Temos uma mania que me irrita particularmente: gostamos de dar nomes novos a coisas que, na verdade, já existiam. De repente, tudo precisa de um novo rótulo, de preferência com “AI” lá para o meio. AI Product Designer. AI UX. AI-first. AI-native. Como se bastasse acrescentar duas letras para nascer uma disciplina inteiramente nova. Como se, ao mudar o nome, mudássemos automaticamente a essência.
Não é que os designers só agora tenham de aplicar a neurociência no seu trabalho. Sempre a aplicaram. O que acontece é que desenvolvemos esta necessidade quase compulsiva de criar disciplinas, frameworks e especializações para tudo.
Pegamos numa ideia antiga, damos-lhe um nome mais moderno, colocamo-la numa caixa nova, fazemos umas apresentações bonitas e convencemo-nos de que acabámos de inventar qualquer coisa. A neurociência é uma dessas caixas.
Há qualquer coisa de deliciosamente irónico nisto.
Enquanto aprendíamos a falar a linguagem da inteligência artificial – modelos de linguagem, agentes, prompting, context windows, MCP, RAG e mais duas ou três siglas que, entretanto, já devem ter sido substituídas por outras –, fomos esquecendo a única tecnologia que, apesar de tudo, continua exatamente igual: o cérebro humano.
Investimos milhares de horas a tentar perceber como funcionam os modelos, como escrever melhores prompts, como integrar agentes inteligentes nos nossos produtos. Aprendemos o vocabulário de AI quase tão depressa quanto a própria tecnologia evolui. Ou, pelo menos, tentamos! Mas houve uma coisa que nunca acompanhou esse ritmo frenético: as pessoas.
O cérebro continua a fazer exatamente aquilo que sempre fez. Continua a antecipar o que vai acontecer antes de acontecer. Continua a construir modelos mentais para interpretar o mundo. Continua limitado pela atenção – hoje, o recurso mais disputado de todos –, pela memória e pela capacidade de tomar decisões. Continua vulnerável ao excesso de confiança, à sobrecarga cognitiva e aos mesmos vieses que estudamos há décadas. A tecnologia mudou; a cognição humana nem por isso.
Durante anos, trabalhámos com base num conjunto relativamente estável de pressupostos. As interfaces eram previsíveis. Um botão fazia sempre a mesma coisa. Um formulário seguia sempre a mesma sequência. A mesma ação produzia, regra geral, sempre o mesmo resultado. O nosso trabalho consistia em reduzir a fricção, organizar informações e tornar as interações claras, eficientes, intuitivas e, já agora, visualmente agradáveis.
A inteligência artificial quebrou-nos esse contrato.
Hoje, desenhamos produtos que respondem de forma diferente à mesma pergunta, produtos que aprendem, sugerem, antecipam intenções e que, por vezes, erram com uma confiança quase ofensiva. Sistemas que deixaram de executar apenas instruções para começarem, discretamente, a participar nas decisões.
Deixámos de perguntar: “Como desenhamos esta interface?”, e passámos a questionar: “Como é que desenhamos uma experiência que ajuda as pessoas a compreender, confiar e colaborar com sistemas que, por definição, nem sempre são previsíveis?”
E isto já não é uma pergunta sobre tecnologia – é uma pergunta sobre pessoas. Na verdade, sempre foi. Nós é que andámos demasiado ocupados a olhar para as máquinas e esquecemo-nos de voltar a estudar a forma como pensamos.
Precisamos de compreender quem utiliza estas tecnologias. Precisamos de pensar como o cérebro pensa. De ver como os olhos veem. Precisamos de perceber como a atenção funciona, porque é que ignoramos determinada informação. Porque é que confiamos demasiado depressa e, tantas vezes, aceitamos uma resposta apenas porque foi apresentada com assertividade.
No meio da nossa obsessão em compreender as máquinas, esquecemo-nos de que continua a existir um cérebro entre o ecrã e a decisão. E esse sempre foi, ou sempre deveria ter sido, o verdadeiro objeto de estudo do design.
Esta não é uma competência nova. Nunca foi. Nós, designers (permitam-me a faceta egoísta), apenas lhe fomos dando menos espaço e menos atenção. Mas claro, o mesmo acontece também com engenheiros, gestores de produto, investigadores e profissionais de tantas outras áreas que hoje, direta ou indiretamente, desenham, desenvolvem ou decidem como é que estes sistemas entram na vida das pessoas.
A inteligência artificial não tornou a neurociência relevante. Apenas tornou impossível ignorá-la e voltou a trazê-la para cima da mesa!
Quando uma interface ou uma “experiência” deixa de ser previsível, o trabalho do designer deixa de ser apenas organizar a informação; passa a ser organizar a compreensão.
Continuo a acreditar, ainda que talvez de forma ingénua, que não desenhamos interfaces – nunca desenhámos. Desenhamos a forma como uma mente humana tenta compreender o mundo. E isto, realmente, às vezes é um bico de obra.