O Exame Que Ninguém Estudou: O caos dos exames nacionais

"No meio de tudo isto, este ano, talvez o verdadeiro exame não tenha sido feito para os estudantes. Eles fizeram o que podiam, cumpriram o seu papel. Estudaram, sentaram-se à mesa à frente de um juiz feito de papel e responderam ao que sabiam. O resto não dependeu deles."

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Hoje trago-vos uma opinião mais centrada nos meus pensamentos e sentimentos, e não tanto em referências bibliográficas. Estes últimos tempos têm-me levado de volta aos meus 18 anos. Lembro-me da ansiedade dos exames nacionais, das médias, das vagas e daquela sensação de que o meu futuro podia depender de algumas horas dentro de uma sala a escrever tudo o que sabia sobre Os Lusíadas. Na altura, acreditava que o maior desafio era responder corretamente às perguntas. Este ano, milhares de estudantes descobriram que havia outro exame para o qual ninguém os preparou. “Já não bastava estudar.” Pois bem, não há como estudar para lidar com a incerteza, as alterações de notas, os adiamentos e as entrelinhas do Governo.

Recapitulando, em 2026 foi implementado um novo sistema de correção digital dos exames nacionais, procedendo à digitalização das provas e à sua classificação através de plataformas eletrónicas. O processo fazia parte da modernização prevista pelo Ministério da Educação. Surgiram problemas técnicos logo desde o início: atrasos na distribuição das provas aos classificadores; dificuldades de acesso às plataformas; problemas na leitura de Códigos QR; e atrasos significativos na classificação.

Lembro-me de estar a caminho do trabalho e de ouvir uma professora a comentar sobre a postura do ministro da Educação, que referia “falta de interesse” por parte dos professores. Num país em que um dos grupos que mais luta pelos seus direitos e por amor à camisola – e não me refiro ao Benfica – vamos mesmo apontar o dedo aos professores por não se interessarem por uma plataforma à qual não conseguem aceder e à qual, mesmo os que conseguiram, encontraram-na sem acesso às provas? Peço que reconsidere as suas palavras, Sr. Ministro da Educação… Pela saúde dos portugueses, visto que milhares de professores classificadores trabalharam sob pressão, com alterações de procedimentos, atrasos e um processo que acabou por gerar desgaste adicional. Fora as horas extraordinárias que o governo fez questão de referir que seriam pagas. Só não percebemos se foi um lembrete para os trabalhadores ou para o próprio Governo… Pode ter surgido alguma confusão com a sua tentativa de alteração dos direitos dos trabalhadores.

Posteriormente, o Júri Nacional de Exames confirmou erros na parametrização de critérios de classificação em várias disciplinas, o que pode prejudicar o acesso ao Ensino Superior. Segundo os números divulgados pelo Instituto de Educação Qualidade e Avaliação (EduQA) cerca de 26 mil provas foram afetadas; mais de 18 mil classificações foram alteradas; aproximadamente 17 mil notas aumentaram; cerca de mil diminuíram (Casanova & Camilo, 2026).

Alguns estudantes reportaram que receberam exames que continham folhas pertencentes a outro aluno, ou que partes da sua prova estavam “desaparecidas”. Outros estudantes ficaram sem acesso imediato às classificações e muitos obtiveram uma “classificação de -3”, que, afinal, era um código para indicar os resultados que estavam suspensos ou em falta (Instituto de Educação Qualidade e Avaliação [EduQA], 2026), que não era suposto aparecer na pauta e provavelmente fez com que muitos estudantes duvidassem das suas capacidades.

O ministro da Educação procedeu ao seu pedido de desculpas em que afirmou que nenhum aluno seria prejudicado no acesso ao Ensino Superior, que seriam corrigidas todas as situações identificadas e que haveria uma época especial de exames em setembro para responder aos problemas.

O adiamento do início das aulas foi apresentado como uma resposta operacional. Mas que impacto terá nas famílias portuguesas? E porque continua a faltar uma explicação pública suficientemente clara sobre aquilo que correu mal? Existe uma diferença entre “ainda estamos a apurar responsabilidades” e “não sabemos explicar o que aconteceu”. O que alimenta a ânsia e a falta de confiança (Dries et al., 2025) da população portuguesa não é o erro em si, é o vazio de informação, o silêncio do governo. Sabemos, pela literatura sobre ansiedade, que a incerteza pode ser particularmente difícil de tolerar (Dugas et al., 2026), e eu até diria que, por vezes, mais do que a própria má notícia. Isto já para não falar da comparação social entre estudantes, nem eles nem os classificadores estão certos de que foram atribuídas as verdadeiras notas. “Se for para ser avaliado por um número, que seja o certo.” Muitas pessoas preferem ouvir: “Correu mal” do que viver semanas sem perceber o que aconteceu.

Sugiro que se escreva uma carta dirigida ao ministro da Educação que questione qual foi a causa técnica exata de todos os erros; porque é que os testes prévios não detetaram estas falhas; quem assumirá a responsabilidade administrativa ou política; qual o impacto financeiro desta implementação e se existirão auditorias independentes ao processo. A modernização do processo de correção de exames parece-me secundária se refletirmos sobre o que pode ser melhorado no ensino português.

Na comunicação social, pareceu-me haver um maior foco no impacto das notas, calendários e candidaturas, mas faltou mais representação do impacto na saúde mental dos estudantes e das suas famílias, e muito menos dos professores. Poderíamos começar pelas consequências que situações de elevado stress académico podem ter nos estudantes (Pascoe et al., 2020), a meu ver: sensação de injustiça ao receber uma nota e não saber se realmente era aquela, perda de confiança nas suas próprias capacidades e no sistema, desesperança após lidar com vários erros em simultâneo, impotência perante uma instituição e um governo que não consegue dar reposta aos pedidos, e ansiedade pela imprevisibilidade de toda a situação, do futuro, no fundo, e, especificamente, no acesso ao Ensino Superior.

Poderia alongar este tópico também à autoestima, porque, para alguns estudantes, esta nota vai muito além da vida académica: deixa uma marca que pode vincar a sua interpretação de si próprios, que se torna numa confirmação ou negação da própria competência e inteligência. Pode-se referir também a pressão parental que advém da perda económica após marcarem férias que não foram gozadas e/ou de como será estar a suportar a família neste momento. Representam a bicicleta nas alturas, que equilibra os estudantes e familiares até à meta no pavilhão do conhecimento, quase como se os levassem ao colo enquanto caminham numa corda bamba.

Bom, e o que podemos retirar desta situação além do que já foi mencionado? Talvez que esta obsessão pela eficiência não seja eficaz. Uma plataforma pode de facto facilitar o processo de gestão, no entanto, se a implementação falha, pode ter o efeito contrário. Está mais que visto. Não critico a tecnologia, aliás, foi a primeira classificação digital dos exames nacionais nesta configuração em Portugal. A questão poderia ter passado por “Quais são os riscos?” Talvez até se tenha feito uma espécie de análise SWOT e concluído que seria a melhor forma. Se assim foi, porque não dizê-lo publicamente? Porquê adotar o silêncio e propagar a inquietude?

No meio de tudo isto, este ano, talvez o verdadeiro exame não tenha sido feito para os estudantes. Eles fizeram o que podiam, cumpriram o seu papel. Estudaram, sentaram-se à mesa à frente de um juiz feito de papel e responderam ao que sabiam. O resto não dependeu deles.

Talvez tenha sido um exame às instituições, juntando às centenas que já foram feitos ao governo. À sua capacidade de implementar uma mudança, antecipar riscos, responder quando algo corre mal e, acima de tudo, comunicar com quem depende das suas decisões. Errar é humano, mas a reação perante o erro é que dita o futuro, o pensamento e os sentimentos dos eleitores, que são pessoas.

Não sei qual seria a classificação final deste exame. Digo apenas que, se queremos que os estudantes permaneçam motivados e se esforcem, então temos de garantir as condições necessárias e suficientes para que adotem esse caminho. E, baseando-me no desfecho deste exame, afinal, quem é que reprovou?


Referência bibliográfica

Casanova, F., & Camilo, D. (2026, 23 de julho). Erros nos exames já afetaram 26 mil provas. Mais de 18 mil notas foram alteradas. Renascença. https://rr.pt/noticia/pais/2026/07/23/erros-nos-exames-ja-afetaram-26-mil-provas-mais-de-18-mil-notas-foram-alteradas/479376/
Dries, C., McDowell, M., Schneider, C. R., & Rebitschek, F. G. (2025). The effect of uncertainty communication on public trust depends on belief-evidence consistency. PNAS nexus, 4(3), pgaf071. https://doi.org/10.1093/pnasnexus/pgaf071
Dugas, M. J., Koerner, N., & Freeston, M. H. (2026). State of the science: Intolerance of uncertainty. Behavior Therapy, 57(1), 17–36. https://doi.org/10.1016/j.beth.2025.08.009
Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação. (2026, 18 de julho, atualizada a 20 de julho). Informação sobre a afixação das pautas com os resultados dos exames nacionais. EduQA. https://eduqa.pt/informacao-sobre-a-afixacao-das-pautas-comos-resultados-dos-exames-nacionais/
Pascoe, M. C., Hetrick, S. E., & Parker, A. G. (2020). The impact of stress on students in secondary school and higher education: A systematic review. International Journal of Adolescence and Youth, 25(1), 104–112. https://doi.org/10.1080/02673843.2019.1596823

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Licenciado em Psicologia e Mestre em Psicologia Clínica e de Aconselhamento. A sua paixão por Psicologia nasceu consigo. Gosta de pensar que em cada plano terapêutico, tanto ele como o cliente saem do consultório realizados.

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