda mais interessante.

Durante anos, o argumento central dos defensores do Brexit foi que o Reino Unido deveria recuperar o controlo sobre as suas próprias decisões. “Take back control”, diziam.

Agora, há quem, dentro do próprio Reino Unido, queira fazer a mesma afirmação.

A Escócia quer decidir por si. O País de Gales quer discutir seriamente o seu futuro. Na Irlanda do Norte, a possibilidade de uma Irlanda unida deixou, há muito, de ser uma fantasia política distante.

De repente, a soberania deixou de ser uma palavra bonita utilizada contra Bruxelas e passou a ser uma questão inconveniente dentro de casa.

É difícil não achar graça.

O Reino Unido quis recuperar o controlo. Agora, parece que está a descobrir que o controlo também pode ser recuperado por quem está debaixo do seu próprio teto. Mas talvez seja precisamente aqui que devemos abandonar a piada e levar a questão a sério.

Porque não estamos apenas a falar do Reino Unido. Estamos a falar de uma pergunta que atravessa a Europa: até onde deve ir o direito de uma nação de decidir o seu próprio futuro? E essa pergunta não desaparece só porque é incómoda.

Pode ser conveniente defender a autodeterminação quando estamos a falar de um povo de que gostamos. Torna-se muito mais difícil quando esse povo quer sair de uma estrutura que consideramos legítima. É aí que se testa a coerência.

Por isso, não me parece que devamos olhar para a possibilidade de o Reino Unido se desagregar como uma tragédia inevitável. Pode ser uma perda, pode ser um erro, pode ser economicamente doloroso. Mas também pode ser uma consequência perfeitamente democrática de uma união que deixou de convencer todos os seus membros.

Talvez o verdadeiro fracasso não seja um país querer sair. Talvez seja um Estado chegar ao ponto em que já não consegue explicar aos seus próprios cidadãos por que razão devem querer ficar. E essa é uma pergunta muito mais difícil do que: “Como impedimos a independência?” Porque impedir é fácil. Dissuadir é que dá trabalho.

Depois de séculos a construir um império, o Reino Unido pode estar finalmente a enfrentar a parte mais difícil da História: perceber que os outros também têm direito a escrever a sua.

A verdadeira ressaca, afinal, não é só de um império. É da ideia de que algumas uniões devem durar para sempre simplesmente porque alguém, algures em Londres, decidiu que assim deveria ser.

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Formação superior em Marketing Digital, tem vindo a aprofundar os seus conhecimentos na área da Cidadania Europeia e Globalização. O seu percurso cruza comunicação, política e ativismo, com particular interesse pelas questões sociais e políticas que marcam a realidade madeirense, pela insularidade e pelos desafios colocados às novas gerações.

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