Sei que me habita algo de utopia. Esse outro lugar possível, onde os únicos dias de calendário seriam os celebrativos. Onde se agradece, simplesmente. Todos os outros, destinados a recordar direitos ou necessidades, como a paz, deixariam de existir, por serem irrelevantes. Nesse lugar, haveria pessoas com compreensão de respeito, cuidado, sentido do outro, na dignidade igual em cada rosto humano.
— Anjos, portanto — dizia-me alguém quando comentava este meu sentir numa conversa.
Nós, como seres de carne, somos atravessados pela sobrevivência. Nas entranhas das células, em ADN profundo, estão-nos inscritos milhões de anos de adaptação para sobreviver. Luta, fuga ou bloqueio são os mecanismos de reação diante de um perigo. Quando acontece o perigo, perde-se o estado de serenidade. A sobrevivência está em primeiro lugar. E o mais apto dá seguimento à espécie. O mais fraco fica pelo caminho. Isto diz-nos, em resumo, a lógica da sobrevivência.
Mas não somos chamados à sobrevivência. Somos chamados à vida. Se a sobrevivência é caracterizada pelo modo de defesa, pela possibilidade de ataque, a vida é caracterizada pela paz que convida à construção da comunidade em colaboração. Mas, como avançamos para a consciência da vida?
Um dos caminhos é o do conhecimento. Instintivamente, podemos aprender mecanismos de sobrevivência. Mas, como humanos, aprender a pensar é fundamental para abrirmos horizontes, saindo da pequenez das visões cultural, social, religiosa e espiritual. A expansão da visão exterior pode encaminhar-nos à expansão da visão interior. Quem sou? Como me sinto? Que sonhos tenho? Quando oriento formações sobre relações humanas e espiritualidade, desafio a que se responda a estas perguntas e, em geral, há silêncio, confusão, estranheza. Penso: o desconhecimento leva à reação, ficando no instinto; conhecermo-nos leva à ação, onde a emoção se interliga com a racionalidade.
O desafio de nos conhecermos é tomar consciência de que também nos habitam conflitos interiores, entre pulsões, desejos, vontades que nos agitam (até de forma violenta, como ecos de trauma). Conforme a educação, estes conflitos podem ser negados ou reprimidos, levando à paz apodrecida, na qual temas considerados tabu não se tocam em nome de um status pessoal ou familiar. Dar nome, por mais doloroso que possa ser, é caminho de transformação da sobrevivência à vida com paz.
Para dar nome a esses conflitos internos, é preciso tempo e silêncio. Dedicar tempo e silêncio a conhecermo-nos é fundamental. Na imensidão de informação que vivemos, também muito ruidosa, onde somos drenados pela romantização da capacidade de realizar múltiplos afazeres no mesmo momento, ou de estarmos atentos e opinativos, a todas as polémicas que surgem (sabendo que surgem cada vez mais num curto espaço de tempo), o cansaço apodera-se de nós e entramos em modo de sobrevivência. O cansaço que vivemos socialmente impede a vida, logo impede a paz.
Recordo o que escrevi quando terminei o meu segundo retiro de Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loiola de 30 dias em silêncio.
Que mês cheio de humanidade. Com a ajuda de Deus e do seu profundo amor, o silêncio permite a escuta de gritos abafados e contidos, de sussurros do mais poético ao mais mesquinho, perceber mais um pouco a imensidão de tantos afetos que nos atravessam a vida e deixam mossa, desordenando a existência, mas, quando esta se ordena, acontecem largos passos de crescimento ao tamanho de semente. Muita sombra foi iluminada e vista com olhar de respeito e compaixão. Tanta Luz aconteceu, que me permitiu conhecer um pouco mais de quem é Deus, de quem sou. E sentir a profunda paz de ser inacabado, em caminho, comigo e com os outros.
A sabedoria de nos conhecermos orienta-nos no caminho a seguir para tomar melhores decisões sobre a existência. Não se trata de nos alhearmos do que nos rodeia, mas de sabermos pensar, refletir e discernir onde é possível verdadeiramente agir para nos humanizarmos individualmente e em comunidade. Isso traz-nos paz. E pessoas pacificadas interiormente serão contributo de paz na família, no trabalho, na cidade, no mundo, tornando-os lugares de compreensão, de respeito, cuidado, sentido do outro, assentes na dignidade igual em cada rosto humano, em amor-próprio e amor ao próximo, em eco cristão de “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. E a utopia da paz, na vida para lá da sobrevivência, vislumbra-se real.